Jornal Estado de Minas

Agropecuário

Da granja ao prato: como o apetite do brasileiro sustenta a redenção do ovo


 
O ovo de galinha, seja branco ou caipira, perdeu a imagem de vilão e vem se tornado uma escolha cada vez mais frequente nas receitas e no prato do brasileiro. Prova disso é que nos últimos 14 anos o consumo médio anual por pessoa saltou de 120 unidades, em 2008, para 241 em 2022, o que representa alta de 100,8% no período, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Para ajudar a sustentar o apetite desse mercado, Minas Gerais está na vice-liderança em relação ao volume de produção do alimento, ocupando ainda posição de destaque nas vendas para o mercado internacional.





“Pesquisas científicas mostraram que o ovo, antes vilão das dietas, foi de forma justa reconhecido como o que verdadeiramente é: o segundo alimento mais completo que existe, perdendo apenas para o leite materno”, sustenta o presidente da ABPA, Ricardo Santin, em entrevista ao Estado de Minas, ao justificar o aumento do consumo do produto desde 2008.

Ainda segundo Santin, o reposicionamento da percepção sobre os atributos do ovo, ao lado de campanhas de esclarecimento promovidas por entidades setoriais – como o Instituto Ovos Brasil – transformou o hábito de consumo do alimento. “Agora, todo cardápio que busque saudabilidade ou até mesmo melhor desempenho esportivo conta, necessariamente, com a presença do produto. Também é preciso lembrar o papel assumido pelo ovo para a população de forma geral. Por ser acessível e completo, ele se tornou protagonista na segurança alimentar do Brasil, somando forças com outras proteínas, como as carnes”, afirma.

Boom na produção

A edição 2023 do relatório anual da ABPA revela que a produção nacional de ovos saltou, entre 2012 e 2021, de 31,7 para 54,9 bilhões de unidades produzidas. No período, somente de 2015 para 2016 houve queda. Já, em 2022, o quantitativo registrado foi de 52 bilhões, o que representou redução acentuada, de 2,9 bilhões de ovos em um ano.





De acordo com o representante da ABPA, o principal fator para a queda na produção no ano passado foi a alta histórica do custo de produção, com mais de 150% de aumento nos preços do milho e farelo de soja, itens que compõem a ração das galinhas. “Muitas propriedades ficaram inviabilizadas e terminaram por suspender a produção. Nesse contexto, houve uma natural queda da oferta dos produtos”, explica Ricardo Santin.

Com a produção de 1,7 mil ovos por segundo, o Brasil é o sexto maior produtor do planeta. Somente Minas Gerais é responsável por 10,2% da produção nacional. Na primeira colocação está São Paulo, com 29,3% do total. O top 5 do ranking é completado pelos estados do Espírito Santo (8,4%), Pernambuco (7,4%) e Mato Grosso (6,6%). No entanto, vale dizer que há polos de produção espalhados de Norte a Sul do país.

De acordo com dados do Ministério da Agricultura e Pecuária, o valor bruto da produção nacional de ovos em 2022 foi de R$ 20,2 bilhões – montante superior ao registrado em todos os anos desde 2017, mas inferior ao valor bruto contabilizado em 2016, 2015 e 2014, quando o país registrou, respectivamente, R$ 22,9, R$ 21,2 e R$ 20,9 bilhões de movimentação financeira com a comercialização do produto.






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Ovos foi o consumo médio anual por brasileiro em 2022, o dobro das 120 unidades de 14 anos atrás 

Tendência nacional e repete em Minas 

Seguindo o comportamento nacional de redução na produtividade no ano passado, a produção de ovos em Minas Gerais caiu de 4.872 bilhões de unidades, em 2021, para 4.790 bilhões em 2022. Para Gustavo Crosara, conselheiro da Associação dos Avicultores de Minas Gerais (Avimg), além do alto valor dos grãos, que representam em torno de 70% do custo de produção, o confronto entre Rússia e Ucrânia ocasionou a redução da oferta global do milho, afetando o equilíbrio e a oferta desse item desde 2022 até meados deste ano.

 

“Com isso, os produtores tiveram margens negativas e, por isso, precisaram reduzir a produção para manter a rentabilidade do setor. Por outro lado, as projeções atuais indicam que o consumo médio para cada brasileiro já ultrapassou 244 ovos em 2023, representando um aumento de 1,5%”, afirma. 

Mercado interno é maior consumidor

Em torno de 99% da produção de ovos é destinada ao mercado interno, sendo exportado, em média, apenas 1% do total. O último relatório da ABPA traz um comparativo mostrando que as exportações saíram de 26,8 toneladas em 2002 para 9,4 toneladas em 2022 – ou seja, 17.379 toneladas a menos. A drástica redução, segundo a ABPA, aconteceu em decorrência da maior destinação de produtos para o mercado interno, justamente por conta do aquecimento do consumo per capita entre brasileiros.





 

Em 2022, o principal destino dos ovos brasileiros no exterior foi o Oriente Médio, que recebeu 64,41% da produção exportada. Na sequência vem América (16,42%), Ásia (14,49%), África (1,42%), Oceania (1,37%) e Europa (1,62%). Do total exportado, Minas Gerais foi o terceiro estado que mais contribuiu com vendas externas (19,33%). Em primeiro e segundo lugares estão Mato Grosso (29,13%) e Rio Grande do Sul (29,02%).

 

O panorama, no entanto, vem apresentando mudanças. Neste ano, levantamento da ABPA revela que as exportações brasileiras de ovos, considerando todos os produtos, entre in natura e processados, totalizaram 1,524 mil toneladas em setembro, quantidade que supera em 217,8% o total embarcado no mesmo período de 2022, com 479 toneladas. Principal destino das exportações, o Japão importou no período 888 toneladas, volume 922% maior que o total exportado no mesmo mês do ano passado. Outro destaque foi o Chile, com 237 toneladas (+379%).

 

A receita obtida com os embarques em setembro chega a U$S 3,946 milhões, desempenho 137,3% superior ao registrado no mesmo mês de 2022, com US$ 1,663 milhão. A alta acumulada chega a 180,9%, com 22,6 mil toneladas vendidas para o exterior nos nove primeiros meses de 2023, contra 8,062 mil toneladas exportadas no mesmo período de 2022. Com isso, a receita acumulada chegou a US$ 56,3 milhões, desempenho 214,1% maior que o aferido no mesmo intervalo do ano passado, com US$ 17,9 milhões. 





 

Granja mineira tem primeiro “selo caipira”

 

Uma granja em Bocaiuva, no Norte de Minas Gerais, é a única no estado com certificação do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) para produção de ovos caipiras. O processo de certificação ocorreu em dezembro do ano passado e contou com a participação da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater–MG). O reconhecimento e o registro do produtor são atribuições do programa intitulado Certifica Minas Ovo Caipira. Entre os critérios exigidos pelo IMA estão a elaboração de memorial descritivo, com a estrutura e o funcionamento da granja, e assistência técnica. O registro sanitário do entreposto de ovos foi feito após a elaboração da planta baixa e o memorial descritivo econômico, sanitário e de construção, além de rotulagem e capacitação. O memorial descritivo das medidas higiênico-sanitárias, tecnológicas e de produção é exigido como uma espécie de manual a ser encaminhado em conjunto com o requerimento da certificação, que tem validade de um ano, podendo ser revalidado caso o produtor rural tenha interesse e após novas auditorias do IMA.