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Livro A arte de ter razão, do filósofo alemão Schopenhauer, apresenta 38 estratégias para vencer um debate mesmo sem ter razão. Em tempos de haters, os odiadores da internet, essa obra nunca esteve tão atual


postado em 31/03/2019 05:08

Nascido em Dazing, em 1788, Schopenhauer foi importante filósofo alemão, que influenciou o pensamento do século 19 e continua a influenciar até os dias de hoje. Ele ficou vulgarmente conhecido por seu pessimismo e teve ascendência sobre grandes escritores, como Léon Tolstoi, Kafka, Machado de Assis, Augusto dos Anjos e Jorge Luis Borges, entre outros. Em seu livro Schopenhauer – A arte de ter razão, da Editora Edipro, ele apresenta brilhante, polêmica e bem-sucedida argumentação sobre como vencer um debate sem ter razão. Mestre da filosofia satírica, ele não só mostra a capacidade retórica de defender de forma inteligente seus próprios argumentos, como a compreensão das estratégias adotadas pelos parceiros de debate. Em tempos de haters, os odiadores da internet, essa obra nunca esteve tão atual. Claro, eles não sabem. No entanto, seguem à risca alguns estratagemas propostos pelo autor.
Nas redes sociais, os haters se preocupam em entrar nas páginas das pessoas comuns, artistas, partidos, empresas, instituições e comércios para falar mal, destilar ódio e ofensas. E para que todos os impropérios se justifiquem, eles usam técnicas antigas, também sem perceber, e se destacam nas discussões na internet pelo fato de refutar o discurso do indivíduo que ele está contra, técnica apresentada no Estratagema 2 da obra de Schopenhauer. Guilherme Marconi Germer, doutor em filosofia alemã e austríaca pela Unicamp e pós-doutorando em filosofia moderna pela USP, explica o quão atual se apresentam as ideias de Schopenhauer. “Ele é um filósofo extremamente atual em diversos aspectos. Jair Barboza afirma que compõe, ao lado de Karl Marx, os dois pilares fundamentais da filosofia contemporânea. De fato, algumas das principais correntes da filosofia continental dos séculos 20 e 21 têm no autor referencial incontornável. Entre seus mais eminentes admiradores se destaca Friedrich Nietzsche, que o identifica como seu ‘grande mestre’, revela que sua descoberta de Schopenhauer lhe trouxe ‘revolução espiritual’, e o define como o filósofo educador ideal. A riqueza pedagógico-filosófica desse autor, conforme Nietzsche, se deve ao fato de ele saber ‘dizer as coisas profundas com simplicidade, as coisas comoventes sem retórica, e as rigorosamente científicas sem pedantismo’.”
No entanto, para Guilherme Marconi Germer, o perfil contemporâneo corriqueiro do hater nada tem em comum com Schopenhauer, e muito pouco com a dialética erística (como vencer um debate sem precisar ter razão – em 38 estratagemas). “Os haters não praticam a dialética erística (e muito menos a filosofia) porque negam a própria situação do diálogo. Eles não querem dialogar, mas apenas manifestar uma repulsa ou ódio. Durante um debate, eles seriam aqueles que só sabem ficar do lado de fora, vaiando, sem nada acrescentar. O dialético erístico já é bem mais evoluído. Do ponto de vista intelectual não rejeita o debate, pelo contrário, busca as conversas, uma vez que vê nelas a oportunidade de se beneficiar positivamente, com base em suas estratégias de vitória dialógica (sem precisar ter razão). Por isso, ele dá voz ao interlocutor, escuta-o até certo ponto, pois muitas vezes buscará usar as próprias armas do interlocutor contra ele mesmo.” Para ele, “os textos culturais mais tardios de Freud sobre o impulso de destruição, e os de Adorno sobre a barbárie, me parecem ensinar um pouco mais de perto o perfil psicológico e sociológico do que hoje se denomina haters”.

DEBATE Guilherme Marconi Germer explica que Schopenhauer quer nos ensinar o poder consolador da verdade e do conhecimento, em um mundo mergulhado no acaso e no erro. “Se partirmos de A arte de ter razão, Schopenhauer diz que a ‘verdade é indestrutível diamante. É a única coisa que permanece firme, que persevera e se mantém fiel’. Sempre é um grande risco se afastar dela. Porém, tê-la em mãos nunca é suficiente em qualquer debate. Assim, tão importante quanto tê-la é saber preservá-la de seus depravadores desleais. E, para tanto, sempre valerá a regra da justeza de que os combatentes duelem com as mesmas armas. Com esse fim, sobretudo, de defesa da verdade contra os erísticos trapaceiros e com os recursos da própria erística, bem como com o fim de denunciar ironicamente o comportamento dos últimos, Schopenhauer escreveu esse livro, cuja leitura é uma porta de entrada privilegiada e de grande valor atual ao cerne de sua filosofia.”
Entre os 38 estratagemas do livro, Guilherme Marconi Germer afirma que todos são amplamente praticados ainda. “Infelizmente, o último estratagema é o mais usado, pois marca, justamente, o fim do debate, e a passagem para o não debate. Isso é, o rebaixamento da ‘humanitas’ para a animalidade da agressão e do ódio. E, por isso, a transição da dialética erística para o comportamento do hater. Último estratagema: ‘se percebemos que o oponente é superior e que não ficaremos com a razão, então devemos nos tornar ofensivos, ultrajantes e rudes’. Tornar-se ofensivo consiste em passar do objeto da disputa (que está perdida) para seu sujeito, atacando-o pessoalmente (...) É um apelo das forças intelectuais às do corpo ou à animalidade. Essa regra é muito apreciada, uma vez que qualquer um é capaz de executá-la”.

Serviço
Livro: Schopenhauer – A arte de ter razão
Apresentação: Guilherme Marconi Germer
Tradução: Érica Gonçalves de Castro e Guilherme Ignácio da Silva
Editora: Edipro, 1ª edição, 2019, 80 páginas, R$ 32,90


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