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Hábitos antigos mesclam ideais contemporâneos

Especialistas apontam que viver em um cohousing favorece a qualidade de vida dos idosos. Porém, exige novo comportamento, focado no desapego e em processos de cooperação


postado em 10/02/2019 05:03

Ana Beatriz e Cícera Maia se uniram para divulgar o Conexão Gaia, local em que pretendem viver já a partir de 2022 (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press )
Ana Beatriz e Cícera Maia se uniram para divulgar o Conexão Gaia, local em que pretendem viver já a partir de 2022 (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press )

 

 











“É missão da Vila ConViver ser uma comunidade sênior solidária, que favoreça o envelhecimento saudável de todos os seus moradores por meio do apoio mútuo, da cooperação, do incentivo à autonomia, do respeito à individualidade de cada associado e da interação com a sociedade em geral”, detalha Bento da Costa Carvalho Júnior, de 72 anos. Engenheiro de alimentos, professor doutor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele integra a Associação dos Moradores da Cohousing Sênior Vila ConViver e atua na vice-presidência da entidade.

Idealizado por grupo de docentes da Unicamp, a partir das pesquisas de um Grupo de Trabalho (GT) que investigou a temática moradia para idosos, o projeto Vila ConViver está com desempenho avançado. A previsão dos 54 integrantes é que a mudança para o espaço seja realizada a partir de 2021. Ao descrever o hábitat idealizado para viver a última etapa da existência, o professor aposentado é só entusiasmo. “Estudamos várias opções de residência para idosos com problemas – limitação/restrições – de autonomia e independência existentes no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Esse trabalho nos levou à descoberta de um tipo de comunidade residencial intencional criado na Dinamarca, na década de 1990, em que os moradores iam menos aos médicos, tomavam menos remédios e viviam mais que o restante da população. O grande diferencial desse tipo de comunidade residencial era a parte social, por meio da criação intencional do espírito de comunidade, de apoio mútuo e cooperação entre os seus moradores”, explica.

No projeto da Vila, os arquitetos preveem que a casa comum chegue a ter até 600 metros quadrados (m²) de área construída (com suítes para hospedar familiares dos moradores) e as residências individuais, de 80m² a 100m². “Outras dependências comuns podem incluir pista de caminhada, núcleos distribuídos com mesa e bancos, horta etc. O estacionamento de veículos é comum, logo na entrada do terreno. A arquitetura física de uma cohousing privilegia a interação social”, reforça o professor.

MOTIVAÇÃO

A ideia é tentadora até para quem ainda é jovem, caso de Ana Beatriz de Oliveira, relações-públicas, de 49. A princípio, ela chegou aos grupos Cohousing BH e Conexão Gaia, ambos idealizados por Cícera Vanessa Maia, de 58, funcionária pública federal aposentada, pensando em poupar a única filha da preocupação com cuidados que demandaria na velhice. Mas logo se apaixonou pelo projeto e pelas ideias propostas no novo modelo. “Pela minha própria experiência de vida, percebo que as pessoas, mesmo familiares, não têm a ideia de repartir, compartilhar. E foi justamente tal premissa que me fisgou logo que conheci o modelo”, conta.

Hoje, ela e Cícera se tornaram amigas e vêm espalhando por aí a ideia do cohousing em que pretendem estar morando já a partir de 2022. “Nosso grupo ainda está em formação. Nessa caminhada de um ano, estabelecemos cuidar das relações e da convivência em um primeiro momento. Isso porque nosso grupo é aberto e eclético. Nosso foco, então, é conhecer essas pessoas, construir uma identificação, criar laços de convivência. Quando sentirmos que esse primeiro passo está consolidado, partiremos para o combinado.” Ou seja, os trâmites práticos, burocráticos e legais para a realização do cohousing.

Cícera informa que o propósito de residir em uma cohousing é mais amplo e imbuído de conceitos e paradigmas, como solidariedade e sustentabilidade. Além, é claro, da cultura do compartilhar. “Já no contato inicial, procuramos desconstruir a ideia do ‘quanto custa’ viver numa cohousing. Digo que é preciso, antes, saber se quero morar tão próximo a outras pessoas, aderir à coletividade. Sim, claro que existe um investimento financeiro e, geralmente, quem vive em um cohousing até se dispõe do imóvel tradicional para aderir ao projeto, mas não deve ser esse o tópico principal em uma primeira análise. Antes, há de se pensar nas relações.”

MUDANÇAS EM CURSO

Em coro, Cícera e Beatriz lembram que há uma nova configuração familiar e social em curso, inclusive dos pontos de vista antropológico e gerontológico. “Hoje, uma pessoa com 70 anos ainda é broto, por mais que a saúde não seja a mesma dos 30”, destacam. Cícera reforça: “Há, em cena, a necessidade de adaptação, uma mudança de cultura. Então, estamos pensando em novos espaços, em que haja atenção às demandas, à segurança e à qualidade de vida dos idosos”. E lembram que o processo exige mudanças, inclusive de paradigma, de comportamento. “A ideia de compartilhar ainda causa impacto muito forte aqui. Isso porque, no Brasil, ficamos amarrados à ideia de condomínio. Esquecemos de hábitos, como cumprimentar o vizinho, compartilhar um bolo. E nem todo mundo já despertou ou está disposto a praticar o desapego, a fugir do individualismo. É um desafio.”

 

 





 CONHEÇA O  MODELO  COHOUSING:

– Saettedammen: 1ª cohousing multigeracional, implantada em 1972,
em Ny Hammersholt, na Dinamarca. (http://www.xn—sttedammen-d6a.dk/)

– Trabensol Cooperativa: cohousing sênior localizada em Torremocha de Jarama, na Espanha, inaugurada em 2013. (http://trabensol.org/)

– Pioneer Valley Cohousing: comunidade multigeracional que opera utilizando a sociocracia. Essa cohousing foi
implantada em 1994, em
Amherst-MA, Estados Unidos (https://www.cohousing.com/welcome)

– Oakcreek Community: cohousing sênior, concluída em 2013, implantada em Sillwater-OK, Estados Unidos. (https://www.oakcreekstillwater.com/)


PROJETOS NO BRASIL:

– CohousingBrasil Co-Lares: https://www.facebook.com/
cohousingBrasil/ti?=as

– A arquiteta Lilian Lubochinski é entusistas da ideia: https//www.facebook.com/
lilian.lubochinski

– Cohousing Minas Gerais: https://www.facebook.com/groups/cohousingminasgerais/ref?=share

– Conexão Gaia: https://www.facebook.com/
cohousingbhconexaogaia/

– O arquiteto Edgar Werblowsky articula o movimento cohousing no Brasil: https://facebook.com/profile.
phpid?=595587006



cinco perguntas para...

guilherme hosken veiga, psicólogo, com especialização em
neuropsicologia e reabilitação cognitiva, mestrando em neurociência
e parceiro do Espaço Master, memória e vitalidade

Vocês trabalham com uma academia do cérebro. Em
que medida o envelhecimento prejudica a capacidade
cognitiva e a autonomia?
Com o envelhecimento, é natural que a perda e a menor produção de neurônios sejam intensificados. Consequentemente, isso prejudica o funcionamento cerebral. Outro fator que influencia o declínio cognitivo na terceira idade é o fato de que, com o passar do tempo, as pessoas tendem a realizar as mesmas atividades no seu dia a dia e, dessa forma, deixam de surpreender seu cérebro e de desenvolver diversas cadeias neurais. Podemos imaginar que nossas funções cognitivas, tais como memória, atenção e linguagem etc., são como bolhas de sabão. Quanto mais estimuladas, maiores elas ficam e por mais tempo tendem a permanecer cheias e saudáveis. Ao contrário, quando não estimuladas, elas ficam fracas e murcham.


Há contraindicação para que pessoas de idade avançada possam morar sozinhas e/ou manter as atividades cotidianas? Por favor, justifique a resposta.
Quando pensamos em autonomia na terceira idade, é importante analisar como o idoso realiza suas atividades da vida diária. Tanto atividades básicas, como higiene pessoal e alimentação, quanto instrumentais, como fazer compras, cozinhar, se manter atualizado com o mundo. Quando o idoso demonstra dependências nessas atividades da vida diária (Avds), sua independência está comprometida.

Aliás, o fato de manter a autonomia de moradia, em atividades e em relação à independência para com filhos e parentes, tem influência na saúde mental e física do indivíduo maduro?
Os idosos que conseguem se manter independentes de seus filhos são aqueles que têm grande vitalidade. Hoje, podemos pensar que manter-se independente e capaz de realizar atividades prazerosas é o objetivo da maioria da população que está envelhecendo, e a busca por esse objetivo influencia de forma muito positiva a saúde do idoso.

Como os filhos e outros parentes devem agir diante do desejo do idoso de manter a independência depois dos 70, 80 e até mais de 90 anos?
Acredito que as famílias, junto com os idosos, devem procurar profissionais que possam analisar os fatores que influenciam a independência. Dessa forma, tanto os familiares quanto o idoso passam a entender quais serão os desafios do processo.

A independência sênior é uma possibilidade real ou ainda uma utopia? Por favor, justifique a resposta.
É uma possibilidade real. Hoje, temos inúmeros casos de idosos que vivem sozinhos. Mas, para isso, além de saúde, eles precisam estar estruturados para que tudo ocorra com segurança.


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