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Estado de Minas

Antônio Roberto

Quando se está em competição, cada um de um lado querendo forçar o outro a pensar como ele, a comunicação fica difícil e dolorosa


postado em 07/04/2019 05:07

Diálogo amoroso

“Antônio Roberto, sou casada há 7 anos. Amo o meu marido e acredito que ele me ama. Temos, porém, muita dificuldade em dialogar. Não nos entendemos. Parece que falamos línguas diferentes quando conversamos. Sempre acaba em briga. Escreva sobre isso, por favor.”
- Sebastiana, de Betim

Qualquer relacionamento e, em especial do casal, exige ampla capacidade de comunicação nos níveis físico, sexual e verbal. A palavra nos une ou nos separa de outra pessoa. Por meio da palavra partilhamos nosso mundo interior com outrem. Falamos de nossos sentimentos, nossas crenças, nossas experiências e nossa vida. E quando alguém fala, o mínimo que se quer é ser compreendido.
Essa é a essência do diálogo: a compreensão. O problema começa quando confundimos a compreensão com a concordância. E, em vez de querer que o outro entenda nosso ponto de vista, queremos o seu assentimento, o que, às vezes, não é possível. Em outras palavras, queremos “fazer a cabeça do outro”. É o chamado jogo da razão. É a luta para saber quem é o certo e o errado, quem é inteligente e quem é o ignorante, quem não sabe.
O diálogo não é para convencer alguém sobre a minha ideia. É para aclarar meu modo de ver a realidade, que pode coincidir ou não com a percepção do outro. Seria mais ou menos o seguinte testemunho. Somos amigos, nos queremos bem, mesmo que haja discordância entre nós. É um acordo de almas, apesar das diferenças e do direito de cada um agir segundo seu modo de encarar a situação.
No verdadeiro diálogo, a liberdade de pensar tem de ser preservada. Do contrário, toda conversa vira uma disputa, onde haverá um ganhador e um perdedor. Por isso, muitos casais dizem que as suas conversas terminam em briga. Mais do que comunicação, o que falta nos relacionamentos é “comunhão”. Estar do mesmo lado, respeitar uma opinião diferente, saber que a verdade é relativa. Quando existe comunhão entre os parceiros, a comunicação fica fácil e quase sempre divertida. Quando se está em competição, cada um de um lado querendo forçar o outro a pensar como ele, a comunicação fica difícil e dolorosa.
Para haver comunhão é indispensável que ambos se escutem com paciência, boa vontade, sem defensividade e, sobretudo, com amorosidade. Quando estamos em um estado de disputa, o principal sentimento que nos move é a ansiedade. Tornamo-nos tensos, e essa tensão nos leva à impulsividade. É comum entre os casais o arrependimento de ter dito coisas que não deveriam ser ditas durante a discussão. São as chamadas formas compulsivas ao conversarem.
Essas formas automáticas e destrutivas devem ser modificadas para um verdadeiro diálogo. Uma delas é falar de maneira indireta. Explicitar, de maneira direta, os próprios sentimentos e desejos cria uma ponte entre os interlocutores. Embora sutil, há uma grande diferença entre um dos parceiros dizer para o outro: “Faz tanto tempo que a gente não transa. Está havendo algum problema entre nós? Gostaria de transar mais com você, estou sentindo falta”. Outra forma compulsiva é ficar dando conselhos ao outro, tentando tranquilizá-lo, enquanto, na realidade, o seu desejo é apenas contar o fato, externar seu sentimento e como está vivendo determinada situação. Aprendi isso com a minha mulher.
Habituado profissionalmente a dar conselhos, todas as vezes em que ela me falava das suas insatisfações com algum fato, eu insistia nas saídas possíveis para o problema. Um dia, ela me falou: “Não quero soluções para o problema objetivo, quero que você apenas me escute na expressão de meus sentimentos”.
Os conselhos e a tranquilização serão aceitos, mais tarde, depois do desabafo e da compreensão dos sentimentos. Quando não ouvimos pacientemente uma pessoa, ela se sente rejeitada e desamada. Regra nº1 do diálogo: ouvir, ouvir, ouvir. Sem julgar. É difícil, mas é possível. Essa é a forma de compreender os sentimentos do outro, enxergar a situação com os olhos do outro e dar a ele a sensação de que alguém o entende, mesmo que não concorde com ele. Isso é diferente de apressar as soluções e tentar minimizar suas preocupações. Lembro-me de um amigo me contando reações diferentes, ao falar sobre um acidente de carro, no qual teve perda total do veículo, que sem seguro. A maioria das pessoas lhe dizia: Não fique chateado. Poderia ter sido pior. Você está vivo. O que ele queria era compreensão para a sua dor de ter perdido o carro.
Resumindo: o verdadeiro diálogo se baseia na capacidade amorosa de receber o outro nos seus desatinos, e não na lógica de como o outro deveria ser ou fazer. Todo diálogo só será diálogo se for amoroso.


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