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Estado de Minas

Só a vida não basta

A humanidade não existe sem arte. Ela é um manifesto da presença do homem no mundo desde as pinturas nas cavernas. Na pandemia, é uma forma de respirar e viver a esperança de dias melhores


postado em 21/06/2020 04:00 / atualizado em 20/06/2020 22:07


A artista plástica Gabriella Gonzaga transformou um dos quartos na casa do pai em ateliê nesta quarentena(foto: Arquivo Pessoal)
A artista plástica Gabriella Gonzaga transformou um dos quartos na casa do pai em ateliê nesta quarentena (foto: Arquivo Pessoal)



Mesmo que possa soar, para os que conhecem, repetitivo, ninguém definiu melhor a importância e o valor da arte para o ser humano do que o poeta, escritor, teatrólogo, “imortal” da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores autores brasileiros do século 20, o maranhense Ferreira Gullar, que morreu em 2016, aos 86 anos: “A arte existe porque a vida não basta”. Em tempos de pandemia e os seres humanos ameaçados pela letalidade do novo coronavírus, levados ao isolamento social e ao confinamento, a arte é a dose extra de oxigênio. Sem ela fica impossível respirar. Presente em todo lugar, é sinal da existência da humanidade.

Maria Helena Camargos Moreira, pedagoga, psicóloga e professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), define com precisão: “A arte não tem um sentido utilitário, instrumental. É uma construção genuinamente humana, que pode ser também expressão da cultura e da história de um povo, embora as transcenda, podendo alçar-se como um bem universal. Isso porque, para além dos dialetos, valores e modos de vida, a arte alcança o terreno mais profundo da alma, propiciando uma tela de identificação e expressão de desejos e emoções ainda não inteiramente processados pela razão e pela linguagem. Além disso, ou por conta de tudo isso, a arte aguça a sensibilidade, o senso estético e renova o nosso modo de sentir e pensar sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre os sentidos da vida. A arte nos faz mais humanos ou genuinamente humanos”.

Para Maria Helena, a vida não basta, posto que a saibamos finita e provisória. “Também porque o curso da vida não se coaduna, por vezes, com os nossos desejos e expectativas. Por isso mesmo, em sua dimensão de imprevisibilidade, a vida nos frustra ou até apavora. Já a imaginação pode suplantar tudo isso.” Segundo a pedagoga, para a imaginação que se constrói pela arte, as barreiras podem ser transpostas, já que a fantasia pode seguir o curso de seu voo próprio, ilimitado. Assim sendo, se as vicissitudes da vida nos aprisionam e angustiam, por outro lado, a literatura nos fortalece para enfrentarmos estes tempos difíceis. “A arte não resolve nossos conflitos, não nos poupa de enfrentarmos os desafios, mas, com certeza, abre caminhos para isso.”
 
  
AQUARELA E COLAGEM 

Caminho traçado pela artista plástica e designer gráfica Gabriella Gonzaga, de 27 anos, desde criança: “Sou artista desde pequena, quando achava que as paredes de casa e qualquer pedaço de papel servia como suporte e maneira de traduzir com desenhos tudo que eu imaginava. Sempre cercada de muita cor, muitas reuniões da família que envolviam boas músicas, boa comida mineira e bons papos. Isso influenciava diretamente uma caçula, feito eu, ter uma fonte de imaginação fértil em mim. De alguma maneira isso me nutria”, revela Gabizaga, codinome com o qual assina suas criações.

Gabriella revela que não imaginava onde o mundo das artes e do design a levaria. Incentivada pela família, ela conta que seu pai foi o primeiro artista da vida que lhe influenciou, apesar de não ser artista de formação, mas um mecânico de ferrovia que era apaixonado e fazia tudo pelas filhas. Ela conta que o pai desenhava a mão todos os cenários de festas e fazia até reprodução das capas de filmes de desenhos animados favoritos das fitas K7s.

Dessa semente plantada, Gabriella se descobriu em duas técnicas que definem sua arte: a aquarela e a colagem. Ela se apresenta como uma designer artista que sempre tenta trazer os seus trabalhos para viver o presente. “Sou inspirada pela forma de vida, pensamentos e obras de ícones como Frida Kahlo (está tatuada em seu braço direito), Da Vinci, Maria Auxiliadora, Picasso, Tarsila do Amaral, Portinari, Barbara Kruger e tantos outros. Sou capturada e uso muito de inspiração os livros. A música é parte da minha criação, não faço uma pintura ou colagem sem escutar algo. E amo a capacidade que o teatro tem de me levar para outro mundo.”
 
 
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
 

 Ainda quero convidar meus 
amigos, de quem sinto muita falta, para conhecer esse meu momento de transformação. E dizer que tudo que está sendo criado agora tem o tempero de tudo e de todos que fazem parte da minha vida”


Gabriella Gonzaga, de 27 anos, artista plástica
 
Para Gabriella, a arte sempre foi a síntese dos momentos. Em tempos de transição como este, os registros artísticos são memória e presença fundamentais para contar o que vivemos, afirma. E segue: a arte é essencial para lidar com a reclusão, ela nos ajuda como suporte de reflexão e, principalmente, como um momento de fuga da mente, que hoje anda atolada em um turbilhão de informações rápidas com a internet. Ela sempre terá esse papel de esvaziamento de sentimentos, sejam eles bons ou ruins. É o registro do que consegue colocar para fora de acordo com a sua ótica de mundo.

Com o sonho de ter um canto no qual pudesse expor o seu “caos artístico”, Gabriella revela que o novo coronavírus foi a alavanca para transformar um quarto na casa dos pais em seu ateliê, diante da iminência da quarentena. “Pedi licença aos meus pais, comuniquei ao meu namorado que seu dormitório oficial na casa iria mudar, tirei o guarda-roupa velho, a cama que era da minha irmã e comecei ali a construção de um sonho. Pintei as paredes, usei móveis construídos por meu pai, uma mudança que os ajudou a se distraírem da saudade dos netos. Com certeza, está sendo o meu maior tempo de produção artística de todos os anos.” O ateliê também virou home office oficial da empresa em que ela trabalha como designer.

Mesmo que a nova condição de mundo demore um tempo para se transformar em perto do que era antes, Gabriella diz que ela serviu como uma maneira de valorizar o que já temos por perto. “Ainda quero convidar meus amigos, de quem sinto muita falta, para conhecer esse meu momento de transformação. E dizer que tudo que está sendo criado agora tem o tempero de tudo e de todos que fazem parte da minha vida.”



 
 
 
 

É preciso buscar as várias artes, sejam quais forem, porque elas brindam todos com a fruição necessária ao bem-estar. Especialmente diante da pandemia, se oferecem como possibilidade de expressão


Pilares da vida


Há quem não perceba (será?), mas talvez nunca estivemos tão imersos na arte quanto agora, em tempos de pandemia. Os cinemas estão fechados, assim como os teatros, museus, salas de música, galerias, livrarias, espaços de show... e o que aconteceu? A arte migrou para a internet, para o WhatsApp, para as redes, enfim. E não só artistas profissionais têm se manifestado, inventando novas formas de expor seu trabalho e sua produção; individualmente ou em grupo, pessoas mostram o que produzem ou propõem atividades como leituras de poemas, contos, peças teatrais e exibem habilidades musicais.

Esta percepção é de Maria Cristina Martins de Andrade, professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Fapsi/PUC Minas), que faz da arte  ação, que tem como objetivo divulgar as produções acadêmicas da instituição – semanalmente, às sextas-feiras, às 17h30, via live no canal YouTube da Fapsi (fapsi.pucminas). O projeto, que estreou no último dia 12 junho, jogou luz sobre o tema “Sensibilidades insurgentes: diálogos, psicologia, artes”.

E esta presença visceral ocorre porque a arte é imprescindível a todos. “Ela não afeta o psiquismo, ela se oferece como possibilidade de expressão – daquilo que muitas vezes a palavra não alcança – e também como refúgio e alento, como possibilidade de evasão, por um tempo que seja, do cotidiano muitas vezes insípido, evasão de nossas dores e mazelas. E é exatamente isso que ela tem feito nesse período de isolamento”, destaca a professora.

Porém, Maria Cristina Martins de Andrade ressalta que a arte não tem apenas a função do deleite, do apaziguamento. A arte sabe e deve ser provocadora, denunciar, incomodar, porque ela deve nos tirar do lugar, do comodismo do que está posto. Ela deve mostrar o que não queremos ver e nos ajudar a olhar e a enxergar; deve dizer o que não queremos ouvir e nos abrir à reflexão e à transformação.
 
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 

 A arte se oferece como possibilidade de expressão e também como refúgio e alento, como possibilidade de evasão, por um tempo que seja, do cotidiano muitas vezes insípido, evasão de nossas dores e mazelas”

Maria Cristina Martins de Andrade, professora da Faculdade de 
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Fapsi/PUC Minas)
 
 
HISTÓRIA E ATAQUE 

Também professora da Fapsi/PUC Minas, Mara Marçal chama a atenção para o fato de a arte ser atacada (ou desprezada), principalmente, em momentos de crise, ao ser vista como ameaça ao status quo. Ela lembra que a arte já foi atacada várias vezes, em diferentes momentos históricos e contextos sociais. Como exemplo extremo, cita o regime nazista, que organizou em 1937 duas exposições concomitantes: a Primeira grande exposição de arte alemã e a Exposição de arte degenerada.

“A arte que o regime nomeava como degenerada compreendia a arte moderna que não se encaixava nos padrões que os nazistas valorizavam. Assim, toda a arte que não fosse figurativa, realista ou imitativa era objeto de depreciação e repulsa. Ao fazer as duas exposições ao mesmo tempo, os nazistas buscavam apresentar ao público um exemplo do que seria a 'boa' arte e o que seria a produção indesejável – produção esta que eles associavam aos judeus. Obras foram destruídas, artistas foram perseguidos, a censura e a admoestação aos agentes culturais foram práticas correntes. Infelizmente, este não foi um caso isolado.”

Em diferentes partes do mundo, de tempos em tempos, regimes políticos e grupos sociais voltam-se contra expressões artísticas. Em geral, eles alegam que as obras ferem princípios políticos, ideológicos, morais ou religiosos, explica a professora.

Mara Marçal lembra ainda que há reações que se apoiam em justificativas segundo as quais determinadas obras não seriam efetivamente arte, seja por aparentemente não apresentar uma técnica que se configurasse como uma expressão cultural, seja por se considerar que a obra não é bela ou agradável aos olhos.

“Em grande medida, esses motivos confluem para o fato de haver uma grande incompreensão sobre o que é a arte e sobre qual o seu papel. A expectativa de que ela seja sempre apaziguadora, que não fira sensibilidades, que não seja provocativa confronta-se com o caráter inequivocamente insurgente da arte. Contextos políticos que apresentem contornos mais conservadores tendem a ser mais reticentes com a liberdade de expressão e, por conseguinte, mais interessados em definir os contornos que a arte deve assumir. No sentido geral, constitui-se como um desafio à democracia o enfrentamento destes processos de recrudescimento de práticas de censura”, alerta a professora.
 
 
 
Gustavo Barbosa, de 33 anos, que já era apaixonado por livros, virou um leitor voraz nesta quarentena (foto: Arquivo Pessoal)
Gustavo Barbosa, de 33 anos, que já era apaixonado por livros, virou um leitor voraz nesta quarentena (foto: Arquivo Pessoal)
 
RAZÃO X EMOÇÃO 

É a arte literária que tem garantido a sanidade e a transformação de Gustavo Barbosa, de 33 anos, personal trainer, agente do mercado financeiro e jogador de futsal do América. Em quarentena desde 18 de março, praticamente sem sair de casa, ele conta que os livros sempre o encantaram, mas com a pandemia o prazer da leitura foi potencializado e, desde então, são dois exemplares por semana. “Na estrada da vida, comecei como jogador, atuando no Brasil e na Europa, e sempre li muito. O incentivo veio dos meus pais, que prezam pelo conhecimento. Sem poder completar a faculdade de fisioterapia a que me propus anos atrás, percebi que poderia me instruir por meio dos livros, o hábito de leitura é inerente a mim. E sempre leio abordagens diferentes do mesmo tema para que possa apreender pontos de vistas diferentes e daí formar a minha visão, elaborar a essência do meu pensamento, sem verdades absolutas”, diz.

Um país, dizia o escritor Monteiro Lobato, se faz com homens e livros. Na pandemia e na vida, Gustavo afirma que não existe melhor companhia: “Ao adquirir o hábito, o livro passa a ser um companheiro sempre presente. Com o livro, não dependo de outro ser humano para ser feliz. Os livros são os melhores amigos, com quem aprendo e ensino. Nesta pandemia, tenho lido muito sobre espiritualidade e desenvolvimento humano. Sairei deste momento um ser humano melhor. O ritmo de vida que terei de agora para frente é o que eu tenho adquirido nesta quarentena”.

Nada é por acaso. Gustavo conta que cada livro que o fez mergulhar em suas páginas o tornou outra pessoa. “Meu apetite pela leitura cresceu ainda mais e ler dois livros ao mesmo tempo me dá confluência de informação para tomar o conhecimento. Leio tanto livro físico quanto digital e fico feliz por educar minha filha, Pietra, de 6, sendo exemplo. Ela me vê lendo e se desperta.”

Além da literatura, Gustavo destaca a música como outro pilar da sua vida: “Toda arte está ligada com o sentir. Infelizmente, com a globalização e a novas tecnologias, o ser humano anda muito racional, só razão, sem dar espaço para o ser, vivendo só pelo ter. Esquece que tudo na vida é gerado pela emoção, sentimento e sensação”. Para Gustavo, é preciso seguir o que diz Eduardo Marinho, artista plástico, escritor, ativista social e filósofo brasileiro: “Não permito que a minha razão tente alcançar o que não consegue explicar. Eu me abraço com a ignorância de muitos para não cair no ridículo. E o ridículo é explicar o inexplicável e conceber o inconcebível”. A leitura e a música elevam a minha vibração, estão na minha vida”.






Arte é comunidade


A ideia de arte, de consumir toda e qualquer obra artística, parte do princípio, em plena pandemia do novo coronavírus, de que ela é um caminho para enfrentar a crise ao transcender e ter a capacidade de inventar outro mundo possível. Essa é a percepção de Bruno Viveiros, professor do curso de história da Estácio e produtor e apresentador do Decantando a República, programa da rádio UFMG Educativa (104,5FM).

Bruno Viveiros lembra que, de forma abrupta, as pessoas se viram forçadas a se adaptar a um mundo construído dentro de casa, tendo de rever conceitos, valores, ter jogo de cintura e inventar uma outra forma de vida cheia de restrições. Segundo ele, neste momento, temos de pensar em algo novo, reinventar. As linguagens da imagem artística, da literatura às charges ou cinema, vão despertar, fisgar nossa atenção por meio dos sentidos e da emoção.

E ele explica como: “A charge política faz crítica, mas lida com o humor, que traz leveza apesar do tema espinhoso; a canção popular pode remeter ao passado, resgatar memória e, se for atual, urgente, pode despertar indignação, revolta e justiça; a literatura vai apresentar, não como o mundo é de fato, mas uma alternativa possível; e o cinema, da mesma forma, vai nos colocar em experiência que, às vezes, deixamos passar despercebido; ou ainda as séries que podem nos capturar numa viagem imaginária de personagens, nos levando a nos colocar no lugar do outro”. Tudo isso é arte e seus efeitos, às vezes, catárticos.

Para o professor de história, todas essas linguagens artísticas são atos de linguagem que dialogam com o contexto histórico para buscar entendimento da realidade: “A canção do Chico Buarque que fala da ditadura nos anos 1970 só faz sentido se conheço o contexto social, cultural e artístico; da mesma forma a charge do Henfil, os filmes do Glauber Rocha sobre a ideia de Brasil e sertão, a poesia de Carlos Drummond sobre o Estado Novo nos anos 1930”.
 
 
(foto: Isabelle Chagas/Divulgação)
(foto: Isabelle Chagas/Divulgação)

 

A arte nos faz reconectar com nossos 
iguais, é uma linguagem de comunicação. Ela não permite que eu esteja sozinho, mesmo em estado de isolamento”

Bruno Viveiros,
professor do curso de história da Estácio
 
 
 
 
Participativa 

Bruno enfatiza que desde os desenhos rupestres há a discussão de arte pela arte ou arte tendo que ser participativa. Para ele, de qualquer modo, ela simplesmente ajuda a viver. Não vai resolver, mas faz com que as pessoas reajam de outra forma. Para ele, a arte nos coloca para pensar, seja nas possibilidades perdidas ou nos projetos inacabados. Ela nos faz lembrar que o mundo é feito pela mão humana, que é mudança de paradigma, de rupturas, de construção do mundo. O homem é animal social, político, não vive em isolamento, mas em comunidades. “Neste momento de confinamento, a arte invade as casas e nos reconecta com a comunidade via computador, rádio, TV, internet. Não é possível viver longe da arte”, afirma.

O professor lembra que a arte é a forma de um estar junto do outro, mesmo longe: “A arte nos faz reconectar com nossos iguais, é uma linguagem de comunicação. Ela não permite que eu esteja sozinho, mesmo em estado de isolamento”.


 
 
 

 

só faz bem

– Diminui o estresse e a ansiedade
– Ajuda a lidar com a dor e a perda
– Forma novas conexões com as pessoas
– Possibilita encontrar significado em experiências de vida
– Relaxa, acalma
– Traz felicidade, descontrai, diverte
– Expressa pensamentos e emoções que, muitas vezes, não são ditos em palavras
– Muda o foco
– Contribui com o pensamento, com a reflexão e a memória
– É ferramenta de concentração, de maior percepção e atenção
– Faz parte de processos de cura, como a musicoterapia, arteterapia etc.
 
 
 
Não importa gosto, estilo, estética. A arte é emoção, conexão, memória e, por isso, é essencial porque tem o poder de aproximar as pessoas, mesmo elas estando longe em tempos de pandemia
 
 
Para dar valor e apreciar
é preciso conhecer


Uma das classes mais atingidas pelo isolamento social diante da mortalidade da COVID-19, os artistas, aqueles que produzem arte, não só se viram abandonados à sorte, como também passaram a lidar (o que não é novidade) com ataques sobre a essência do que criam, se realmente é importante neste momento. Para dar valor, apreciar, debater é preciso conhecer.

Infelizmente, Maria Helena Camargos Moreira, pedagoga, psicóloga e professora de psicologia da PUC Minas, lembra que muitos não podem reconhecer a importância da arte porque não têm acesso a este bem. “Por conta de suas potencialidades, a arte deveria estar presente nos espaços públicos, nos lugares de convivência e interação, nos contextos que constituem seu hábitat habitual, como os museus, cinemas, teatros, franqueado o acesso a todos, independentemente da condição financeira e social.”

Porém, do ponto de vista das políticas públicas, a arte é, muitas vezes, considerada um bem supérfluo, sendo nulos ou escassos os recursos necessários para prover aqueles que se dedicam à sua criação, à distribuição e ao acesso para toda a população. Segundo ela, outro motivo para o não investimento pode ser o fato de que a arte, por sua própria natureza, desconstrói crenças, estereótipos, preconceitos, renova o olhar sobre o mundo e faz pensar, podendo então ser vista como ameaça ao status quo e aos ideais políticos de determinados gestores públicos.

SAÚDE MENTAL 
 
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
A arte deveria estar presente nos espaços públicos, nos lugares de convivência e interação, nos contextos que constituem seu hábitat habitual, como os museus, cinemas, teatros, franqueado o acesso a todos, independentemente da condição financeira e social”
Maria Helena Camargos Moreira,  professora da PUC Minas 
 
Para ilustrar as potencialidades da arte como dispositivo de saúde mental, Maria Helena lembra a experiência da psiquiatra Nise da Silveira, no século passado, em um hospício do Rio de Janeiro. Rebelando-se contra os métodos adotados, à época, para o tratamento de pessoas em sofrimento mental, ela instalou ateliês nas dependências, onde os internos tinham a oportunidade de criar por meio dos materiais disponíveis. “Algumas produções revelaram qualidades estéticas reconhecidas por artistas renomados. Outros conseguiram dar vazão aos seus sentimentos mais profundos, a fragmentos de sua história, que não conseguiam traduzir em palavras.”

De lá para cá, e até mesmo antes das experiências de Nise, as propriedades da arte para a expressão, elaboração ou mesmo alívio das tensões emocionais têm sido, reiteradamente, propaladas pelos pesquisadores e profissionais da área da saúde. Então, em tempos tão difíceis, a arte faz bem à saúde, destaca a pedagoga e psicóloga.

Maria Helena enfatiza que em tempos de confinamento social, em que todos estão privados ou limitados de presenças físicas e interação social, a arte é uma presença simbólica, potente para nos ajudar a expressar e processar sentimentos de incerteza, medo do imprevisto, dos riscos da doença e da morte, anunciadas aos ouvidos com frequência e, que, por vezes, nos avizinham.

Neste sentido, Maria Helena se lembra do livro como uma companhia incrível, de todas as horas: “O livro abre janelas para mundos distantes que não podemos fisicamente visitar. Possibilita ainda conhecermos histórias, narrativas e nos ver por meio destas construções reais ou imaginárias. E até podemos, quem sabe, construir a versão de nossa própria história. A beleza sempre provoca fruição e prazer e oferece uma rede ou escafandro para visitarmos ou nos depararmos com nossas angústias mais profundas”.





Excursões culturais: se não curam, tratam
Na bilheteria do Museu de Belas Artes de Montreal (MMFA), no Canadá, você pode pagar seu ingresso usando dinheiro vivo, cartão de crédito, de débito ou uma receita médica. O MMFA é referência mundial quando o assunto é arteterapia para os mais diversos casos. Eles indicam visitas para pacientes com diferentes condições, de anorexia a Alzheimer, passando por arritmia cardíaca, problemas de saúde mental e epilepsia. Na Dinamarca, pelo menos quatro cidades (Aalborg, Silkeborg, Nyborg e Vordingborg) estão testando a kulturvitaminer, a chamada “vitamina de cultura”. O país nórdico cria grupos de pessoas com depressão, que estejam desempregadas ou em licença médica para consumir cultura juntas. Elas experimentam de tudo, desde concertos ao coral comunitário, visitam galerias de arte e museus e participam de atividades criativas. O programa inclui sessões de leitura de histórias e passeios à beira-mar.
 
Suécia e Noruega são avançadíssimas nesse quesito. Na Austrália, arte e saúde estão ligadas desde 2013, dentro do Departamento de Comunicações e Artes, pelo National Arts and Health Framework, que tem o objetivo de reunir informações e promover o uso da arte na saúde pública.


Os tipos de arte

O homem não vive sem arte porque ela o faz compreender (e suportar) o mundo. Forma da expressão humana de registrar suas emoções, ideias, convicções, história, cultura, valores e estética, ela é múltipla e, internacionalmente, é reconhecida, atualmente, em 11 categorias. São elas:
1 – Música
2 – Dança
3 – Pintura
4 – Escultura
5 – Teatro
6 – Literatura
7 – Cinema
8 – Fotografia
9 – Histórias em quadrinhos
10 – Jogos eletrônicos
11 – Arte digital 

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