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Processo em construção

Pesquisas em países da América Latina indicam que estamos na quarta onda do feminismo, num movimento que se multiplica de forma difusa em diferentes direções


postado em 19/05/2019 04:07

Com a revolução tecnológica que dá voz a grupos diversos nas redes sociais, o tema feminismo e sua repercussão no cotidiano tem chamado cada vez mais a atenção. Seja em campanhas empreendidas com hashtags como #chega de fiu-fiu; #meu primeiro assédio ou #não é não, seja no comportamento de mulheres que repercutem a atual demanda, a questão se faz mais e mais presente. E urgente.
Quem explica o atual momento do feminismo e de que forma o debate tem se tornado transversal no Brasil e em países da América Latina é Marlise Matos, professora do Departamento de Ciência Política e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa da Mulher e do Centro Feminista de Gênero, ambos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Envolvida com o tema desde a graduação em psicologia, em 1989, também eleito para as pesquisas do mestrado em teoria psicanalítica e do doutorado em sociologia, ela se caracteriza como uma feminista acadêmica.
Na definição clássica, Marlise explica o feminismo como um movimento social. “Emancipatório, de luta pela igualdade de condições, igualdade de direitos e de oportunidades entre homens e mulheres. Evidentemente, é isso.” Porém, neste século 21 e depois de 25 anos de pesquisas em torno do tema, diz tratar-se de um cenário mais e mais ampliado. “Hoje, o feminismo vai muito além desse movimento organizado da sociedade civil. Vivemos o que pesquisadores descrevem como a quarta onda do feminismo.”
Com base em estudos realizados no Brasil e outros 18 países da América Latina, a professora aponta que a quarta onda do feminismo é assim nomeada por abranger dois grandes movimentos surgidos recentemente. Ela lembra os movimentos anteriores: iniciados durante a redemocratização do Brasil e com o surgimento das organizações não governamentais (ONGs), a partir da década de 1990.
Depois, surgiram outros dois. “O primeiro tenho chamado de fluxos horizontais do feminismo, que hoje é um rizoma, tem o formato de uma rede. Você pode olhar para qualquer movimento e verá uma ramificação feminista.” Ela cita movimentos sindicais, negros, estudantis, LGBT+ e outros, para exemplificar. “É um ativismo potencialmente seccional, e um feminismo que se espalhou, contagiando todos os outros movimentos de uma maneira mais horizontalizada.”
O segundo, ela chama de fluxos verticais: “as feministas foram também para dentro das instituições políticas e isso justifica o feminismo hoje estar além de um movimento social. As mulheres entraram para o Estado quando começaram a integrar coordenadorias, secretarias, conselhos. Finalmente, surgiram uma secretaria de mulheres e um plano nacional de políticas públicas para mulheres. É por isso que eu e a professora Sônia Alvarez, especialista nos feminismos latino-americanos, temos designado o feminismo atualmente como um campo de luta e de enfrentamentos que é muito mais plural do que só a mobilização exclusiva dentro da sociedade civil”.

MÚLTIPLAS AGENDAS Também para além do meio acadêmico, o tema borbulha. E se mostra repleto de agendas. Ativista cultural, cofundadora e gestora cultural do Bloco Afro Angola Janga, Nayara Garófalo representa o feminismo negro. Ela aponta uma série de dificuldades que colocam as mulheres negras na berlinda social. E afirma que, desde a chegada à faculdade, sentiu na pele a demanda de seus pares. “Percebi a falta. A falta de outras mulheres negras. A falta de pesquisadoras. A falta de pontos de vistas femininos. A ausência dessas vozes. E essa ausência me motivou a procurar algum conhecimento que preenchesse esses vazios. Foi assim, lentamente e por conta própria, que passei a conhecer os feminismos, os teóricos e teóricas negras, entre outras correntes de pensamento e outros movimentos sociais.”
Numa trajetória repleta de ações, Nayara fundou o Bloco Afro Angola Janga ao lado de Lucas Nascimento. A ideia, conta, é acessar a cultura como uma ferramenta importante de mudança social e política pública, alinhada a toda a sociedade e a movimentos que tragam ações positivas. “Sempre procurei trabalhar pelo coletivo, em parceria com outros projetos. O Angola Janga é um bloco afro, com lideranças femininas e com a maioria dos integrantes sendo mulheres. Falar da mulher negra é natural para nós, visto que estamos lá, nos lugares de fala e de decisão, pautando nossas questões e conduzindo o desenvolvimento do projeto.”
Um dos ideais do grupo, destaca, é reforçar e valorizar a identidade da mulher negra. E explica: “uma pessoa branca dificilmente se vê como uma pessoa branca. Ela se vê como uma pessoa. Já os negros são constantemente lembrados dessa alteridade. Até nos ‘elogios’: ‘Você é uma mulher negra linda’, somos colocados neste papel do ‘outro’. Mas e quando o outro é você?”.
Outras questões são abordadas pela ativista. “É preciso entender, conhecer e construir essa identidade diariamente, em um mundo que nos coloca, por meio da mídia e das ideologias, sempre nos mesmos papéis: a mulata do carnaval, a empregada doméstica, a favelada, a barraqueira, a subserviente, a subalterna, a mãe preta, entre outros.”
Assim, ela defende a cultura como meio de construção identitária. “Nesse sentido, o bloco tem o papel de compartilhar para a apropriação de pessoas negras à sua própria cultura e, consequentemente, estabelecer sua identidade. Uma vez sabendo quem eu sou e como me insiro no mundo, posso, finalmente, entender como este mundo opera em relação a mim e como posso lutar em busca de condições melhores para todas as mulheres, sem distinção, mas considerando sempre suas especificidades.”

Rrês perguntas para... Cláudia Natividade, psicóloga e professora de psicologia da faculdade arnaldo

De que forma a agenda feminista afeta o cotidiano?
Quando falamos de feminismo, muitos pensam em uma série de estereótipos e preconceitos, carregados de imagens negativas: taxam a mulher de raivosa, de não se depilar, de ser mal-amada ou lésbica. Também mistificam, acreditando que a feminista é a mulher que quer ser superior ao homem. No entanto, o feminismo é um movimento social, uma construção científica que estuda o sentido e as formas de equidade e se contrapõe ao sistema de desigulade entre os gêneros. Na prática, viemos notando que, hoje, o partilhamento das tarefas domésticas e o cuidado com as crianças é um palco de disputas em que o homens têm se envolvido mais do que em um passado recente. Mas, ainda persistem muito desafios e um deles é justamente a maternidade compulsória, pois mulheres sempre são cobradas de serem mães, enquanto que, em uma realidade cada vez mais frequente, elas querem inclusive optar por não ser. Quando se colocam nesse lugar de escolha, muitas vezes são malvistas. Até por outras mulheres. Há, ainda, um núcleo duro das relações de gênero, em que a violência persiste, como prova o número de feminicídios de que temos notícia. Então, nosso cotidiano demonstra que já trabalhamos para reorganizar as relações, mas ainda há muito a ser trabalhado. Em relação aos homens, deixar o lugar de privilégio não é tarefa fácil, exige um trabalho de desconstrução muito profundo. Mas muitos deles também estão nesse caminho.

O que considera pontos positivos nesse movimento feminista?
Novas relações estão marcadas pelas lutas feministas de forma muito gerenciada. Vou fazer 52 anos, e, na minha geração, a gente precisava de que uma outra mulher se aproximasse para conversar sobre pautas do feminismo. Hoje, as meninas de 12/13 anos já têm acesso a essas questões, de forma muito aberta e veloz. Há a quarta onda do feminismo e esse debate tem se espalhado e recebido adesão e entendimento na construção da subjetividade pautada na perspectiva da autonomia, da escolha, reconhecimento, autoestima.

 Quais são as demandas ainda não contempladas e em que já evoluímos?
Entendo que a luta das mulheres é muito antiga. Elas tiveram e ainda têm que falar muitas vezes, explicar as demandas muitas vezes. Então, ainda é uma luta. Além da violência física, há a psicológica, muitas vezes disseminada em entrelinhas. No entanto, até a própria colocação do corpo no mundo é um tema que as mulheres têm tomado como pauta. Vamos ver nas redes sociais mulheres gordas falando sobre o corpo, ou mais velhas, e não apenas jovens, magras, brancas. Esse movimento de desconstrução e inclusão das possibilidades de ser mulher e se realizar enquanto tal é uma conquista. Hoje, as pautas feministas surgem com potência muito mais cativadora do que antes, o que deve ser comemorado. E indicar que o caminho para a igualdade entre os gêneros não fique restrita ao debate nem só a cargo e sob responsabilidade de um ou outro segmento, mas de toda a sociedade: de mulheres e homens, pais, parentes, amigos, para que todos ocupem esse lugar de diversidade e pluralidade, num processo de desconstrução de mitos e tabus.

Palavra de especialista

Nayara garófalo, ativisita social

Conduzir a própria vida

“O feminismo está na luta diária do enfrentamento da roupa que você revê ao sair de casa porque vai estar sozinha, no medo de voltar pra casa a pé, no colega de trabalho que pega suas ideias e vende como se fossem dele, nas piadinhas que desvalorizam, na violência doméstica, no acesso das mulheres a cargos políticos, no feminicídio, no salário baixo, no acesso à educação, nas políticas públicas, nas oportunidades de carreira, no direito de ser mãe, no direito de não ser, no direito de ser dona de casa se você quiser e no direito de não ser. Os feminismos, nas suas várias vertentes, têm em comum a luta para que uma mulher tenha o direito de conduzir sua vida e sua trajetória como ela escolher, sem que isso seja interrompido ou gerenciado por ninguém ou por nada, seja salário menor, seja dependência financeira, seja violência, seja falta de acesso, seja marido, filhos etc.”


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