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O ambiente político brasileiro não favorece o diálogo

A combinação abertura econômica, redução da taxa de juros e queda da inflação não é suficiente para um crescimento econômico sustentável


postado em 24/02/2020 04:00 / atualizado em 24/02/2020 07:18

Gafes do ministro Paulo Guedes dificultam a negociação de reformas(foto: SUAMY BEYDOUN/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO )
Gafes do ministro Paulo Guedes dificultam a negociação de reformas (foto: SUAMY BEYDOUN/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO )

O México, em muitos aspectos, nos oferece lições quanto ao caminho escolhido pela equipe econômica do governo Bolsonaro. A principal é que, apesar de necessária, a combinação abertura econômica, redução da taxa de juros e queda da inflação não é suficiente para um crescimento econômico sustentável. Sem melhoria no ambiente de negócios e o correlato ganho de competitividade, não adianta.

Não cabe nesse espaço uma análise aprofundada da economia mexicana, mas talvez alguns dados nos ajudem a entender melhor esse paralelo. Em relação à abertura comercial, o México possui uma economia reconhecidamente aberta – 37% do PIB provém da corrente de comércio (o Brasil é de 14,8%). Por outro lado, a inflação por lá nunca esteve tão baixa, chegando a uma mínima histórica do índice de preços ao consumidor (IPC) em torno dos 2,8% no final do ano passado. Nessa esteira, o Banco Central mexicano foi incentivado a reduzir sua taxa básica de juros também para a mínima histórica de 7% ao ano.


''A combinação abertura econômica, redução da taxa de juros e queda da inflação não é suficiente para um crescimento econômico sustentável''




Ressalvadas as diferenças na velocidade da abertura comercial, o Brasil tem seguido à risca o caminho mexicano, com taxa Selic a 4,25% e projeção de inflação na casa dos 3,2%. O último levantamento do IPCA-15, que na prática é uma prévia da inflação, desacelerou para 0,22% – o menor resultado desde fevereiro de 1994. O dado foi motivo de comemoração no Twitter de Onyx Lorenzoni, atualmente no comando do Ministério da Cidadania, depois de deixar a Casa Civil na última dança das cadeiras no governo.

Esse combo mexicano, no entanto, não foi suficiente para o crescimento da economia, que terá recessão de 0,1% em 2019, sendo a primeira queda em 10 anos, segundo dados do instituto de estatísticas (Inegi). A partir daí não fica difícil perceber que os motivos para o aparente fracasso das políticas econômicas parecem estar muito mais ligados às falhas em prover as reformas estruturantes na economia real do que nas medidas aplicadas até agora. O exemplo mexicano é exatamente o que deve ser evitado pelo Brasil.

O grande problema é que o ambiente político brasileiro não favorece o diálogo entre os agentes políticos: construir qualquer coisa no meio da gritaria que se tornou a política nacional é muito difícil. Gritaria, aliás, foi o que não faltou desde que as instituições voltaram a trabalhar depois do recesso.

O governo, que já vem de uma série de recuos na apresentação dos próximos itens da agenda de reformas, perdeu ainda mais capacidade de direcionar a discussão desse tema depois de duas gafes do ministro da Economia. O tumulto se iniciou quando Paulo Guedes comparou os servidores públicos a parasitas, fala que só perde para quando o ex-presidente Lula comparou os funcionários públicos a políticos corruptos em 2016. A situação piorou quando Guedes se enrolou ao explicar os benefícios que a alta cambial do dólar pode trazer à economia e disse que, na época em que a moeda americana era mais baixa, havia “empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada”.

Como se não bastasse isso, outras figuras do alto escalão também fizeram a sua contribuição para engrossar o caldo da crise política. O presidente Jair Bolsonaro fez coro a uma declaração de um depoente na CPI das Fake News e insinuou que a jornalista Patrícia Campos Melo usou métodos pouco ortodoxos para obter furos de reportagem. Ainda, o general Augusto Heleno foi gravado enquanto acusava o Congresso de chantagear o Poder Executivo. É claro que todos esses eventos provocaram reação dos parlamentares, que fizeram fila para apresentar requerimentos de convocação das autoridades acima citadas.

Esses episódios não são incontornáveis, mas são uma boa ilustração da atual conjuntura política. A euforia positiva pós-aprovação da reforma da Previdência no Congresso ficou para trás e o governo precisa agora construir narrativas sólidas que sirvam para incutir na sociedade a necessidade de aprovar os próximos itens da agenda reformista. Apesar disso, o ambiente político não traz muitos incentivos para que o presidente busque um perfil mais conciliador e passe a cooperar mais fortemente com o Congresso, principalmente com a proximidade das eleições. Enquanto isso, resta torcer para que o Brasil não seja um México sul-americano.

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