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SUELI VASCONCELOS

Suicídio: algumas considerações

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Esta é a última semana do mês de setembro. O mês que dá início à estação da primavera é, também aquele dedicado ao alerta sobre os índices de suicídio, cuja palavra é recente na história (1734), apesar de o ato ser antigo. O termo é originado do latim, "suicidium", composto pelo prefixo "sui" que significa "próprio", e o verbo "caedere", que significa "matar". Na última semana, a notícia da morte da jogadora de voleibol Walewska, surpreendeu a todos e colocou em evidência essa prática.   

Globalmente, todos os anos, mais de 700 mil pessoas (desconsiderando os casos subnotificados, que elevariam a cifra para mais de um milhão) morrem dessa forma. É a 13ª causa de mortes no mundo, de acordo com Organização Mundial da Saúde (OMS), e a quarta principal causa de morte de jovens entre 15 a 29 anos, em 2019. Um grito de alarme entre os profissionais da infância e adolescência está a soar.   

Decidir morrer é um direito que os homens, ao longo da história, e em diversas culturas, desejaram ter. Os primeiros registros remontam à Antiguidade. Na Índia, em busca do Nirvana, sábios o cometiam, seguidos pelas viúvas que os seguiam nas piras de cremação.  Filósofos, como Sêneca, que afirmava que "pensar na morte é pensar em liberdade" e poetas, como Lucano, influenciaram os suicídios durante o período de decadência do Império Romano. 





A partir do Século V, com a expansão das religiões monoteístas (principalmente, no Cristianismo) e fortalecimento dos Estados, a prática passa a ser condenada, e a morte voluntária torna-se objeto de desaprovação social em quase todas as culturas. Na Idade Média, foi considerado o mais abominável dos crimes, considerado um insulto divino e com uma execução macabra para quem o praticasse, de acordo com o historiador, George Minois. 

Isso explica, em parte, os motivos que inibem o suicídio assistido, permitido apenas a um reduzido grupo de países, na atualidade.

Segundo dados da OMS, morrem mais pessoas por suicídio do que por doenças como a malária, o câncer de mama, o HIV, ou por guerra e homicídios. De modo geral, as taxas são maiores entre os homens nos países desenvolvidos (16,6% por 100 mil habitantes) e entre as mulheres nos países subdesenvolvidos (7,1% por 100 mil habitantes). Estima-se que a cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo. 

No Brasil são calculados em 14 mil casos anuais.  Aproximadamente, 38 pessoas, diariamente, desistem de viver no país. Conforme dados divulgados no site da Campanha Setembro Amarelo, 12,6% de cada 100 mil homens, contra 5,4% de cada 100 mil mulheres, morrem cometendo suicídio.





O dia 10 de setembro, desde 2003, é a data oficial do Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio. No Brasil, o "Setembro Amarelo" foi instituído em 2014, quando a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM), deu inicio à campanha, que em 2023 tem o lema "Se precisar, peça ajuda", na busca de conscientizar e estabelecer ações de prevenção a um grave problema de saúde pública, com severos impactos sobre a sociedade como um todo. 

Os índices estão diminuindo em alguns países europeus, mas essa regra não é válida para a América do Sul, América Central e Leste Asiático, onde os números estão em ascensão (OMS).  

A causa mais comum é associada a doenças mentais, nem sempre identificadas ou tratadas de forma adequada.  Isso indica que boa parte desses índices poderiam ser evitados com os tratamentos psiquiátricos corretos. 
 
 

Todavia, segundo a OMS, muitos fatores desencadeantes acontecem em momentos de crises pessoais ou familiares. A quebra de uma rotina pode criar dificuldades para lidar com a vida.  Os estresses contínuos, o consumo alcoólico e de outras substâncias químicas, problemas financeiros, rompimento de relacionamentos, dor e doenças crônicas, conflitos, desastres, violência, abuso ou perdas e uma sensação de isolamento estão fortemente associados aos comportamentos suicidas.





Infelizmente, as taxas de suicídio são igualmente elevadas entre grupos vulneráveis, que sofrem perseguição ou discriminação, como os refugiados e imigrantes, pessoas indígenas, integrantes da comunidade LGBTQIA+ e prisioneiros.  

Para quem desiste, a vida é muito dolorosa, mas, geralmente não se deseja morrer. Quer acabar com suas dores e dificuldades, sejam elas quais forem. Mas  o suicida não consegue e usa um "bombardeio nuclear" para eliminar o que o aflige. 

A professora de psiquiatria na Escola de Medicina John Hopkins, Kay Jamison (ela mesma uma suicida),  afirma  que  grande parte da decisão de se matar tem a ver com a forma como o individuo interpreta os eventos vividos. Os distúrbios da saúde mental, como depressão, transtorno de humor bipolar, esquizofrenia etc. respondem por parte expressivas desses atos. 

A depressão, segundo ela, é tolerável até o ponto em que as pessoas acreditam que pode haver melhoras.  Mas, por outro lado, quando o desespero cresce a ponto de se tornar intolerável, a capacidade de a psiquê  conter os impulsos suicidas enfraquece, gradualmente, como os freios de um carro que se desgastam por serem usados demais. 





Há os fatores desencadeantes e fatores subjacentes, que também devem ser considerados, como a hereditariedade (há algumas famílias mais propensas à interrupção voluntária da vida que outras, segundo estudos, por força dos genes) e a química do cérebro, que pode reduzir os níveis de serotonina e aumentar os riscos de depressão, que levam ao suicídio. 

A realidade, porém, é que ninguém nasceu destinado a esse fim. Todos os dias, incontáveis pessoas estão mais insatisfeitas e infelizes, embora buscando soluções para superar seus desgostos. A mente e o coração são fundamentais para mostrar outros caminhos que não seja o suicídio. 

O ato é catastrófico e traumático, causando extrema dor entre os que ficam. Considera-se que um suicídio deixa, em média, setes entes de luto e impacta mais de vinte pessoas, com reflexos entre aquelas mais próximas, pois há uma tendência a aumentar os riscos na família, entre os colegas de classe, trabalho etc. 





O controle e a prevenção exigem uma atuação conjunta de vários segmentos sociais, de acordo com a OMS. Isso inclui os setores de saúde, educação, trabalho, agricultura, os negócios, a justiça, o direito, a defesa, a política e os meios de comunicação. Os esforços devem ser abrangentes e integrados, pois, isolados, os efeitos são ineficientes para um problema tão complexo. 

Individualmente, buscar ajuda médica e psicológica é fundamental. Evitar o isolamento, afastar-se da solidão e, ao mesmo tempo, de pessoas tóxicas, rodear-se de poucos e fiéis amigos, têm um efeito muito positivo, mostrando outras possibilidades e acreditar, mesmo nos momentos mais difíceis, que tudo passa. 

Atenção: Se conhece alguém que está lutando contra a desesperança, a depressão ou pensamentos suicidas, você pode ajudá-lo. Estenda a mão e pergunte a essa pessoa se está tudo bem.  De acordo com os especialistas em prevenção e pessoas que já tentaram contra a própria vida no passado, uma das melhores maneiras de ajudar alguém em risco é iniciar uma conversa sobre suicídio e apoiar a pessoa para encontrar o tipo certo de ajuda.  

Ligue para o Centro de Valorização da Vida, pelo número 188, que funciona 24 horas.