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GUERRA

O ataque do Hamas abala as estruturas de Israel

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A Faixa de Gaza e a Cisjordânia correspondem às áreas do território da Palestina-Israel destinada aos árabes, na proposta da ONU de 1947. O desfecho dessa partilha, nunca adotada, é conhecido: um estado judeu foi criado, e o palestino, ignorado. Esse contexto histórico explica parte dos conflitos que ocorrem na região há mais de sete décadas.





Em 1967, com o fim das Guerra dos Seis Dias, Israel havia anexado os dois territórios palestinos.  O controle dessas regiões pelos israelenses impediu, na prática, os árabes de exerceram o autogoverno sobre as terras determinadas pela ONU como pertencentes aos árabes, que ali viviam há quase dois milênios, desde a diáspora judia, no início da Era Cristã. 

Mesmo após o compromisso firmado pelo governo de Israel em permiti-lo, como estabelecido pelos acordos de Oslo, de 1993, a liderança palestina nunca ocorreu de forma efetiva.

Na manhã deste sábado (7/10), Israel e o mundo foram surpreendidos com um ataque conjunto de combatentes do Hamas e da Jihad islâmica contra várias cidades judias, com lançamento de mísseis de maior alcance ao sul do país e a áreas mais distantes, como a capital Telaviv (afastada mais de 70 km) e Jerusalém. 





Essa ação militar é a mais violenta contra Israel e com maior número de vítimas entre os judeus desde a Guerra do Yom Kippur (o Dia do Perdão), que eclodiu há exatos 50 anos e um dia, no dia 6 de outubro de 1973, surpreendendo Israel, também naquele momento. A data da investida atual não deve ser mera coincidência. 

Nada impediu uma ação precisa dos palestinos: todo o aparato de defesa, a arrogância do Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, e seu “novo Oriente Médio” apresentado há poucos dias no seu discurso na ONU, a polícia de inteligência do país, o domo de ferro (iron dome) e o suposto domínio de tecnologia nuclear bélica.  Todo o sistema militar e de defesa estavam desprevenidos. Israel, apesar do poderio, foi humilhado, quase numa luta de Davi contra Golias. 

Os militantes do Hamas utilizaram parapentes e outros artefatos por marítimos e terrestres para entrar no território de Israel. A Faixa de Gaza possui fronteiras de 41 km na costa do Mar mediterrâneo e 10 km, de fronteira terrestre, ao norte.  

Durante o sábado, mais de 200 israelenses foram mortos, e 1452 foram feridos (18 gravemente). Há reféns israelenses capturados (que serão usados nas negociações futuras) e levados para Gaza. Entre os palestinos, os números eram incertos, mas estimados em 232 mortos e 1700 entre os feridos, após os massivos ataques judeus, mas esses números devem aumentar e superar muito os israelenses. 





Gaza está sob bloqueio israelense há mais de 15 anos. Israel impõe um rigoroso fechamento do espaço aéreo, terrestre e marítimo, isolando mais de 2,2 milhões de pessoas dentro desse território de 365 km², desde 2007. Nenhum representante da sociedade ou da economia de Gaza é poupado dessa ação de Israel.  

Os dados populacionais de Gaza são estimados. Israel impede a realização de um censo capaz de definir com segurança os números reais. Organizações internacionais e a ONU são responsáveis pelas estimativas da dinâmica demográfica do pequeno território, que possui uma das maiores densidades demográficas mundiais. 

Estima-se que 45% da população esteja desempregada (um dos maiores índices mundiais) e que 64% sofram de insegurança alimentar, especialmente aquelas que vivem nas pobres áreas rurais do território.  

Eram 6h30 quando Israel foi bombardeado com mais de 5 mil foguetes (segundo o Hamas), lançados de Gaza e com vários homens infiltrados espalhados em cidades israelenses. Esses combatentes iniciaram os tiroteios contra civis e militares, o que  resultou em dezenas de mortos e centenas de feridos. O mundo foi “surpreendido” junto com a inteligência e as forças armadas israelenses.

Entretanto, a surpresa não deveria ter sido tão acentuada. Não se deve esperar a submissão de um povo que, historicamente, lutou pelos seus interesses, mesmo quando foi esmagado de diversas formas. A verdade é que os palestinos foram esquecidos há muito tempo. O Ocidente, a ONU, a União Europeia e os próprios países de predomínio muçulmano deixaram há muito de lutar pela definição de uma pátria palestina. 





O último confronto entre os países árabes vizinhos e israelenses ocorreu em 1973. Desde então, a resistência ocorre dentro do território de Israel-Palestina, com um claro desnível na capacidade de ataque e defesa entre os dois envolvidos. A capacidade bélica de Israel é muito superior a da Palestina. 

Desde a primeira Intifada (a guerra das pedras), de 1987, os árabes tentam atrair a atenção do mundo em sua defesa, mas com muito pouco sucesso. Ao longo do tempo, assentamentos judeus se espalharam pela Cisjordânia, e a perda de direitos dos muçulmanos da região foi uma prática recorrente. 

A retirada dos judeus de Gaza, em 2005, não simbolizou uma real autonomia territorial por parte dos palestinos. Praticamente, essa ação criou um bantustão nessa região sem a presença de judeus, e isso favoreceu as investidas militares israelenses violentas sobre a área. 





Os armamentos pesados do exército de Israel, lançados sobre civis, com o intuito de eliminar o Hamas, não se aplicam à Cisjordânia, onde judeus e palestinos estão separados por um muro. Um ataque violento não pouparia os assentamentos e bairros judeus. Em Gaza, esse risco não existe. Vivem só palestinos.

A situação regional se agrava com a ascensão do Hamas ao poder em 2006, derrotando os representantes do Fatah, o grande rival, que controla a Autoridade Nacional Palestina (ANP), na Cisjordânia. Os novos líderes políticos de Faixa de Gaza dificultam uma negociação mais robusta de paz entre os dois povos. O Hamas não é reconhecido pelo Estado de Israel, e, por outro lado, os integrantes do grupo palestino não aceitam a existência de um país judeu no território palestino. 

Como não se reconhecem com legitimidade mútua, não negociam. Todavia, se ambos não se sentarem numa mesa de negociação, dificilmente uma paz duradoura será consolidada na região.





O grupo Hamas surge em 1987 (simultaneamente à primeira Intifada), formado por um pequeno grupo de resistentes, ligados à Irmandade Muçulmana, fundado pelo Sheik Ahmed Yassin, sendo reconhecido e autorizado por Israel, com o intuito de frear o avanço da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o grupo palestino mais hostil aos judeus naquela época. 

A OLP, entretanto, muda suas estratégias e estabelece novas políticas, considerando a existência de dois estados:  um judeu e um árabe, após a expulsão do seu líder, Yasser Arafat, para a Tunísia, em 1984. Tal decisão contraria as origens da organização, baseadas na expulsão dos judeus da região. 

Os integrantes mais radicais dentro da OLP são contrários aos câmbios, saem da organização e criam o Hamas. O novo grupo nasceu pequeno e quase insignificante para Israel, que os via como um bando de barbados radicais que não teriam grandes aliados e ascensão política. Ledo engano. 





Aqueles jovens fundamentalistas cresceram na incapacidade de encontrar uma solução pacífica para a região e à margem do enfraquecimento e das falhas ANP, mantendo a proposta original de eliminar os judeus da terra disputada e se tornam, ao longo do tempo, no arqui-inimigo de Israel.  

O ataque do Hamas vai expor a população de Gaza a uma resposta violenta por parte do governo de Israel. Por muito menos vítimas entre sua população, a ação militar israelense foi muito mais destrutiva, como ocorreu nos quatro momentos em que se enfrentaram: 2008/2009 (operação Chumbo Fundido, com mais de 1300 palestinos mortos contra 13 israelenses), 2012 (operação Pilar das Nuvens, com 100 mortos palestinos e 6 israelenses), 2014 (operação Borda Protetora, com mais de 2000 mortos palestinos, com 72 judeus e um tailandês mortos) e 2021 (com 250 mortos palestinos e 15 judeus). 

Os líderes mundiais, em quase sua totalidade, condenaram a ação palestina. Mas o permanente silêncio e a omissão internacional em defesa desse povo está na raiz de um problema que se estende desde a criação do estado de Israel, em maio de 1948, sem a definição de um estado palestino. 

Os EUA e países europeus já anunciaram total apoio bélico a Israel, uma decisão que se repete há décadas e sem solução. Os dois povos não sairão dessa terra. Alimentar o ódio, sem buscar uma proposta legítima e consolidada de paz, significa a manutenção da mesma condição atual, marcada por ressentimentos e violência mútuos. 





Os norte-americanos são os únicos, neste momento da história, capazes de colocar os envolvidos numa negociação real e sólida, que pode resultar em benesses e redução das rivalidades, mas nunca demonstraram um interesse real na solução. Há muitos interesses estratégicos envolvidos, que superam os interesses pacíficos. 

As imagens deste sábado indicam uma “tempestade perfeita” para o agravamento da crise na região. Israel deve intensificar os ataques, com possibilidade de ter que avançar por terra (aumentando o número de vítimas entre os soldados judeus e civis palestinos); a estratégia do Hamas reacende a discussão global de um conflito que todos optaram por ignorar; a resistência palestina demonstra ser um povo que não irá sucumbir às agressões sucessivas, e as imagens de israelenses, totalmente desprotegidos, em fuga, obrigam a uma revisão de todas as ações até agora adotadas pelo governo. 

A “epidemia” do esquecimento e da solidão dos palestinos pode custar muito. Negar o direito democrático, tão defendido pelo Ocidente, a esse povo terá seu preço e será alto e, neste primeiro momento, atingirá mais de dois milhões de pessoas colocadas como reféns, mas certamente irá reorganizar as cartas do conflito com Israel.