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Contar sobre sua vida é se colocar no mundo

Todos têm um passado que compõe a sua história. Narrar fatos, evocar lembranças e compartilhar memórias é uma maneira de resgatar a si próprio e registrar sua vivência para todas as gerações


postado em 17/02/2019 05:09

Para a psicóloga e psicoterapeuta humanista Renata Feldman, escutar é uma habilidade que repercute positivamente na interação com o outro e fortalece as relações(foto: Cris Albuquerque/Divulgação %u2013 21/6/16 )
Para a psicóloga e psicoterapeuta humanista Renata Feldman, escutar é uma habilidade que repercute positivamente na interação com o outro e fortalece as relações (foto: Cris Albuquerque/Divulgação %u2013 21/6/16 )











Saber ouvir é se sentir acalentado pela comunhão com o outro. Quando nos deparamos com o propósito do Museu da Pessoa, que é permitir que cada pessoa tenha o direito e a oportunidade de ter sua história de vida eternizada e reconhecida como fonte de conhecimento e compreensão pela sociedade, é como se nos perdêssemos no meio do melhor abraço. Para Renata Feldman, psicóloga e psicoterapeuta humanista com foco nas relações afetivas, “saber ouvir é acessar o outro por inteiro – não só o que ele fala, mas como fala – seus gestos, seu olhar, sua emoção e comunicação não verbal, tudo isso diz algo e merece ser ouvido, ‘lido’, ‘capturado’ e percebido com atenção. Saber ouvir é ir além do fisiológico, do sensorial, do auditivo, é alcançar uma experiência de profunda receptividade, entendimento e compreensão do que está sendo dito. O bom ouvinte tem uma disponibilidade interna e um interesse genuíno em escutar o outro”.

Renata Feldman explica que a importância de saber ouvir reside em produzir boa qualidade na comunicação e, por conseguinte, nas relações interpessoais e afetivas. “Escutar é uma habilidade que repercute positivamente na interação com o outro, validando e fortalecendo as relações. Quando não há uma escuta genuína, é comum que ocorram falhas de comunicação, interpretações equivocadas e distanciamentos. A pessoa se sente, muitas vezes, incompreendida, e o que é pior, sem importância para o seu interlocutor.”

A psicóloga ensina que, ao falar, o sujeito também se escuta, organiza os pensamentos, conecta-se com as suas emoções, exercita sua expressão e posicionamento diante do mundo. “Ao ouvir, ele realiza um exercício de empatia, de interação plena e genuína que ocorre quando duas pessoas ou mais se encontram. Falar cura, e essa cura é confirmada diariamente pelos profissionais de ajuda, que, necessariamente, têm como ferramenta de trabalho a sua escuta. Saber ouvir é construir pontes em vez de abismos. Aproximação, cumplicidade e o fortalecimento de vínculos são alguns dos bons efeitos gerados por essa habilidade.”

A identidade das pessoas está ligada à conservação da história e da memória. Daí a importância de o ser humano não deixar de contar suas histórias, seja homem comum seja intelectual. “Independentemente do repertório ou nível sócio intelectual, todo mundo tem uma vida para viver e um passado já vivido que compõe a sua história. Narrar fatos, evocar lembranças e compartilhar memórias é uma maneira saudável de ser e se colocar no mundo. Ao falar, o sujeito se reconhece, se encontra, se identifica ao fazer um resgate de si e da sua própria história.”

NARCISISMO E ILHA

Em um mundo individualista, de só belas histórias postadas nas redes sociais, é difícil chamar a atenção e jogar holofote sobre a importância de conhecer a verdadeira história do outro. Renata Feldman lembra bem que vivemos em uma era narcisista, individualista e hedonista. “Todos esses ‘istas’ contextualizam, nessa nossa sociedade pós-moderna, uma ânsia pela fala e uma escassez de escuta. Dispor de tempo e atenção para ouvir o outro, de forma inteira e acolhedora, acaba sendo uma preciosidade nos dias de hoje. Há um movimento de egotismo de se colocar no mundo e ser o centro das atenções, o que acaba por intensificar a necessidade de falar, em detrimento do ouvir. Em tempos de redes sociais, cada um tem seu ‘megafone particular’. Páginas, endereços, espaços próprios e delimitados para se expor por meio de ideias, pensamentos, desabafos e críticas. O Facebook parece ter se tornado um grande divã – basta entrar que ele pergunta ao usuário ‘o que ele está pensando ou sentindo’. E o que se percebe é que há realmente uma necessidade de falar, se expressar, se conectar com o mundo. Mesmo que virtualmente.”

No entanto, completa a psicoterapeuta, muitas vezes, o virtual é insuficiente e pode gerar uma sensação de vazio ao fim do dia. “Ainda prevalece a busca pelo contato real, marcado pelo olho no olho e o alento em se fazer compreendido. Quando isso não ocorre nas relações familiares e/ou sociais, o caminho é buscar uma terapia. O que percebo na clínica é um misto de ansiedade e alívio. Ansiedade em falar, alívio em encontrar um espaço de escuta e compreensão, sem cortes ou julgamentos.”

Renata Feldman destaca que ninguém é uma ilha. “Somos feitos de conexões, nos constituímos a partir do outro, há uma alteridade que nos permeia. E há uma singularidade também. É do ser humano pensar sua subjetividade, sua existência, refletir sobre a vida e criar uma identidade que lhe pertença. Se ‘a vida é curta’, como nos lembra o clichê, que seja também registrada, lembrada, passada pra frente. O passado nos ensina, nos conduz e se transforma em memória, pondo sentido e criando raízes.”

Para o Museu da Pessoa, uma história pode mudar o jeito de cada um ver o mundo. Renata Feldman concorda. “Cada história tem sua riqueza, sua capacidade de tocar e modificar as pessoas. As narrativas podem causar identificação, reconhecimento, emoção. Ao serem lidas e ouvidas, deixam marcas, transmitem conhecimento e deixam um legado. Todas as partes envolvidas em uma história – protagonista, contador e ouvinte – têm um papel muito importante nesse processo.”


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