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Estado de Minas Coluna

Copom acerta ao interromper a queda dos juros

Governo passa ao mercado mensagem de compromisso com a estabilização de preços


21/09/2020 04:00 - atualizado 21/09/2020 07:13

Bolsonaro encomendou de sua equipe espaço no orçamento para fazer caber um programa social para chamar de seu.(foto: SERGIO LIMA/AFP 18/9/20)
Bolsonaro encomendou de sua equipe espaço no orçamento para fazer caber um programa social para chamar de seu. (foto: SERGIO LIMA/AFP 18/9/20)
Até bem pouco tempo atrás, a taxa básica de juros (Selic) brasileira era uma das mais altas do mundo. Em julho de 2015, a taxa que o Brasil pagava para investidores era de 14,25%. O então governo Dilma enfrentava na ocasião a desconfiança do mercado e o risco do descontrole inflacionário. Cinco anos depois, esse passado recente pode trazer algumas lições para os atuais mandatários. Em 9 de setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu a sequência de redução da Selic. Desde junho de 2019, o comitê vinha reduzindo, para chegar aos 2% atuais. A decisão de subir ou baixar a taxa é parte da política monetária, que obedece a duas lógicas: conservar a inflação sob controle e manter a taxa em um patamar que o mercado aceite emprestar dinheiro para o governo.

Quanto menor a taxa de juros, mais dinheiro o governo deixa circular na economia, o que os especialistas chamam de “condições de liquidez”. Com a Selic baixa, a tendência é de que o consumo aumente. Caso não haja oferta que dê conta dessa demanda, os preços aumentam e a inflação aparece. Claro que existem especificidades mais técnicas nessa equação, mas para este espaço essa explicação já é suficiente para justificar um dos motivos pelos quais o Copom parou de reduzir a taxa de juros na semana passada.

Foi amplamente noticiado os aumentos de preços em itens básicos, como arroz, vestuário e materiais de construção, mesmo com a expectativa para a inflação para 2020 (2,1%) bem abaixo da meta estabelecida pelo governo, de 4%. Ainda assim, parece acertada a decisão do Copom de interromper a sequência de baixa, para passar ao mercado a mensagem de compromisso com a estabilização de preços, de reconhecer que os fundamentos da economia brasileira continuam frágeis e de que o risco político também não deve ceder nos próximos meses.

Aqui entra o segundo aspecto da lógica da política monetária: qualquer um só vai emprestar dinheiro para quem pode pagar de volta. Quanto maior o risco de calote, maiores os juros. Quando o governo Dilma pagava mais de 14% de taxa de juro, a dívida brasileira era de apenas 32,91% do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje, a dívida brasileira chegou a 86,5% do PIB e os investidores pagam apenas 2% para emprestar dinheiro ao estado. É claro que o cenário externo tem impacto, mas o principal fator para o Brasil conseguir pagar tão pouco por uma dívida tão grande é a confiança construída ao longo dos governos Temer e Bolsonaro.

Gastar mais ou menos é uma decisão do Estado brasileiro. O poder executivo é o responsável por propor um orçamento, por meio de um Projeto de Lei Orçamentária (PLOA), mas quem dá a última palavra no que vai ser gasto público é o Congresso Nacional. Hoje, é nítido que existe uma disputa – tanto no Executivo quanto no Legislativo – entre os que acreditam ser necessário mais gastos para estimular a economia e os que defendem uma posição mais conservadora.

Esse equilíbrio entre política e economia é sensível. Geralmente, quem vence é a política no curto prazo, mas no longo e médio prazos vem a realidade amarga trazida pela economia em frangalhos. Surfando na popularidade trazida pelo gasto social da pandemia, o presidente Bolsonaro encomendou de sua equipe espaço no orçamento para fazer caber um programa social para chamar de seu. O resultado foi o cartão vermelho de efeito retardatário que deve atingir em cheio o secretário especial da Fazenda, Waldery Rodrigues.

O trabalho de Waldery – que ocupa o lugar de Marcus Cintra, outro que já teve a cabeça cortada por desagradar ao presidente – não é fácil: a ideia de congelar as aposentadorias e pensões abria o espaço para o Renda Brasil até tinha fundamento econômico, mas evidentemente não passou no teste político. Bolsonaro ficou tão irritado que até abriu mão do tal programa, pelo menos por enquanto.

O cálculo é simples: substituir o Bolsa-Família por um novo programa social é visto com bons olhos pelos parlamentares que compõem a base governista, mas fazer isso às custas do congelamento de aposentadorias ou extinção de programas com transferência de verbas mais robustas para os beneficiários não combina com o período eleitoral.

Não é por acaso que a reação de Bolsonaro rememore a fase pré-pandemia do governo, quando tuitadas do presidente encerravam assuntos que não repercutiam bem na opinião pública. Naquela fase, a necessidade número 1 era garantir a manutenção do chamado “eleitor bolsonarista” e evitar a oscilação abaixo dos 30%. Neste momento, o risco é perder o espaço juntamente à população que passou a apoiar o governo com a implementação do auxílio emergencial. Neste sentido, a substituição do Bolsa-Família deve ocorrer, mas, desta vez, com outro nome e em outras condições.

Viajando pelo Nordeste, uma região que foi mais preterida no início do mandato, Bolsonaro chegou a ser recebido com o bordão "Bolsonaro guerreiro, do povo brasileiro", até então marca registrada de seus antecessores vermelhos. A frase do presidente da Embratur, que acompanhava o presidente, é cirúrgica: "E agora está provado que o povo não quer saber de PT, quer saber de governo, que é o que nós temos".

Vale lembrar que Dilma também tinha o governo e chegou a alcançar 63% de popularidade, quando se entregou ao populismo econômico desastrado e um espalhafatoso programa de obras públicas. Sem apoio consolidado, acabou engolida pelos políticos profissionais.  O resto é história, que às vezes se repete.



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