'Espero que não demore a voltar essa alegria'

Documentário mostra impacto da pandemia em artistas de circo

Por Fred Bottrel (texto e vídeo) e Alexandre Guzanshe (fotos)

Vista de cima, a curva do picadeiro, antes repleta de gente, mantém a forma de um sorriso. Daqueles tristes, mas persistentes. Agora, o piso com estrelas coloridas só serve de palco para os artistas quando recebem a visita de alguém da imprensa. Não é a mesma coisa, claro. “Espero que não demore a voltar essa alegria”, suspira Moisés Quintão, há 47 anos se equilibrando na fama de “rei do pedal”.
Do alto dos seus 63 anos, já superou muitos desafios na vida – foi lavrador, padeiro, cobrador e vendedor, até terminar como acrobata e, depois, virar dono de circo. Nada, contudo, tão difícil quanto a situação imposta pela pandemia do coronavírus. E se equilibrar nessa nova corda bamba está longe de ser um drama de pouca gente: mais de 600 artistas de circo como ele estão diante de picadeiros vazios em Minas.

"Já faz mais de 75 dias que fizemos aqui o último show. Estava o circo cheio. Para o artista, a alegria do público é um negócio muito importante. A gente ter o dom de provocar isso. Tem muita cidade por aí que não tem cinema, não tem shopping. Então, chega o circo e a vida muda, para melhor. Agora, estamos sobrevivendo de doações, mas queríamos mesmo era trabalhar"

"Já faz mais de 75 dias que fizemos aqui o último show. Estava o circo cheio. Para o artista, a alegria do público é um negócio muito importante. A gente ter o dom de provocar isso. Tem muita cidade por aí que não tem cinema, não tem shopping. Então, chega o circo e a vida muda, para melhor. Agora, estamos sobrevivendo de doações, mas queríamos mesmo era trabalhar"
Na chácara em que vive, no Bairro Estância Imperial, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Moisés abriga outras duas famílias de circo.

No total, são 14 pessoas. Habitam trailers e ônibus estacionados ali. Sem a presença do público, restou o silêncio. Entre as ruas das Harpas e dos Bandolins, como se chamam os logradouros naquela parte da cidade, se ouve apenas o som dos grilos e dos galos na vizinhança.

Enquanto as roupas secam ao sol no varal, a trapezista Dulce Cleide, de 63, trabalha na confecção de máscaras de proteção. Ex-esposa de Moisés, vive no mesmo terreno, "mas ele lá, com a esposa dele, e eu aqui" - faz questão de frisar.

No ônibus em que mora, Dulce mantém, em destaque, as fotos de toda a família, “nascida e criada no circo”, como ela, que veio ao mundo “debaixo de lona, no chão assim, em circo pobrinho mesmo”. 

Dulce passa os dias, no isolamento, olhando fotos antigas (e quem não passa?) e tentando se consolar com a lembrança de momentos e coisas bonitas. Dulce estende a mão e toca as imagens. Parece querer aparar os relevos da memória em uma carícia.

“Aqui é minha neta, com 9 meses, no trapézio, essa de maiô verdinho. Minha mãe, com a cabra. E eu, também, no trapézio, novinha.” Se o circo estivesse funcionando, ela conta, estaria ativa, fazendo números com o chicote e magias. “O primeiro número que eu faria seria sumir com a cabeça da mulher na caixa das espadas.”

Diante do ônibus de Dulce está o que um dia já foi um Fiat 147, fraturado em duas partes, folhas secas no motor e teias de aranha nos assentos. 

“Era nosso táxi maluco, o auge das apresentações que a gente fazia”, recorda-se Guilherme Girardi, o antigo motorista do carro amarelo, quando interpretava o Palhaço Pipoquinha.

"Alguém da plateia pedia o táxi e chegava este, todo detonado. Eu dizia que tinha motor de D20. De vinte mil anos atrás. E o carro explodia, partia ao meio, era uma farra."

"Alguém da plateia pedia o táxi e chegava este, todo detonado. Eu dizia que tinha motor de D20. De vinte mil anos atrás. E o carro explodia, partia ao meio, era uma farra."
Sem produzir, os artistas se rendem à nostalgia. Moisés revê as cenas de Cinderelo Trapalhão, filme de Adriano Stuart lançado em 1979, em que atuou como dublê de Renato Aragão em cenas de bicicleta e outras acrobacias: “Tinha que repetir tudo muitas vezes, até ficar bom. Foi experiência boa, mas não tem nada igual ao encontro com o público."

Acrobata, trapezista e palhaço colocam os figurinos para a foto no jornal. Esboçam os números, com duração limitada, dois minutos, três minutos, só mesmo para o registro das câmeras.

Ofegantes com a falta de treino, sentam-se ao sol para descansar e jogar conversa fora. O dálmata que vive na chácara se espreguiça e se aproxima, manco de uma perninha. Deita-se para escutar a conversa.

Projetam uma reabertura, sem saber como será. E quem é que sabe? “Meu filho trabalha no Globo da Morte, lá na Polônia. País mais avançado, fechou tudo e agora já começa a voltar, aos poucos, com máscara, distância, álcool em gel. Aqui, está difícil. Parece que vamos ser os últimos a voltar”, raciocina Guilherme. Mas eles se apegam às fotos, às lembranças, à saudade das palmas e ao talento para manter a confiança de que a alegria vai voltar a imperar por baixo da lona. Se estava certo o poeta, “a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não”.

A situação de calamidade dos mais de 60 circos espalhados por Minas Gerais motivou uma campanha de doações de mantimentos
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