Jornal Estado de Minas

Mutirão estuda como salvar os pequizeiros atacados por pragas

Visitas técnicas na região produtora do fruto-símbolo do cerrado já foram realizadas para a etapa inicial da pesquisa de captura da largata sem lesões - Foto: sebrae/divulgaçãoA safra do pequi – que ocorre de dezembro a fevereiro –, foi reduzida no Norte de Minas ao longo dos últimos anos devido à ação de uma lagarta que ataca e mata as árvores do fruto-símbolo do cerrado. Estudo que está sendo realizado pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG), é a esperança dos pequenos produtores da região para combater a praga e, assim, salvar os pequizeiros.
 
As pesquisas da Epamig estão concentradas no município de Japonvar, um dos maiores produtores de pequi do Norte do estado. A exploração da espécie nativa do cerrado é responsável por cerca de 17% do Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto da produção de bens e serviços) do município. Graças às novas tecnologias de processamento, o produto do extrativismo deixou de gerar renda em Japonvar e em outras pequenas cidades apenas no período da safra, passando a movimentar as economias locais no resto do ano. A comercialização também avançou, desde a polpa, o pequi em conserva e de outros derivados do fruto, como o óleo, a castanha e a farinha de pequi.
 
Segundo informações de técnicos e produtores ouvidos pelo Estado de Minas, cerca de 50% das plantas em Japonvar já morreram, após serem atacadas pela broca-do-tronco, largata que põe em risco todo o conjunto dos pequizeiros. O inseto ataca o cerne e consome a parte lenhosa, provocando “brocas” (túneis ou galerias) no interior do tronco do pequizeiro e, possivelmente, também nas suas raízes. A praga faz com que o fluxo da seiva seja interrompido. Assim, as plantas começam a perder as folhas e morrem.
 
Há sete anos, os pés de pequi vêm sofrendo o ataque da praga.
Em maio último, extensionistas da Emater-MG e produtores procuraram o auxílio da Epamig e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Cerrados, de Brasilia,  para identificar e propor alternativa de controle à praga. Foram realizadas visitas técnicas à região para a coleta de material.
 
De acordo com o pesquisador Antônio Claudio, da Epamig, a primeira etapa dos estudos para o controle do inseto implica na captura da lagarta sem lesões, mantendo-a viva e em condições adequadas para se transformar em uma mariposa (um lepidóptero de hábitos noturnos), que consiste na sua fase adulta. Após a transição, identifica-se o nome da espécie e as informações científicas disponíveis até o momento, para, assim, planejar estratégias contra o ataque.
 
“A extração de lagartas das raízes dos pequizeiros é necessária para o estudo de comparação entre o comportamento desse inseto nas raízes e no tronco, bem como verificar se o ataque a essas diferentes partes da planta é provocado pela mesma espécie ou por espécies diferentes, e se este é o único fator”, explica Antônio Cláudio. Ele ressalta que serão necessários pelo menos 12 meses para a obtenção dos primeiros resultados da pesquisa.

Sobrevivência De acordo com a Epamig, para o desenvolvimento da pesquisa, está sendo solicitada a ajuda da Polícia Ambiental e de orgãos ambientais em relação ao procedimento que será adotado para evitar qualquer sanção ou autuação por infração à Lei Estadual 10.883 de 1992, que “declara de preservação permanente, de interesse comum e imune de corte, no estado de Minas Gerais, o pequizeiro (Caryocar brasiliense)”. Além disso, prevê a dispensa da reposição das plantas que eventualmente tenham que ser abatidas por força do referido estudo.
 
Antônio Claudio informou que, além de contar com o apoio da Prefeitura de Japonvar e da Emater-MG, a Epamig pretende propor parcerias com outras instituições de estudos, como a própria Embrapa Cerrados, a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),  para incrementar a pesquisa e buscar solução capazes de vencer a broca dos pés de pequi.
 
“O estudo é importante porque visa promover a sobrevivência dos pequizeiros no cerrado do Norte de Minas Gerais e, assim, colaborar não só com a preservação desse ecossistema, mas também do extrativismo do pequi na região”, explica o pesquisador da Epamig. A exploração econômica do pequi é responsável pelo sustento de um grande número de famílias de coletores e agricultores familiares que vivem em Japonvar e nos municípios vizinhos.
 
 
 

Prejuízos passam de 90 mil árvores mortas

 
 
A 'broca dos pequizeiros' leva a prejuízos milionários nos pequenos municípios do Norte de Minas, onde o fruto-símbolo do cerrado garante o sustento e a renda de milhares de famílias. Técnico da Emater-MG em Japonvar, Fernando Cardoso de Oliveira disse que o ataque da praga gerou perdas da ordem de R$ 4 milhões no município na safra 2018/2019.
 
Segundo Fernando Oliveira, durante a última safra a coleta e venda do pequi in natura, o beneficiamento e a comercialização dos derivados do fruto movimentaram cerca de R$ 6 milhões no município.
Mas, se não tivesse ocorrido a queda da produção, da ordem de 40%, provocada pela fraga, essa receita teria alcançado cerca de R$ 10 milhões no município.
 
De acordo com o técnico da Emater, a indústria do pequi emprega cerca de 2,63 mil famílias em Japonvar, que conta com uma população de 8,3 mil habitantes. Mais de 60% da população do município mora na zona rural, onde a coleta do pequi no mato é feita por todos os membros de várias famílias, de homens e mulheres adultos a  adolescentes e até mesmo crianças. Mas, moradores da área urbana também elevam a renda com a prática extrativista.
 
Fernando Oliveira disse que os primeiros indícios da ataque da lagarta aos pequizeiros foram observados no Norte de Minas em 2012. Desde então, os prejuízos aumentaram, e se intensificaram a partir da safra 2017/2018. Segundo ele, levantamento da Emater-MG aponta que somente na zona rural de Japonvar, em virtude do ataque da praga, 94,4 mil pés de pequi já morreram, considerando a média de nove pequizeiros por hectare no município. Porém, Oliveira ressalta que em toda a região, a quantidade de pequizeiros mortos é muito maior, pois há registro dos danos causados pela praga nos diversos municípios produtores de pequi da região, vinculados às gerências regionais da Emater-MG de Montes Claros, Janaúba, Januária e São Francisco. (LR) 
 
 
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