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Estado de Minas IDENTIDADE

Formato e expressões do corpo dizem muito sobre o caráter do ser humano

Neuropsicóloga afirma que a ciência é capaz de explicar os traços da personalidade de uma pessoa a partir da linguagem corporal. Papéis assumidos na infância seguem na vida adulta


postado em 24/02/2020 18:45 / atualizado em 24/02/2020 19:01

(foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)
O corpo se revela em todas as suas manifestações: por meio da postura, gestos, tônus muscular, atitudes de interação, domínio do espaço, fala. A ciência afirma que ele guarda a explicação do funcionamento da mente. A constituição física e suas características externas definiriam, portanto, a performance da psique das pessoas. Em 1933, o austríaco Wilhelm Reich, médico, psicanalista e um dos discípulos de Sigmund Freud, publicou pela primeira vez os resultados de suas pesquisas dentro da psicanálise no livro Análise do caráter.

Os conceitos desenvolvidos por Reich serviram de base para a análise bioenergética – uma técnica que utiliza a experiência em nível físico por meio da qual se pode mostrar como a dinâmica da estrutura corporal revela a mesma estrutura de caráter. A neuropsicóloga Roselene Espírito Santo Wagner, conhecida como Dra. Leninha Wagner, aponta que os padrões de postura e atitudes corporais revelam quem a pessoa é: “Esses traços são previamente esculpidos pelo sistema nervoso e correspondem às imagens de quem a pessoa é, e de como o seu corpo se parece. Portanto, aquilo que o indivíduo acredita que ele é torna-se uma imagem retida no sistema nervoso e que mais tarde se expressará no corpo, por meio da ação. Logo, os traços de caráter são exatamente os papéis que o indivíduo aprende a assumir desde criança e permanecem, em sua maior parte, na vida adulta”.

Em linhas gerais, Leninha Wagner assegura que a análise bioenergética tem caráter científico, com pesquisas de longa data e resultados comprovados. “Ela oportuniza o sujeito a um alinhamento e restauração do corpo e da mente, buscando sempre recuperar a capacidade que todos temos de sentir e expressar as emoções. Essa é a chance de fazer as pazes entre a mente e o corpo e acessar a produção de sintomas físicos.”

"Tudo o que está como conteúdo inconsciente e recalcado, fora do alcance na consciência, está inscrito na forma e expressão do corpo" - Leninha Wagner, neuropsicóloga (foto: Vagner Souza/Divulgação)
De acordo com a neuropsicóloga, o uso desta terapia depende da demanda e da queixa principal do paciente: “Ela permite conhecer a história de cada indivíduo porque está armazenada na estrutura do corpo. Todas as experiências vividas, o impacto das relações da primeira infância e os traumas físicos e emocionais são armazenados e contidos no corpo na forma de padrões de tensão muscular crônica. Freud acreditava que situações traumáticas e conflitos vividos durante a infância permaneciam inconscientes e conduziam as pessoas a viver uma vida insatisfatória. Após decorrer por alguns métodos de trabalho, Freud se convenceu de que o mais eficaz seria a associação livre de ideias. Ou seja, o paciente falava tudo que lhe vinha à mente e também a interpretação dessas ideias por parte do analista. Essa é uma maneira de acessar o inconsciente, que sempre será feita de forma indireta. A observação da expressão e forma física é mais uma maneira de revelar o inconsciente. Também uma ferramenta de promoção de saúde tanto psíquica quanto emocional.”

EQUILÍBRIO 

Leninha Wagner destaca a importância de saber o que o corpo traduz: “Tudo o que está como conteúdo inconsciente e recalcado, fora do alcance na consciência, está inscrito na forma e expressão do corpo. A manifestação do que nos é latente – pode ser verbal ou corporal –, quando identificamos, podemos nos reconhecer, antever ou prever reações. Ainda que não possamos alterar quem somos, é possível desenvolver autorregulação por meio do autoconhecimento. Tendo, portando, uma vida mais equilibrada. Equilíbrio é sempre sinônimo e saúde.”

Depoimento - B. C. (nome preservado), psicólogo, de 32 anos

“Entrar em contato com a teoria que relaciona o formato/tipo físico com características de personalidade foi recompensador, pois trouxe ao meu consciente um olhar revelador. Fui capaz de compreender que, de fato, há uma relação interessante. É uma viagem a situações vividas e influenciadas por esses traços que nos colocam em reflexão sobre como lidar com isso e ressignificar hábitos e comportamentos. A fim de um equilíbrio maior e mais saudável nas relações com as pessoas e as coisas, estou tendo a oportunidade de me conhecer.”

Busca do autoconhecimento
Análise bioenergética vê o indivíduo em sua integralidade e tem o objetivo de fazer o paciente reencontrar-se com seu corpo e se abrir às relações humanas


Se o caráter é revelado por meio do formato e de expressões do corpo humano, como explica a análise bioenergética, teria como esconder algum traço ou mesmo controlá-lo? A neuropsicóloga Leninha Wagner afirma que “com a identificação dos traços de caráter, traçamos o perfil psicológico em suas manifestações, deixando a pessoa cada vez mais apropriada de si e de sua aparição no mundo. Não podemos mexer ou controlar aquilo que é desconhecido. Ao se tornar conhecido para si próprio, o paciente passa a reconhecer as repetições e o padrão operacional. Esse padrão enraizado e introjetado de forma inconsciente, portanto é 'meu, mas eu não o conheço'. Quando a pessoa se vê, ela consegue operar e gerenciar sobre suas ações. Somos movidos pela emoção primordial, mas podemos colocar sobre esta a razão”.

A análise bioenergética não vê o paciente como um indivíduo dicotômico, mas em sua integralidade: “Ela tem o objetivo de ajudar cada um a reencontrar-se com seu corpo e a tirar o mais alto grau de proveito possível da vida que há nele, com o intuito de resgatar o seu potencial energético e se abrir às relações humanas, com maior segurança de saber quem é. A configuração física não é alterada, mas pode ser aceita, compreendida e utilizada em benefício do desenvolvimento do potencial de acordo com seus talentos e habilidades inatos. É crível enriquecer as experiências, humanizar as singularidades, apropriar-se de si e construir histórias por meio de boas memórias que todos arquivam durante a passagem do ciclo vital”, garante a especialista.

Leninha Wagner enfatiza que cada um dos traços de caráter guarda características que são usadas como defesa. “Quando identificamos e revelamos isso aos pacientes, o objetivo é que ele use as defesas em seu favor. Como, quando e onde precisar. Mas, quando conhecidas e reconhecidas, podem usá-las como proteção e não mais como defesa, que de forma descuidada pode virar ataque.”

Os cinco traços de caráter - por Wilhelm Reich

1 - Esquizoide

Impressão geral de desengonçado. São pessoas magras, longilíneas, com a energia do corpo centrada na cabeça, racionalizam sentimentos, optam na dor pelo isolamento. Exigem respeito pelo seu jeito racional de ser, necessitam de um nível lógico de comunicação, são cerebrais e racionais.

2 - Oral

Impressão geral de fraco e precisando de apoio. São pessoas “arredondadas”, que carregam uma falta, um vazio, uma sensação de abandono. Querem sensibilidade e afeto nos contatos. São emotivas, choram fácil, querem um “ouvido” que as escute para que elas possam falar (sem parar), ou comida por perto, para que possam preencher esse vazio comendo (sem parar).

3 - Masoquista

Impressão geral de atarracado, carregando um grande peso. São pessoas de composição quadrada, com aparência forte, atarracadas. Exigem segurança para si. Entendem os outros, com extrema empatia. A ponto de trazer para si o problema e o erro do outro, se responsabilizando por tudo. Não dividem nem delegam. Guardam tudo dentro de si. São desconfiadas, demoram para formar vínculo e partilhar seus problemas. Não aceitam traições.

4 - Rígido

Impressão geral de prontidão e agressividade. Pessoas que aparentam muita energia, força e disposição física por todo o corpo. São belos, com curvas nos lugares certos, com forte capital estético, músculos rígidos. Exigem perfeição de si, do outro e da vida. Nada é bom o suficiente para eles. São a figura da exigência e da busca da perfeição. Vivem “relações triangulares”, competitivos ao extremo, estão sempre buscando um adversário à altura.

5 - Psicopático (psicopata)

Impressão geral, no homem, de orgulho, raiva e, às vezes, ameaçador. Na mulher, de infantilidade, meninice de extrema sensualidade. Pessoas com formato de corpo triangular, o corpo superior é inflado, com ombros largos, tensos e quadris estreitos, enquanto o corpo inferior é fraco e não aterrado. Esperam resultados, são articuladoras, a vida para eles é um “balcão” de negócios, sempre atentas ao lucros e ganhos. São envolventes, sedutoras e manipuladoras. Estão atentos a barganhas, trocas, compensações.


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