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Liberdade para escolher

Bureau de previsão de tendências de Londres aponta que o mundo entra em uma nova era emocional. Cansados do rastreamento de sua vida digital, as pessoas decidem se deletar das redes sociais


postado em 17/03/2019 05:10

(foto: Pete linforth/pixabay)
(foto: Pete linforth/pixabay)


Você já se imaginou fora das redes sociais? Sem expor sua vida, seus gostos, ideias, valores, posições políticas, sociais e comportamentais? O World Global Style Network (WGSN), empresa de previsão de tendências de Londres, em seu relatório de macrotendências de 2019, o “The Vision WGSN”, acredita que este ano será marcado por uma nova era emocional. O que isso significa? Para os experts, que identificam os principais movimentos econômicos, artísticos, políticos e socioculturais que vão impactar as maneiras como compramos, comemos e nos comunicamos, as pessoas se mostram cansadas do rastreamento obsessivo de seus dados pessoais e mídias sociais/notícias e o desejo de sumir do mapa definitivamente. Assim, para se ver livres desse monitoramento, muitas optam (ou vão optar, já que cada tendência dura em média cinco anos) pelo chamado “suicídio virtual”, que é o ato de deletar as suas redes sociais.


Essa ideia, conforme o relatório da WGSN, nunca esteve tão presente no imaginário popular. Ainda que tenha de lidar com o contraditório, ou seja, a vontade de permanecer conectado o tempo inteiro, guiado pelo medo da sensação de estar perdendo alguma coisa. Em tempos de extremismo e incertezas, fica difícil cravar qual é a melhor saída; o que se ganha e o que se perde com essa atitude.


Privacidade é um assunto complexo no mundo digital. Muitos pensam que estão no controle da sua exposição. No entanto, esse domínio é frágil e seus dados, uma vez jogados na rede, podem ser acessados sabe-se lá por quem e usados sabe-se lá de que forma. Não faz muito tempo que o Facebook foi mergulhado em um escândalo envolvendo o uso irregular de dados, o que o obrigou a uma série de mudanças na política de privacidade para dar aos usuários “mais controle” sobre suas informações. Há, ainda, denúncias contra o Google, Facebook, Instagram e WhatsApp, que acusam essas empresas de forçar os usuários a aceitarem publicidade dirigida para poder usar seus serviços (liberando seus dados). Ou seja, as pessoas não têm a oportunidade de escolher livremente.


Assim, a sensação de estar o tempo todo sendo vigiado tem incomodado muitos, que passam a viver ou pensar em viver longe das redes sociais, pelo menos até que haja uma regulamentação ainda mais rigorosa e segura quanto à privacidade e quem tem acesso aos seus dados. Se é que isso será possível algum dia. Para muitos, a noção de que suas informações, coletadas a partir de fotos, comentários e curtidas, são a grande fonte de receita da rede social, que fornece os dados para parceiros e anunciantes, chegou ao limite. Há quem defenda que é preciso aproveitar os benefícios da Era Digital e não ficar parado no tempo, e que escândalos de vazamentos de dados, ainda que assustadores, são menores diante da nova sociedade.


A realidade é que controlar como e por quem você quer ser conhecido é um direito cada vez mais ilusório. Por isso, a atitude capturada pelos especialistas da WGSN faz tanto sentido. Eles dizem que muitas pessoas decidem voltar a viver fazendo contato tête-à-tête. E, à medida que a humanidade começa a perceber a relação primordial entre o equilíbrio físico e mental, o consumidor parte em busca do que realmente o sensibiliza. Outra mudança é que essa tendência faz com que ele procure produtos e serviços cada vez mais relacionados às coisas que o tocam emocional e fisicamente.


MERCADORIAS Maria Clara Jost, pós-doutora em psicologia clínica, docente da pós-graduação lato sensu da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG) e psicóloga da Tip-Clínica, contextualiza esse cenário. Para ela, de tempos em tempos a humanidade é assolada por grandes ondas de transformação técnico-científica, que se desdobram em diversas outras mudanças, alterando o modo de organização sociocultural e psicossocial. “Mudam-se, assim, o modo de pensar, de agir e até de sentir das pessoas. Alteram-se os costumes, o modo de vestir e de se comportar, os modos de falar e de se relacionar.

Modificam-se os critérios de valores e os juízos éticos. Questiona-se o passado e duvida-se das certezas da tradição, colocando-se em pauta todos os critérios referentes ao julgamento do certo ou do errado, do bem ou do mal. Isso ocorre desde que ‘o mundo é mundo’, diriam, com conhecimento de causa, os mais sábios.”
Todavia, Maria Clara Jost afirma que o advento da chamada Era Digital ou Quarta Revolução Industrial trouxe em seu bojo transformações que superam todas as outras antecedentes, “tanto no que se refere à sua enorme abrangência quanto à velocidade de circulação da informação, movimento que engendra um grande relativismo dos sistemas de valores e interpretação, segundo também colocam os sociólogos Berger e Luckmann. Como decorrência, forjam-se alterações radicais, que não apenas incidem na organização da vida social, nos hábitos, nos costumes e nos relacionamentos interpessoais, porém, afetam igualmente o modo de autocompreensão dos sujeitos”.


Na visão de Maria Clara Jost, encurtaram-se distâncias, promoveu-se a interação entre as pessoas, transformaram-se vidas. “Temos, finalmente, o mundo em nossas mãos”, dirão alguns maravilhados. “Somos ligados, conectados, cercados de informação por todos os lados”, afirmarão outros orgulhosos. “Podemos encontrar e comprar o que quisermos, em qualquer lugar do mundo”, dirão alguns outros encantados. “Certamente, no mundo digital, que é elemento marcante da famosa pós-modernidade, pode-se colocar à disposição para consumo qualquer produto. Pode-se comercializar qualquer coisa. No entanto, numa sociedade organizada pela via de consumo, disponibiliza-se para consumo não somente coisas, mas também pessoas. Tornamo-nos, ‘livremente’, mercadorias de consumo e escravos dos ditames da Era Digital.”


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