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Meu corpo, minhas regras

Novas gerações defendem a mulher como protagonista da própria história, derrubam estereótipos e preconceitos e se lançam na defesa de ser e de estar onde quiserem


postado em 19/05/2019 04:07 / atualizado em 20/05/2019 11:49

Uma das fundadoras da fanfarra Sagrada Profana, Nara Torres, de 34 anos, defende o empoderamento feminino(foto: Lorena Zchaber/divulgação)
Uma das fundadoras da fanfarra Sagrada Profana, Nara Torres, de 34 anos, defende o empoderamento feminino (foto: Lorena Zchaber/divulgação)

Natural de Itajubá, Sudoeste de Minas, Nara Torres, de 34 anos, é um exemplo de como a nova geração de mulheres tem experenciado o feminismo e se engajado na demanda do século 21. Ela é uma das fundadoras da fanfarra Sagrada Profana, grupo de percussão que conta com cerca de 200 integrantes e desfila no carnaval de rua de BH, convidando as participantes a exercer a total liberdade de expressão, o empoderamento. Não por acaso, muitas delas se sentem à vontade para desnudar os seios, derrubando estereótipos sobre a sexualidade e também padrões de beleza impostos pela sociedade patriarcal.
“Um dos lemas do feminismo é ‘meu corpo, minhas regras’. Penso que cada pessoa pode e deve se vestir ou se despir como bem entender, e uma mulher que está mostrando partes do seu corpo deve ser respeitada, pois isso não significa um convite. Por que os homens podem e nós não podemos? Onde está a maldade, onde está a malícia, senão no olhar de quem vê? Além disso, questionamos muito os padrões de corpos impostos pela indústria da mídia, que tanto sofrimento geram. Assim, cada participante do bloco tem a liberdade de questionar alguns paradigmas da sociedade como bem entender”, justifica.
Residente em BH desde os 18 anos, quando chegou a fim de cursar a faculdade de comunicação social, Nara conceitua o feminismo como busca individual e coletiva pela igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Acredita que o tema exige um trabalho de reverter um processo histórico que subestima as potencialidades das mulheres e as coloca culturalmente em posição de inferioridade e submissão. E demanda um processo de clareza e emancipação que propõe enxergar que as mulheres são aptas e capazes de ter uma vida livre e plena em todos os aspectos da existência.

PRIMAVERA FEMINISTA Ela conta que, desde 2015/2016, quando as hashtags #meuamigosecreto e #meuprimeiroassedio foram usadas na rede social Facebook, despertou-se definitivamente para a causa e passou a aplicá-las na própria vida, especialmente nos campos do trabalho e do amor. “Percebi que nunca tive medo de estar, conviver, trabalhar e falar de igual para igual com os homens. E que poderia contribuir com a sociedade trazendo as ideias feministas para o campo artístico.”
Uma das iniciativas foi justamente fundar a fanfarra. “Já participei de vários grupos e percebia que a presença feminina ainda é muito menor do que a presença masculina na cena, além de restrita a alguns papéis específicos de atuação. Sob efeito da chamada ‘primavera feminista’, senti que eu poderia contribuir na prática. A primeira ação foi abrir uma oficina de percussão voltada para mulheres iniciantes, com o intuito de desmistificar o fazer musical e trazer mensagens de empoderamento para mulheres que tinham o desejo de tocar, mas não se sentiam aptas e/ou acolhidas. Hoje, temos várias vertentes da Sagrada Profana: oficinas de percussão, sopros e dança, um bloco de carnaval, uma banda, uma festa, um projeto de debates e uma rede que envolve diretamente cerca de 200 mulheres.”
Nara conta com a ajuda de outras mulheres na condução das ações da fanfarra, em especial de Natália Coimbra (arranjadora e trombonista) e de Ana Cecília Assis (produtora), e conta que as bandeiras do grupo são o amor e a arte. “Interessa a possibilidade de fazermos uma revolução amorosa e poética, do respeito a todas as mulheres do mundo, do empoderamento feminino, do acolhimento às mulheres que sofrem abusos de todos os tipos. Da troca verdadeira entre as mulheres, da sororidade, do apoio mútuo, da não competição, da conquista de melhores condições de trabalho, da liberdade e da diversidade.”
Quanto ao papel do homem nesse processo, Nara destaca: “O papel masculino é apoiar o movimento e trazer para a prática cotidiana as ideias que o feminismo inspira. Apoiar as mulheres da sua vida. Não agir como se a mãe, a irmã, a companheira, a colega de trabalho fossem suas funcionárias. Dividir de fato tarefas domésticas, os cuidados com filhos. Conversar de igual para igual com as mulheres no trabalho. O homem contemporâneo (e a mulher também) está sendo convidado (para não dizer obrigado) a desconstruir uma série de comportamentos e crenças que a nossa sociedade – tão machista – nos ensina. Esse processo é custoso e doloroso, mas com abertura e diálogo podemos avançar como sociedade”.

CERVEJARIA Até mesmo em ações de negócios há espaço para defender e divulgar a agenda feminista, o que comprova que o movimento caminha e se espalha mesmo em redes e diferentes conexões. Exemplo é a dupla Liliam Telles, engenheira florestal, e Thayane Meireles, estudante de fisioterapia, criadoras da marca de cerveja artesanal Libertária. Residentes em Viçosa e militantes, as duas viram no negócio a oportunidade de desconstruir o machismo que prevalece também no meio cervejeiro, expresso nas propagandas e estratégias de marketing que utilizam o corpo das mulheres para vender cerveja”, dizem, em coro.
Com a Libertária, elas querem, sim, gerar renda. Mas também difundir um propósito de vida: “Questionamos os padrões sociais que impõem um papel à mulher na sociedade, vinculado à ideia de dependência em relação ao homem, de fragilidade, docilidade e subordinação. Afirmamos que somos diversas e produzimos uma cerveja que considera a experiência feminina com os diferentes sabores, e desmistifica o estereótipo de que mulher é frágil e gosta de cerveja leve”, declara Liliam.
“Esperamos que a Libertária seja uma forma irreverente de chamar a atenção das mulheres para a necessidade de construirmos nossa autonomia, de nos fortalecermos para inspirar um mundo baseado nos princípios da igualdade, da justiça e da solidariedade”, completa a sócia, Thayane.

Sugestões de leitura que tratam sobre o tema

n O feminismo é feminino? A inexistência da Mulher e a subversão da identidade
Maíra Marcondes Moreira
(Annablume Editora)

n Feminismo em comum, para todas, todes e todos
Márcia Tiburi (Editora Rosa dos Tempos)

n O segundo sexo
Simone de Beauvoir
(Editora Nova Fronteira)

n História da Sexualidade
Michel Foucault

n Problemas de gênero: feminismo
e subversão da identidade
Judith Butler

Entrevista / Maíra Marcondes Moreira - psicóloga/psicanalista e mestre em psicologia pela ufmg

Autora do livro O feminismo é feminino? A inexistência da mulher e a subversão da identidade (AnnaBlume Editora, 204 páginas), Maíra Marcondes Moreira, psicóloga/psicanalista e mestre em psicologia pela UFMG, explica que a obra propõe um diálogo entre a psicanálise, os estudos feministas e a teoria queer. “Acredito que este livro possa ser interessante para a academia e militância feminista queer e para os interessados em formas contemporâneas de fazer política.” Confira, a seguir, o que ela pensa sobre alguns aspectos do feminismo contemporâneo.

Como você define o feminismo?
No meu livro, defino feminismo em termos gerais como a luta pela igualdade de gênero e contra a opressão às mulheres. O feminismo é tanto um movimento político quanto um campo teórico que visa possibilidades de existência menos violentas para mulheres, para as minorias e para a sociedade como um todo. Ou seja, só existe enquanto prática coletiva que visa mudanças coletivas e que é contrário a todo tipo de dominação.

Quais são os principais símbolos e as principais vertentes hoje?
Temos diversas vertentes feministas. Atualmente, o feminismo negro, pós-colonial, interseccional, decolonial e queer podem ser considerados os de maior influência no contexto acadêmico, mesmo tendo surgido fora da academia. Mas há vertentes que ganharam maior espaço nas redes sociais, como o feminismo radical e o feminismo liberal. Bell Hooks, Angela Davis, Spyvak, Paul Beatriz Preciado e Judith Butler são alguns dos grandes nomes do feminismo contemporâneo.
Em que medida e em que pontos o feminismo está e se faz presente na vida da mulher contemporânea?
O feminismo não é um estilo de vida. Ainda assim, podemos dizer que todas as mulheres se beneficiam dele, mesmo as que se dizem antifeministas têm uma dívida com a luta de mulheres que as antecederam por essas terem conquistado o direito ao voto, ao divórcio, à universidade e ao espaço público. Acredito que muitas não se reconheçam como feministas devido a uma má compreensão de que o movimento “odeia homens”, que impõe novas regras e ideais para mulheres, “feminista não se depila”, e também pelos efeitos de apagamento das conquistas históricas das mulheres, posto que nos é ensinado que as mulheres “ganharam” alguns direitos porque seria interessante para o “mercado”.

Por fim, em que medida a agenda e o exemplo de feministas que fizeram história contribuíram e têm contribuído para uma realidade diferente?
Acredito que toda uma nova geração de mulheres irá crescer com conteúdos feministas mais acessíveis e terá um contato muito mais precoce com o feminismo e sua importância. No contexto escolar, por exemplo, se o país continuar a se desenvolver em moldes progressistas, será muito interessante o resgate histórico de mulheres e de ações de mulheres que impactaram sua época e, por consequência, a nossa. Há toda uma geração que já tem mais acesso a quem foram as grandes mulheres na história, na ciência, nas artes, na filosofia, nas revoluções e na política. Isso, certamente, cria novas possibilidades para o que se entende como feminino e sobre o lugar da mulher na sociedade.


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