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Estado de Minas

Manejo da crise provocada pelo coronavírus isola Bolsonaro

Presidente vê sua aprovação cair, enquanto a do ministro da Saúde, que defende tese oposta para enfrentamento do vírus, sobe no conceito da população


postado em 06/04/2020 04:00 / atualizado em 06/04/2020 07:05

Manifestante contrário à atuação de Jair Bolsonaro na crise do coronavírus instala cruz em frente ao Palácio do Planalto(foto: Evaristo Sá/AFP)
Manifestante contrário à atuação de Jair Bolsonaro na crise do coronavírus instala cruz em frente ao Palácio do Planalto (foto: Evaristo Sá/AFP)

O governador de Nova York, Andrew M. Cuomo, tem exercido um papel equivalente ao do governador de São Paulo, João Doria, em meio à pandemia de COVID-19.

Para início de conversa, ambas megalópoles são o epicentro de contaminação nos respectivos países. Evidentemente, guardadas as devidas proporções: o estado de Nova York já passou a marca dos 100 mil infectados, com mais de 3,5 mil mortos; enquanto o estado de São Paulo contabiliza algo próximo de 5 mil infectados com mais de 200 mortes.

De qualquer modo, tanto Cuomo quanto Doria rivalizam com os seus presidentes. O governador de São Paulo personificou o posicionamento contra-negacionista de Bolsonaro da maioria dos outros governadores do Brasil. Apenas Santa Catarina,  Rondônia, Roraima e Mato Grosso sinalizaram o afrouxamento da quarentena – não por acaso, os três primeiros estados são comandados por governadores da ala bolsonarista do PSL.

Aqui começam as diferenças: enquanto Trump já entendeu a gravidade da situação, Bolsonaro continua com um discurso errático. Ora, como disse em seu último pronunciamento na terça-feira passada, ressaltando as medidas de proteção; ora atacando-as, como quando publica em suas redes sociais vídeos de seus apoiadores criticando o fato de não poderem trabalhar.

Bolsonaro bem que tentou veicular a peça publicitária contra o isolamento horizontal que tinha como slogan #OBrasilNãoPodeParar, orçada em R$ 4,8 milhões aos cofres públicos (soma que equivale a cerca de 70 respiradores), mas acabou sendo impedido pela Justiça.

O fato é que o presidente aprofundou seu isolamento e tem dificuldades em encontrar respaldo no mundo, no Brasil e mesmo dentro de seu governo.

Bolsonaro só encontra paralelo em seu posicionamento negacionista com seu colega mandatário do Turcomenistão. O ditador Gurbanguly Berdimuhamedow proibiu o uso da palavra “coronavírus” e passou a receitar sauna e vodca contra a doença.

No Brasil, felizmente, a maioria das pessoas vem seguindo o que é preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelos governadores. Aliás, a charge da Economist na qual o presidente brasileiro _ em um ambiente todo infectado _ conclama os brasileiros escondidos em suas casas a saírem, dizendo que uma pequena chuva não vai feri-los, é bem representativa do que ocorre hoje no Brasil. Apesar de ter a logomarca vermelha, é impossível dizer que se trata de uma publicação esquerdista.

Por outro lado, cabem, sim, reconhecimentos à administração de Bolsonaro. Alguns criticaram a edição de diversas medidas provisórias (MP) na última semana. No entanto, a chamada MP serve exatamente para isso: matérias urgentes e relevantes, conforme preconiza o artigo 62 da Constituição Federal.

Só na semana passada foram três diretamente relacionadas com a pandemia: para manutenção do emprego; financiamento do “coronavoucher”; outra que direciona mais recursos para a saúde e, por último, uma medida provisória que direciona recursos aos estados e municípios. Independentemente de cores partidárias, todas eles obedecem aos critérios constitucionais de urgência e relevância.

Quando se analisa o discurso e as ações do governo Bolsonaro, parece muito que o corpo não está obedecendo a cabeça. Talvez daí venham as rusgas com o ministro da Saúde.

Acusado diretamente de falta de humildade pelo chefe, Mandetta tem sofrido cada vez mais pressão do grupo ideológico do Palácio do Planalto para ajustar as instruções da pasta quanto ao modelo de quarentena adotado no Brasil. Até agora, todos os ministros que se opuseram a esse grupo tiveram vida curta na Esplanada. O próprio presidente já disse em uma entrevista que só não demite o ministro porque o país está “no meio de uma guerra”. Além disso, o processo de fritura já foi iniciado, com a circulação de um vídeo que sugere a existência de um esquema dentro do Ministério da Saúde para a implantação de um software de telemedicina.

Talvez a principal diferença entre Mandetta e os que caíram seja a aprovação do ministro na condução da pasta: 76% aprovam sua atuação, conforme a mais recente pesquisa do Datafolha, na última sexta-feira (3). Segundo a mesma pesquisa, a aprovação do presidente é de 33%. Avaliando a série histórica, a aprovação de Mandetta subiu 20 pontos percentuais em menos de 15 dias, enquanto a postura de Bolsonaro foi o suficiente apenas para preservar seu eleitor mais fiel. Ou seja, o ministro descolou do presidente, defendendo uma tese oposta.

Voltando ao governador de São Paulo, 57% aprovam sua atuação, segundo o Datafolha. Nesse quesito, Cuomo deixa Bolsonaro, Doria e até Mandetta bem atrás: na última pesquisa realizada pela Siena College, mais de 87% do público novaiorquino apoiam suas ações.

Por fim, uma última diferença: Andrew Cuomo já disse que nunca disputaria uma eleição para presidente; Doria não esconde que sonha com a cadeira, mas e Mandetta?

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