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Estado de Minas

Exorcizando os demônios

A menstruação chega para dizer à mulher que seu corpo é fértil, capaz de gerar. Mostrar o poder criador do útero e a ligação clara e evidente da mulher com a Lua, a Terra e o Universo


postado em 03/03/2019 05:09

 

 






Um filme sobre menstruação ganhar um Oscar em 2019? A vitória surpreendeu até a diretora do documentário Period end of sentence (Absorvendo o tabu, em português). A irariana Rayka Zehtabchi quase não acreditou. É verdade: em 2019, um filme sobre mulheres e menstruação ganhou um Oscar. Em 25 minutos, o documentário conta a história das mulheres que vivem em Kathikera, uma aldeia de Japur, próxima a Nova Délhi, na Índia. Elas lutam até hoje, por incrível que pareça, para ter acesso a produtos de higiene e, principalmente, à educação e ao trabalho. Rayka não segurou as lágrimas e disse que não estava chorando por causa de tensão pré-menstrual (TPM) – referência a comentários machistas conhecidos – mas porque um filme sobre menstruação havia ganho a estatueta.

Com certeza, também as mulheres do distrito de Japur, na Índia, choraram. Elas ainda vivem num tempo em que mulheres têm vergonha do próprio corpo e da menstruação, deixam de comparecer à escola por falta de produtos de higiene, principalmente de absorventes. Usam tecidos sujos, folhas e até cinzas para impedir que o sangue escorra pernas abaixo. Essas alternativas aumentam riscos de infecções graves, que as deixam doentes e podem levar à morte. Algumas meninas nunca mais retornam à escola.

Entre tantos problemas que impedem o crescimento da população feminina em países pobres, essa questão biológica pode ser resolvida. O filme mostra que uma máquina de produzir absorventes biodegradáveis é a resposta. Além de levar os produtos higiênicos a essas meninas, a máquina exige trabalhadoras treinadas, dando a elas ensino técnico e emprego, promovendo a independência financeira. Ao mesmo tempo, especialistas de ONGs dão cursos para tirar o estigma da menstruação.


No documentário, as meninas, envergonhadas, perguntam a uma velha senhora do vilarejo o que é a menstruação, por que as mulheres sangram todos os meses. Ao que ela responde: “Só Deus sabe. É um sangue ruim que sai de dentro da gente”, ela replica o tabu secular. Tanto que, nesse período, as mulheres indianas são proibidas de frequentar templos, pois são consideradas sujas –, e circula o preconceito de que a reza de uma mulher menstruada não é ouvida por Deus. Os homens da aldeia também mostram desconhecimento sobre uma fase tão importante na vida de uma menina. “É um tipo de doença que atinge principalmente as mulheres”, diz um dos jovens, ao ser indagado sobre o tema.

Com a chegada da máquina de absorventes com o sugestivo nome de Fly, as mulheres em Japur estão tentando sair do chão, exorcizar os demônios, expurgar todas as culpas impostas. Reúnem-se em grupos para divulgar e vender o produto entre elas mesmas. Os absorventes Fly chegaram para financiar os sonhos das mulheres. Elas agora querem voar, ter a própria vida.

A chegada da menstruação, na realidade, desperta em todas as mulheres, de várias gerações, um misto de vergonha, fardo e silêncio. Lembro-me de que, aos 12 anos, estava numa cidade do interior passando férias, mas, mesmo assim, tinha aulas particulares de física e matemática, pois tinha tomado recuperação nas duas matérias. Ao acordar, vi que os lençóis estavam sujos de sangue. Não quis levantar e disse à minha mãe que não iria à aula – e voltei a me cobrir com o lençol. Nenhuma mulher da família, inclusive minha mãe, nunca tinha falado no assunto. Eu sabia o que era, mas, e a vergonha de conversar sobre o fato? Minha mãe ficou brava e quase me bateu. Puxou o lençol e constatou o motivo da minha indolência. Então, parou de reclamar, mas não comemorou nem explicou. Correu para contar às outras mulheres presentes na casa. Tive permissão de me ausentar da aula de recuperação, mas aquele dia nunca mais saiu da minha memória. Olha que sou filha da revolução de comportamentos, de uma geração que participou dos movimentos feministas, que foi contemplada com a chegada da pílula anticoncepcional, que deu às mulheres poder sobre o próprio corpo.

O documentário Absorvendo o tabu revolveu sentimentos conflitantes, como o dia em que uma sobrinha de 11 anos falou sobre o evento em sua vida. “Nojento”, disse ela, em pleno século 21. Sem graça, não quis continuar o assunto, mesmo que as mulheres à sua volta quisessem comemorar. Virou as costas e saiu de cabeça baixa.

Conheço mulheres que sabem e trabalham o poder feminino. Uma delas é Vanessa de Abreu, de 37 anos, casada, mãe de Bento e de Serena. Doula, feminista e defensora do parto humanizado, sem violência obstétrica, ela confessa que sempre lidou bem com a menstruação, mas nem sempre foi assim. Estava com 11 anos quando ficou menstruada. Escondeu por dois dias e depois contou para a mãe, que fez uma festa, mas Vanessa ainda achava que era um fardo.

A leveza com a condição de mulher chegou junto com Bento, o primeiro filho, de parto natural. Depois veio Serena, de 4, que veio ao mundo em casa, na presença do pai e do irmão, na paz. Ela hoje celebra a menstruação todos os meses e costuma chamá-la de “minha mestra”, pois a cada mês ensina um pouco mais sobre o poder de ser mulher.

Encontrar Dani Cuccia também redime as mulheres de todas as culpas ancestrais. Aos 42 anos, mestre em reiki, aromatóloga, especialista em ginecologia natural, doula, entre outros dons e conhecimentos, Dani ficou menstruada aos 12, em 1º de abril. Lembra-se de toda a cena, pois foi um momento muito difícil. Dani ficava pensando em quantos dias ia perder de piscina e de brincadeiras por estar menstruada. Sentiu muita vergonha de contar aos pais, mas não teve escolha, pois precisava de absorventes.

Dani tem filhos homens, o que não a impede de educá-los para uma vida de respeito e amor a todos. Independentemente de gênero, eles sabem e lidam naturalmente com a menstruação. Sabem que a mãe passa por essa fase mensalmente, como todas as mulheres. Sabem quando ela está para ficar menstruada, por conta da irritação, mas lidam com muito respeito e admiração por todo esse processo.

Eles já viram várias vezes quando Dani entrega o sangue à terra. Não sentem nenhum nojo nem estranheza, pois é um ritual que faz parte do sagrado feminino. Dani usa o coletor menstrual biodegradável. Feito de silicone, é introduzido no canal vaginal, depois é retirado e depositado em uma jarra, até o fim do ciclo.  O sangue, então, é plantado na terra, que pode ser um jardim, um vaso ou uma planta reservada para essa finalidade.

Dani sabe que a menstruação chega para dizer à mulher que seu corpo é fértil, capaz de gerar. Mostrar o poder criador do útero e a ligação clara e evidente da mulher com a Lua, a Terra e o Universo.  Mostrar que a mulher carrega no ventre o dia e a noite, as quatro estações e todos os ciclos da natureza. E há maior poder que esse?


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