Jornal Estado de Minas

COMPORTAMENTO

Sonhos: ato de passear por outras dimensões e de cura



Você pode não se lembrar, mas todos sonham e diariamente. E, ao contrário do que muitos imaginam, especialistas não classificam os sonhos como bons ou ruins, mas sim como um sinal benéfico para a saúde mental e física. Uma forma de cada um digerir as experiências da vida. Isso porque até o pesadelo tem um lado positivo, ao aliviar pressões mais fortes.





Estudo publicado pela revista da Associação Americana de Psicologia já mostrou que o sonho ruim serve para aliviar o cérebro de emoções negativas acumuladas, como angústias e problemas do dia a dia. A pesquisa apontou que os pesadelos só devem ser encarados como ruins se interferirem na vida das pessoas, mas eles são um meio de trabalhar emoções difíceis.
  
Outro estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, revelou que o sono na fase REM (sigla em inglês para movimento rápido dos olhos) estimula diretamente o processamento criativo no cérebro, mais até do que o período em que se está acordado. Portanto, sonhar é sempre bom, mesmo em situações terríveis como a pandemia que o mundo enfrenta, que pode ou não influenciar o sonho. Seja de forma premonitória, desejos, avisos, míticos, defesa, indecifráveis, enfim, com inúmeros significados e simbolismo e passíveis de interpretação por especialistas, como neurocientistas, psicanalistas e psicólogos.

Fernanda Rocha, neurocientista, psicóloga e professora da Faculdade Pitágoras, chama a atenção para as consequências da pandemia do novo coronavírus nos sonhos. Ela explica que, para além dos benefícios que todos têm ao sonhar, é preciso se atentar para a qualidade do sono. “Ele é considerado um dos quatro pilares da saúde física e mental. Com a pandemia e todo o arsenal de estratégias de enfrentamento e adaptação que ela nos exigiu, muitas pessoas têm relatado sofrer com insônia. Ou o contrário, dormindo mais tempo que o comum e sem regularidade. Alguns órgãos de saúde pública, nacionais e internacionais, têm registrado e divulgado dados sobre um aumento no adoecimento psíquico das pessoas ao redor do mundo. Consequências individuais e coletivas, de curto, médio e longo prazos, agravando quadros psicopatológicos já existentes e desencadeando novos são algumas das previsões da chamada “Quarta onda da pandemia”.





A neurocientista avisa que o sono é um indicador sensível para problemas cotidianos. “Além de sofrer os efeitos de estresses vividos pelo indivíduo, a baixa qualidade de sono contribui, e muito, para agravar a saúde física e mental. Portanto, se podemos recomendar algo relevante é: durmam bem e sonhem bastante.”


ORÁCULO 


O curioso e estimulante é que o sonho não tem um único significado universal, mas está conectado com as experiências e memórias do sonhador, com suas ações e escolhas no mundo. Assim, ele pode surgir carregado de uma energia capaz de transformar e modificar o curso da vida de uma pessoa. Portanto, é importante prestar atenção nele. O neurocientista Sidarta Ribeiro, vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), lançou em 2019 o livro O oráculo da noite: A história e a ciência do sonho (Companhia das Letras, 2019).

A partir de informações históricas, antropológicas, psicanalíticas e literárias, além das referências atualizadas da biologia molecular, da neurofisiologia e da medicina, o neurocientista compõe uma narrativa instigante sobre a ciência e a história do sonho. E lança questões como: “O que é, afinal, o sonho? Para que ele serve? Como extrair sentido de seus tantos símbolos, repletos de detalhes e significados?”.

Referência no estudo da relação entre sono, sonho e memória, Sidarta Ribeiro sugere que cada um tenha ao lado da cama, à mão, um caderno de anotações para registrar o que foi vivenciado durante o sono, como se fosse um diário, que ele chama de “sonhário”, já que ele assegura que todo mundo sonha quando dorme, de dia ou de noite. E os sonhos podem durar de 40 a 50 minutos.





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