Jornal Estado de Minas

Cura que vem da natureza

Plantas medicinais são usadas no tratamento de várias doenças

Da dor de barriga à dor de dente. Da pedra nos rins à micose nos pés. O uso de plantas como medicamento é tão antigo quanto a história da humanidade. Na cultura brasileira, não há família que não tenha uma receita de remédio caseiro indicado pelas bisavós, avós, madrinhas, mães ou benzedeiras que se torna uma herança e conhecimento passado de geração para geração. Xaropes, unguentos, sabonetes, xampus, tinturas feitos com ervas medicinais são verdadeiras relíquias da flora brasileira, que tem a maior biodiversidade do planeta, com mais de 46 mil espécies de plantas, um total equivalente a quase 25% de todas as existentes no mundo. O que transforma a flora do Brasil em objeto de cobiça da indústria farmacêutica, interessada nas propriedades medicinais das plantas, que estão distribuídas entre seis biomas: Amazônia, cerrado, caatinga, mata atlântica, Pantanal e Pampas.





A atenção da comunidade científica foi despertada depois de comprovada a qualidade das plantas – vista inicialmente com ceticismo e associada à crendice – no tratamento de inúmeras doenças. Conhecimento da cultura popular que também é fruto da mistura da sociedade brasileira formada por povos tão diversos quanto os indígenas (originários da terra), negros africanos, italianos, portugueses, espanhóis, japoneses e árabes que desembarcaram por aqui em épocas diferentes.

Com o selo da aprovação científica, despertou-se a preocupação em catalogar e fazer um inventário dos conhecimentos sobre as propriedades curativas das plantas. Em 2006, o governo federal aprovou a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, por meio do Decreto 5.813, com o objetivo de garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional. Essa política prevê o fomento à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e à inovação, com base na biodiversidade brasileira e de acordo com as necessidades epidemiológicas da população. Passo importante, mas que precisa de mais eficiência, investimento e resultado.

Outro passo importante na preservação e uso das plantas medicinais e produção de fitoterápicos está no cuidado em registrar todo o conhecimento das pessoas que sempre acreditaram e usaram as plantas como remédio e são verdadeiras guardiãs de seus benefícios. No Rio de Janeiro, por exemplo, nasceu a Rede Fitovida, formada por mulheres acima dos 50 anos, que, da atuação no ambiente familiar, orientando vizinhos e vendendo preparações medicamentosas com ervas medicinais, se organizaram e passaram a atuar também no espaço público, com atendimentos voluntários em saúde preventiva. Transição esta que contou com o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e modificou o modo de trabalho, valorizando as detentoras do saber.




Em Minas Gerais, há trabalhos sérios, competentes e com resultados como o desenvolvido pelo Centro Especializado em Plantas Aromáticas, Medicinais e Tóxicas (Ceplamt), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que é um banco de dados de conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético que compõe a biodiversidade brasileira. A missão é recuperar e divulgar as informações históricas e técnico-científicas sobre todas as plantas, especialmente as medicinais.

No estado ainda há duas outras ótimas iniciativas. O Instituto Kairós, organização sem fins lucrativos, em Nova Lima, que atua há 16 anos fortalecendo redes de educação popular e cultura tradicional nas comunidades em que atua. Um de seus focos é a implantação e sustentação do serviço de fitoterapia no Sistema Único de Saúde (SUS). A outra é o programa fitoterápico Farmácia Viva, no SUS Betim, que oferece medicamentos fitoterápicos à população, totalizando 83 formulações a partir de 25 plantas medicinais, atuando no sistema nervoso central, respiratório, geniturinário, digestório, cardiovascular e aquelas cicatrizantes e anti-inflamatórias para uso tópico no tratamento de feridas e afecções da pele.

PESQUISAS 


Hoje, portanto, o Bem Viver desvenda um pouco desse universo das plantas, uma riqueza do Brasil que precisa ser preservada e que agentes da saúde tenham condições de facilitar o acesso para a maior parte da população, seja em caráter preventivo seja curativo. “Aprendendo a manejar os pequenos desconfortos do dia a dia com o auxílio da fitoterapia, qualquer um pode melhorar sua saúde. É assim que as pessoas faziam antes do advento da indústria farmacêutica. Porém, para aqueles que não 'beberam da fonte' do conhecimento tradicional, é importante ter cuidado até que se familiarize com a fitoterapia. Apesar de sua relativa segurança, as plantas medicinais podem fazer mal se usadas incorretamente. Em caso de dúvida, é importante buscar conhecimento em fontes confiáveis ou conversar com profissionais de saúde habilitados. As plantas medicinais e os fitoterápicos podem interagir com outros medicamentos naturais ou sintéticos, além de fazer diferença em diversos processos do seu corpo. É válido deixar claro que nem sempre a fitoterapia será a melhor opção, sendo mais apropriado e efetivo em algumas circunstâncias recorrer a medicamentos sintéticos”, ressalta Ana Cimbleris, fitoterapeuta, farmacêutica e paisagista do Instituto Kairós.





Ana Cimbleriz diz que estamos no país de maior potencial para a prática da fitoterapia. Pesquisadores de diversas partes do mundo desenvolvem pesquisas sobre plantas da biodiversidade no Brasil. “No entanto, nem sempre essa valorização é clara para a própria população brasileira. É fundamental compreender que, além de ter valor intangível, se trata de um ativo monetizável de suma importância para o desenvolvimento nacional.” A farmacêutica lembra, ainda, que a produção científica na área das plantas medicinais é crescente, com avanços significativos em produtos antimicrobianos e contra o câncer, por exemplo. “Na fitoterapia, é importante dar continuidade ao avanço dos estudos de validação científica de plantas que já são utilizadas tradicionalmente há centenas de anos. Essa validação permite que tais espécies sejam conhecidas e beneficiem mais pessoas, além de tornar sua preservação uma questão mais relevante para a sociedade. Muitas comunidades tradicionais estão perdendo seu modo de vida e os conhecimentos sobre as plantas, à medida que ocorre a devastação dos seus biomas de origem. Muitas plantas medicinais estão entrando em extinção antes mesmo de ser reconhecidas pela ciência. Nesse contexto, vão se tornando progressivamente mais escassas as oportunidades de conhecermos produtos úteis e que poderiam transformar a história da medicina na própria história da humanidade”, alerta Ana Cimbleriz.