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Estado de Minas

Imagem distorcida

Comparação com a vida 'perfeita' das pessoas nas redes sociais pode provocar insatisfação do jovem com sua aparência e frustração por não se encaixar em padrões


postado em 09/06/2019 04:09

“Adolescência é um período de transformações, mudanças, aceitação e conflitos. É quando os jovens exercitam a definição de uma identidade baseada em experiências mais amplas do que apenas as da família”, esclarece o psiquiatra Aloísio Andrade. Nesse contexto, o acesso às redes sociais acaba se tornando não somente fonte de informação, mas de formação de quem está em busca de seu novo eu e que não gosta mais de ser considerado criança, e também não pode e não quer ser comparado ao adulto.
Inúmeras pesquisas, no mundo todo, demonstram ligação direta entre o tempo gasto em redes sociais com sentimentos e experiências consideradas negativas entre jovens. “Na busca pelos novos ‘ídolos’, surgem influenciadores, artistas, modelos que parecem ter uma vida maravilhosa, regada a viagens, boas comidas, às melhores roupas e passeios, e que batem de frente com a dura realidade dos reles mortais, repleta de estudos, transformações, experiências nem sempre positivas”, pondera o médico. Na maioria das ocasiões, constata-se que há uma queda brusca em aspectos como a autoestima, satisfação com a vida, felicidade e um menor entusiasmo dos jovens com relação aos amigos e diversão reais, além de queda da sensação de segurança.
Sob esse ponto de vista, Aloísio considera o âmbito das redes sociais vago e vazio. “Pode ocorrer, por exemplo, insatisfação com a imagem corporal dos usuários ou intensificar conversas sobre aparência. Isso tudo porque os internautas não estão nos padrões promovidos por essas ‘celebridades’. Por outro lado, somos bombardeados por informações que podem gerar decepção. Lidar com isso não é tarefa fácil, porém necessária”, diz o especialista.
Nessa corrida, o mais importante não é viver e sim postar o que se está fazendo. As pessoas não saem mais para se divertir, apenas para registrar o momento da diversão, continua Aloísio. “Experiências como shows e peças de teatro não são mais para cantar e ver seus artistas prediletos, mas para fazer com que os outros saibam que você esteve lá. Se esquece de rir, de falar mais de si, de seus medos e anseios, com a preocupação apenas em que o mundo virtual pode e deve mostrar”, alerta.
“As redes sociais levam ao aumento dos quadros de sedentarismo, diminuição do rendimento escolar, dificuldades em estabelecer contato com terceiros e, em casos mais graves, poderá surgir sintomatologia ansiosa e/ou depressiva. Ao passar muito tempo nas redes sociais, os jovens acabam dormindo mais tarde e perdem a qualidade do sono por conta dos dispositivos eletrônicos. Assim, estão mais predispostos a apresentarem sintomas como pressão alta, obesidade, ataque cardíaco, acidente vascular cerebral e depressão.”

REGRAS E LIMITES Com influência direta na educação, formação e instrução dos jovens, os pais devem ficar atentos ao tempo em que os filhos têm passado diante das telas, ensina Aloísio Andrade. “A vida é feita de regras e limites, principalmente em fases de mudanças, como a adolescência. Proibir não é o ideal. Os responsáveis devem atentar para qualquer mudança na vida e no comportamento dos jovens. Se notar que algo saiu do controle, procure ajuda de um profissional”, diz.
Aloísio ensina alguns exercícios para transformar esse quadro: tentar se desligar do mundo virtual, pelo menos um pouco, e lidar com pessoas reais, com problemas, tristezas e derrotas, mas também alegrias e conquistas. “É bom parar de seguir os perfis mais visitados que, na maioria das vezes, surtem ansiedade e infelicidade em vez de bons sentimentos e procurar encontrar os amigos, passar mais tempo com familiares e realizar atividades que não dependam das redes”, conta.

DIVERSÃO A estudante de relações internacionais Marina D’Ávila, de 22 anos, desde mais nova usa as redes sociais. Ela utiliza o WhatsApp, Instagram (em que tem 600 seguidores) e Facebook (também com 600 amigos, depois que há pouco tempo realizou uma “limpeza”, retirando pessoas com quem não mantinha tanto contato). Além da graduação, Marina faz estágio na área e conta que, nos intervalos, quando não está fazendo nada ou sozinha, olha o que acontece nas redes, as novidades, como distração. “Acaba sendo automático. Acesso mais de uma vez ao dia, mas não sou muito fã”, conta. A jovem detém uma visão crítica sobre a convivência no contexto virtual.  “Muitas vezes estou com amigos, e eles não largam o celular. Isso me irrita. Digo: ‘vamos parar com isso gente, aproveitar a vida de verdade, estão perdendo seu tempo. Prestem atenção na vida, ela está correndo!’.”
Marina sabe que a internet atualmente é algo inerente à experiência humana, principalmente como uma rica fonte de informação, mas, em seu ponto de vista, deve ser tida como meio, não como fim. “Prezo pelas relações ao vivo, carnais. Quando você conhece alguém, logo pega o endereço de seus perfis nas redes sociais, mas, no meu caso, para depois marcar de encontrar pessoalmente. Não fico rendendo conversa pela internet”, afirma.
Quando viaja, Marina gosta de registrar os passeios em fotografias (aliás, é uma arte que ela admira). “Coloco fotos legais, de momentos que quero guardar, como um álbum de lembranças. Exalto os instantes felizes, mas sei que a vida nem sempre é um mar de rosas”, pondera.
É com equilíbrio e discernimento que a estudante Clara Lessa, de 17, encara o mundo dos relacionamentos virtuais. “Tem pontos negativos e positivos. É fonte de informação, pesquisa, entretenimento, uma maneira de conhecer coisas novas, culturas diferentes, em um ambiente democrático. É bom também para manter contato com quem se gosta, mas está longe, como no meu caso, que tenho um pai que mora em outro estado. Porém, entre tudo o que aparece, é preciso colocar na balança, saber o que te serve ou não. Ter a noção de que a vida real acontece fora das telas”, diz, consciente.
Clara costuma ficar conectada cerca de três horas diárias – Nos fins de semana esse tempo é maior. No Instagram, reúne 700 seguidores, no Twitter 200 e pelo WhatsApp tem uma lista de conversa com mais ou menos 500 pessoas, incluindo grupos. Entretanto, amigos mais próximos, com quem tem contato constante, são poucos. “Tenho a clareza de não me deixar influenciar negativamente pelas redes sociais. Não há como se distanciar totalmente. É muito difícil, mas seria bom. É um tipo de exposição em que existe muita hipocrisia. Muitas vezes ficar se comparando gera ansiedade.”
Para ela, há que se tentar não seguir canais que trazem futilidades, que determinam modelos de beleza e comportamento maçantes, não se espelhar sem entender que aquilo não é verdade o tempo inteiro. “Busco perceber se o que sigo tem mesmo utilidade, se me acrescenta. Ao contrário, isso pode ser prejudicial”, diz. Clara aprecia mesmo estar com a turma fiel de amigas, frente a frente. “Somos 10 e nos encontramos sempre, principalmente por causa da escola. Quando estamos juntas e a conversa é boa, não tem porque ficar mexendo no celular. A gente tem mesmo é que largar o celular. Para mim, são essas as interações que realmente importam.”


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