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Vida equilibrada

Qualidade de sono, horário definido para as tarefas diárias, atividade física, socialização e alimentação balanceada são algumas atitudes práticas e individuais para manter a memória ativa


postado em 20/01/2019 05:08

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)


“A neurociência estuda as funcionalidades do sistema nervoso, seja em nível funcional ou estrutural. Ao longo do tempo, esse estudo passou a se dedicar quanto à repercussão dessas funções nos comportamentos, sentimentos e até mesmo no pensamento humano”, define a professora-doutora Ângela Mathylde, neurocientista pela Universite Livre Dês Sciences de l’Homme de Paris, na França, onde deu ênfase para a neuroaprendizagem. Idealizadora do Congresso Internacional Brain Connection (Congresso de Neurociências e Aprendizagem) e única brasileira no Grupo de Investigação Clínica em Saúde e Educação da União Europeia/G3TES, ela conversou com o Bem Viver sobre vários aspectos que envolvem a memória. Confira:

Hoje, quando se fala em perda de memória, as reações iniciais são de medo e pavor, até. Isso porque, no caso das pessoas mais velhas, sempre se relaciona com Alzheimer. A perda de memória é sempre uma demência?

A perda de memória não é exclusividade de demências. Ela pode ser ocasionada, sim, pelo estresse da vida contemporânea. A correria do dia a dia, os mil afazeres e o excesso de informação de todos os cantos, sempre, podem gerar um desgaste emocional no indivíduo que, como consequência, pode ter lapsos de memória. Fatores como depressão, insônia, ansiedade e até mesmo má alimentação podem gerar tal desgaste. Vários estudos têm associado o estresse crônico com a liberação desenfreada do hormônio cortisol, capaz de danificar a memória a curto prazo e, inclusive, atrofiar certas áreas do cérebro.

Acabou de ser publicada uma pesquisa falando da atividade física como aliada contra o Alzheimer. Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiram estabelecer uma relação entre os níveis de irisina — hormônio produzido pelo corpo durante exercícios físicos — e um possível tratamento para a perda de memória causada pela doença de Alzheimer. O estudo, feito em parceria com outras universidades e institutos, foi publicado em 7 de janeiro na revista Nature Medicine. É mais um alerta para todos sobre a importância da atividade física?

A atividade física é fundamental para a saúde do organismo como um todo, inclusive o funcionamento do cérebro. Pode-se dizer, literalmente, que os exercícios físicos “turbinam” o cérebro. Isso porque as células nervosas são estimuladas com a atividade física, prevenindo doenças e diminuindo quaisquer riscos de danos cognitivos. Quanto ao Alzheimer, inúmeros estudos associam a prática de atividade física com a melhora na qualidade de vida do indivíduo, já que não há cura para a doença. Primeiro, é preciso considerar que o Alzheimer é caracterizado pela atrofia cerebral, processo que mata os neurônios. Tal atrofia gera efeitos colaterais, como perda de memória recente, entre outros. A pesquisa pode ser explicada à medida que a atividade física aumenta o oxigênio do cérebro, assim como o fluxo sanguíneo. Ao melhorar a circulação sanguínea, substâncias capazes de contribuir para o funcionamento do sistema nervoso central são liberadas, como o fator neurotrófico derivado do cérebro, uma das proteínas neurotrofinas, que atuam no cérebro preservando funções como a aprendizagem e a memória.

Ter uma boa memória é também questão de hábito?

Hoje, nós temos uma preocupação com a memória, mas não mudamos o hábito. A falta de hábitos de leitura e o avanço da tecnologia têm inibido a memória. Antigamente, para ir a um lugar eu pegava a lista telefônica, procurava o endereço, buscava saber como chegar lá, quais as ruas. Hoje, aciono recursos como Google Maps e chego no lugar. Então, tem alguém para dizer faça isso, vire à esquerda, à direita. Isso me deixa robotizada. Se eu estou nesse estado, não ativo a memória, apenas sigo um comando, o que prejudica muito a atividade cerebral. Outro exemplo: antes nós tínhamos que buscar na Barça, no dicionário, hoje basta procurar no Google, em menos de um minuto você consegue uma informação que antes poderia gastar meses em pesquisa. Isso facilita o cotidiano, mas prejudica a memória, já que menos sinapses são feitas. Além disso, quanto mais significado eu incutir naquilo que vou fazer, mais eu vou me lembrar. Então, por exemplo, lembro-me do meu cônjuge porque eu o amo, então está ligado ao sentimento, questão emocional; lembro-me da minha profissão porque tenho obrigações, então tenho que fazer relações, isso é uma técnica.

O que cada um pode fazer na sua rotina para preservar a memória funcionando da melhor maneira possível por mais tempo?

As pessoas devem ter uma vida equilibrada, sono regular de no mínimo oito horas, ter uma rotina, como horário de trabalho, para dormir, tomar banho, estudar. Fazer atividades que proporcionem prazer, bem-estar e sossego. A rotina é uma estratégia para a qualidade de vida, já que disciplina significa tomar decisões. Claro, rotina não como hábitos inflexíveis. É preciso diferenciar rotina de previsibilidade, pois nesse caso não há estímulos. Você pode ter a rotina de ir a pé para a academia ou o trabalho, mas escolher novos caminhos para esses trajetos. Além de desenhar e fazer mapas mentais, é importante que a pessoa abuse de exercícios mentais, assim como os físicos, são excelentes recursos para melhorar e preservar a memória, além de outras funções cerebrais. Como fazer caça-palavra, palavra cruzada ou aprender uma nova língua. É importante que a pessoa escolha algo que a agrade. A alimentação saudável rica em frutas, verduras, vegetais e com o mínimo possível de produtos industrializados também é fundamental para a saúde cerebral. É importante que o indivíduo socialize com famílias, amigos, namorado(a), quem for. Isso porque a conexão entre as pessoas libera hormônios da felicidade e contribui para a qualidade de vida e o desempenho cognitivo. Principalmente entre idosos, que tendem a se isolar.

De acordo com estudo publicado na revista Experimental Aging Research, existe uma maneira mais efetiva para as pessoas que vivem esquecendo as coisas conseguir manter as lembranças mais frescas: desenhando. Por quê? O que o desenho tem de especial?

No estudo em questão, assim como em outras pesquisas do gênero, por meio da neurociência, foi possível associar o desenho com a melhoria da memória. O ato de desenhar estimula a formação de estruturas neurais da memória, como as sinapses. Sinapses nada mais são do que conexões entre os neurônios. É por meio dessas ligações que as células do cérebro transmitem mensagens químicas, por meio de neurotransmissores. Quanto mais conexões são feitas, mais ativo é o cérebro e melhor é a memória. Assim, quem desenha está criando mais associações na mente, gerando uma maior memória sobre elas. Já que, enquanto uma informação é armazenada na memória como um aspecto lógico no cérebro, a outra é armazenada em outra área do cérebro, como uma forma criativa dessa informação, por meio do desenho. Além disso, qualquer desenho feito pede ao cérebro que, além de desenhar, decodifique a imagem em informação. Vale lembrar que as escritas são desenhos gráficos, tanto é que as primeiras informações, na época das cavernas do Paleolítico, eram desenhos. No mais, quando você busca subsídios auxiliares como agenda, relógios, despertadores ou pede alguém para lembrar, o cérebro fica aliviado. Toda vez que você coloca algo para auxiliar o funcionamento cerebral, com certeza ele vai funcionar melhor, pois o cérebro não tem como guardar tanta informação. Uma das técnicas são os mapas mentais, uma espécie de diagrama sistematizado por Tony Buzan. A estratégia serve para armazenar melhor informações e conhecimentos, sendo muito usado por estudantes. São expressões livres de pensamento por meio de desenhos, símbolos e até letras garrafais que contribuem para a memorização.


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