Jornal Estado de Minas

ALIMENTAÇÃO

Insetos: fritos, refogados, assados e mais de 2 mil espécies comestíveis



Nas próximas décadas, o mundo precisa descobrir como produzir proteína suficiente para bilhões de indivíduos. Aumentar o sistema atual não é uma solução diante do impacto poluidor que causa no meio ambiente. Adriana Stavro, nutricionista clínica funcional, pós-graduada em doenças crônicas não transmissíveis, destaca que os insetos são um recurso alimentar natural para muitos grupos étnicos na Ásia, África, México e América do Sul, lugares em que a entomofagia (termo usado para descrever o processo de comer insetos como alimento) pode ser sustentável e tem benefícios econômicos, nutricionais e ecológicos.





Adriana Stavro destaca que o número de insetos comestíveis difere em cada região e países, ou seja, 348 espécies são consumidas no México, 250 na África, 187 na China, 83 no  Equador, 60 na Índia, 55 no Japão, 50 na Tailândia e 40 na Nigéria. “O valor nutricional dos insetos varia consideravelmente de inseto para inseto. O sabor e a textura também, tornando esta experiência culinária um desafio. As propriedades sensoriais são critérios importantes que acompanham o consumo de insetos comestíveis. O sabor é definido principalmente por feromônios que ocorrem na superfície do organismo do inseto. Também depende do ambiente onde vivem e dos alimentos que comem. A seleção da alimentação pode ser adaptada, dependendo de como desejamos o sabor dos insetos.”
 
A nutricionista explica que os insetos são bem reconhecidos mundialmente como alimentos nutritivos, uma vez que fornecem proteínas (aminoácidos, incluindo metionina, cisteína, lisina e treonina), carboidratos, gorduras, alguns minerais e vitaminas. “As lagartas, por exemplo, contêm proteínas na extensão de 50-60g para 100g de peso seco; as larvas, de 23-36g; as formigas, de 7-25g; e os cupins, de 35-65g. Essa quantidade é superior à da carne moída (27,4g) ou do bacalhau grelhado (28,5g em média). Quantidades ainda maiores foram encontradas nos bichos-da-seda (90g de aminoácidos  para cada 100g de peso seco), seguidos da lagarta (77,5g) e do grilo (68,7g).” Adriana Stavro  conta que um estudo avaliou o valor nutricional de 78 insetos comestíveis no México e mostrou que o teor de proteínas variou de 15% a 81%. “O mais alto foi encontrado em uma vespa do gênero Polybia. E o inseto mais rico em carboidratos foi a formiga Myrmecosistus melligercom, 77,7%.”

SUPLEMENTAÇÃO 

A nutricionista Adriana Stavro lembra que os insetos são frequentemente consumidos como suplemento (foto: Arquivo Pessoal)


A nutricionista lembra que os insetos são frequentemente consumidos como suplemento. No México, uma “tortilla” é suplementada com larvas, enquanto o cupim suplementa a proteína de milho na Nigéria. As preparações com insetos incluem fritar, refogar, estufar, estufar depois de fritar, ferver e assar. Por exemplo, gafanhotos fritos em latas e formigas cobertas com chocolate são vendidos no México, pipoca com grilos assados e gafanhotos nos EUA, formigas com pipoca na Colômbia, e queijo de larva na Itália são uma iguaria local. “Facilitar aos consumidores a ideia da gastronomia com insetos, trabalhar com farinhas, em que é possível incorporar de forma invisível em alimentos, é uma alternativa. A farinha de grilo é um bom exemplo, ela é muito usada e acrescenta um sabor suave.”





Proteínas, aminoácidos, vitaminas, minerais e quanto à gordura dos insetos? O que se sabe? Adriana Stavro explica que o valor energético dos insetos comestíveis depende de sua composição, principalmente do teor de gordura. Em média, a quantidade de gordura varia de 10% a 60% do peso da matéria seca. Segundo estudo que avaliou o valor nutricional de 78 insetos comestíveis do México, a contribuição calórica variou de 293 a 762kcal por 100g, muitas vezes excedendo as da soja, milho e carne bovina.”

Adriana Stavro informa que mais de 2 mil espécies de insetos são comestíveis. “Globalmente, as mais consumidas são besouros, lagartas, abelhas, vespas, formigas, gafanhotos, grilos, cigarras, cupins, libélulas e moscas. O maior consumo ocorre na África e na América Latina. Na maioria dos países europeus, o consumo humano de insetos é muito baixo e muitas vezes culturalmente inapropriado. No Brasil, a ingestão é bem pequena. Estudo de 2019, que envolveu as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com 1.619 participantes, mostrou que 85,79% dos entrevistados nunca consumiram insetos. Entre os motivos, a falta de familiaridade e a neofobia.”

A nutricionista acredita que o consumo de insetos comestíveis pode ser promovido por meio de estratégias educacionais de aproximação e desmistificação. “Para tentar reduzir as barreiras do nojo, asco e preconceito, a farinha de insetos é uma ótima alternativa para aumentar a aceitação, e introduzir alimentos à base de insetos na dieta dos brasileiros.”





ALERGIA E TOXICIDADE 


A nutricionista avisa que comer insetos pode representar certos riscos que devem ser levados em consideração. “Determinados insetos podem conter substâncias tóxicas, como glicosídeos cianogênicos, e podem causar alergias. Alguns têm uma cobertura externa rígida, formada por quitina, que é de difícil digestão pelos humanos. As pessoas em maior risco são as alérgicas a frutos do mar, como o camarão. Também é importante considerar o risco de transmissão de doenças infecciosas de algumas espécies. A microbiota intestinal de insetos pode ser um meio para o crescimento de micro-organismos indesejáveis.”


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