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Estado de Minas MEDICINA DO FUTURO

às fontes de pesquisa

Expansão da tecnologia abre espaço para circulação de notícias falsas na internet, colocando em risco a saúde. Especialistas alertam para condutas que podem adiar a identificação dos sintomas


postado em 25/11/2019 04:00 / atualizado em 25/11/2019 15:24

Adelino de Melo diz que é preciso ter consciência de que a rede é repleta de informações de conteúdo duvidoso (foto: UnimedBH/Divulgação)
Adelino de Melo diz que é preciso ter consciência de que a rede é repleta de informações de conteúdo duvidoso (foto: UnimedBH/Divulgação)


Basta surgir uma manchinha na pele, uma coceira ou uma dor de cabeça fora do comum que a disparada para pesquisar sobre os incômodos no 'Dr.Google' começa. Situação que pode trazer riscos, efeitos colaterais e, além disso, o usuário pode se aventurar em informações falsas e descontextualizadas. O autodiagnóstico, e, consequentemente, a automedicação, fazem parte da cultura popular, e é expandido com as redes sociais e buscadores na internet. Porém, especialistas alertam para esse tipo de conduta.
 
De acordo com Adelino de Melo Freire Júnior, infectologista da Unimed-BH, o processo de efetuar um diagnóstico é algo, muitas vezes, complexo e exige dedicação no aprendizado e tempo para aprimoramento. “O diagnóstico de uma doença, muitas vezes, é feito com a soma de informações sobre os sintomas que acometem o paciente, sua evolução, seus fatores de piora e melhora, dados epidemiológicos como a existência de um contato de risco, história de doenças prévias e uso de medicamentos, história familiar etc.” Para o infectologista, alguém que não tem esses conhecimentos e habilidades pode facilmente se enganar com hipóteses e assumir um diagnóstico errado, adiando a identificação da causa de seus sintomas e o início de um tratamento adequado.
 
Uma automedicação em níveis acima do saudável pode causar lesões hepáticas e efeitos colaterais generalizados. Outros órgãos e até o cérebro podem ser afetados pela automedicação irresponsável. O médico não descarta os benefícios desse fácil acesso à informação e que dados de qualidade ajudam a sanar dúvidas, orientar tratamentos e promover prevenção, mas é preciso ter alguns cuidados.
 
“Hoje, é muito comum
que os pacientes busquem informações técnicas e a discutam com seus médicos, que deixaram de ser os únicos detentores do conhecimento. Quando essa mudança é bem compreendida por ambas as partes, ela se torna produtiva e eficiente”, avalia. O problema é quando os pacientes não se policiam em relação às fontes de pesquisa. “É preciso ter consciência de que a rede é repleta de informações de conteúdo duvidoso e assim buscar informações em sites oficiais de instituições de saúde, tanto públicas quanto privadas”, avalia.
 
Para Adelino de Melo, há duas ações que favoreceriam uma melhor dinâmica para o usuário em pesquisa na web. “Direcionar buscas para informações validadas tecnicamente e sinalizar conteúdos duvidosos, ou maliciosos, como tais. Com isso, já teríamos muito avanço no acesso a informações de saúde na web.”
 
CONFIANÇA Desde 2016, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein, o Google mantém uma série de quadros com informações a respeito de centenas das doenças mais buscadas pelos usuários em todo o mundo. “Os quadros contêm ilustrações, dados básicos sobre cada doença, sintomas mais comuns e formas de contágio – tudo devidamente curado e revisado por dezenas de médicos. Com essa parceria, podemos oferecer um ponto de partida com mais de 1 mil verbetes com informações relevantes e confiáveis verificadas por médicos”, aponta a assessoria de comunicação do Google.
Esse projeto foi desenvolvido no Brasil, no Centro de Engenharia na América Latina, que fica em Belo Horizonte, sendo o primeiro país a ter a solução totalmente adaptada e localizada para o português, depois do lançamento nos Estados Unidos, em junho de 2016. “Nosso objetivo é ajudar as pessoas a navegar e explorar entre as doenças relacionadas aos seus sintomas, e levar mais rapidamente ao que elas realmente estão procurando; ir mais a fundo no conteúdo ou já procurar um médico”, explicam.
 
Com esse grande acúmulo de informações disponível pela internet, as fake news ganham espaço. E a atenção na hora de pesquisar sintomas, tratamentos e causas deve ser redobrada. Quem nunca ouviu ou leu que um certo alimento fazia mal para a saúde, ou que macacos transmitiam febre amarela, ou que vacinas fazem mal para o desenvolvimento das crianças? “Na minha família correu a informação de que tomar própolis evitaria picadas de mosquitos e com isso o risco de contrair febre amarela. Não há evidências científicas que respaldam essa conduta e uma pessoa que passa a usar própolis em vez de receber a vacina ou usar repelente está correndo risco de adoecer por conta de uma doença que poderia ser prevenida”, relembra. 
 
Quando esse tipo de informação fluía apenas boca a boca, seu alcance era limitado. “Com as redes sociais e, principalmente, os aplicativos de trocas de mensagens e conteúdo, o problema se amplificou, fazendo com que informações sem validade possam se disseminar entre as pessoas como uma epidemia ou, como no jargão das redes, viralizar”, destaca Adelino.
 
Antônio Cabral, doutor em obstetrícia e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), relembra outro alvo de fake news: o ácido fólico, e destaca que, apesar de informações que circularam, ele afirma sua eficácia comprovada. “Há 50 anos, gestantes do mundo inteiro recebem suplementação com a vitamina, identificada como 'obsoleta' em algumas divulgações falsas, inclusive em comparação às 'novidades' disponíveis no mercado. Uma dessas 'novidades' é o metilfolato, que surgiu como sendo a versão atual do ácido fólico. Definitivamente, esse não é o caso”, reforça.
 
O obstetra comenta que os produtos são semelhantes, mas é difícil compará-los para utilização em gestantes, pois o ácido fólico já foi bastante testado, com absorção, dosagem e efeitos comprovados. 

VERIFICAÇÃO Para o obstetra, uma das maneiras mais seguras de confirmar qualquer informação relacionada à saúde é verificar a recomendação das sociedades médicas, federações médicas e órgãos governamentais. 
 
O Google, segundo a assessoria, vem adotando medidas para combater material de baixa qualidade e enganoso. “Investimos bilhões e desenvolvemos tecnologia de ponta para proteger nossos usuários contra spam, malware ou 'fazendas de conteúdo'. No mês de setembro, por exemplo, a plataforma realizou mudanças no algoritmo para destacar na busca apenas conteúdo original de reportagens e furos jornalísticos e assegurar que eles apareçam por mais tempo. “Além disso, reduzimos o fluxo de tráfego e dinheiro para sites e/ou criadores de conteúdo mal-intencionados. Fornecemos formas de os nossos usuários nos alertarem e também os ajudamos a encontrar notícias falsas por meio do selo de verificação de fatos.”

* Estagiária sob supervisão da subeditora Elizabeth Colares
 
 
enquanto isso...
 
...combate ÀS fake news 
 
O Ministério da Saúde lançou no ano passado um serviço de combate à veiculação de notícias falsas nas redes sociais. Trata-se do projeto “Saúde sem fake news”, em que o órgão do governo federal disponibiliza um número no aplicativo WhatsApp para recebimento de informações veiculadas na internet. Ele verifica com os profissionais de saúde nas áreas técnicas da pasta se um texto ou imagem que circula nas redes sociais é verdadeiro ou falso. Ou seja, é um canal exclusivo e oficial para desmascarar as notícias falsas e certificar as verdadeiras. A ação já fez mais de 11,5 mil resoluções das 12,2 mil dúvidas enviadas. Qualquer cidadão brasileiro poderá adicionar gratuitamente no celular o WhatsApp do Ministério da Saúde: (61) 99289-4640. 


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