Jornal Estado de Minas

Psicologia positiva

Quem é mais sábio: corpo ou mente?

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Sofia Bauer 

 
Engana-se quem pensa que a parte sábia é a nossa mente. O corpo tem uma sabedoria milhares de anos mais evoluída que nossa mente.
 
Talvez a maioria dos leitores responderia que é a mente nossa parte sábia, pois é com ela que pensamos. Mas, antes de pensar, nós existimos, sentimos, defendemos e aprendemos através do corpo em evolução nestes milhares de anos. 




 
O grande erro de Descartes – “Penso, logo existo” – tem sido cada vez mais constatado pela ciência moderna. Primeiro eu sinto, tenho emoções e por elas sou guiado a ter um tipo de comportamento e agir dependendo dessas emoções. 
 
Por esse motivo, muitos de nós passamos a vida hiperativados, congelados pelo medo ou por situações vividas em algum momento. Essas situações podem ser coisas corriqueiras de nosso dia a dia, mas que não soubemos resolver; ou pior, podem ser um grande trauma sofrido. E até mesmo traumas sofridos durante toda uma infância ou adolescência, como ser abusada por parente dentro de casa e não poder se defender. 
 
Quando algo se torna uma ameaça, o registro do corpo é implacável. Ele nos protege com respostas de nosso sistema nervoso autônomo. Se há perigo, teremos duas respostas mais comuns: luta ou fuga, feita pelo nosso sistema nervoso simpático (nada amigão, mas protetor). Diante de um perigo iminente, ele rapidamente nos coloca ativados com a noradrenalina e produção de cortisol para lutar ou fugir. 




 
Mas diante de ameaças maiores em que nada conseguimos fazer, nosso corpo reage de uma forma mais drástica. Aprendemos isso na evolução das espécies e desde os peixes cartilaginosos. Milhares de anos na evolução da espécie, lá atrás, ainda no fundo do mar, criamos nosso primeiro sistema de alarme e defesa – o sistema nervoso parassimpático dorsal, que nos paralisa e congela fazendo um blecaute geral.
 
Portanto, o corpo nos defende como seres vivos das ameaças à vida desde sempre. O primeiro sistema a nos defender, embora muito primitivo, funciona até hoje em nosso corpo. 
Como? Nos congelando na vida diante de escolhas ou saídas. 
 
Muitos são aqueles que vivem dizendo: “Eu não consigo ter vontade, ter propósito, ter um relacionamento, um emprego” e coisas afins. Por que isso? Congelamento de vida, de emoções para se proteger. E por trás de tudo isso o que temos? Trauma! 
 
O trauma foi tão prejudicial, que essa pessoa está presa e congelada na armadilha de ser incapaz, de agir ou sentir. Veja como nosso corpo sábio nos protege! Se há um perigo diante do qual eu não conseguirei resolver, eu desligo a “chave geral” e entro no modo congelado de viver, me defendendo de sentir o insuportável.




 
Vamos a um exemplo: uma menina que sofre abuso sexual do pai durante toda a sua juventude a ponto de engravidar, e o pai levar para fazer aborto. Dos 12 aos 15 anos, sofre calada e “congelada” os abusos de quem supostamente a protege na vida. Ela teria saída? Não! Ninguém a salvaria. A pequena pensa em sua sabedoria corporal que ninguém a salvaria, e, aí, passa a viver um mundo anestesiado e sem dor, para sobreviver a tais abusos infames.
 
Isso é só um exemplo, mas podemos citar crianças que sofrem violências de pais abusivos, alcoólatras, adictos em drogas, crianças que perdem seus pais em guerras etc.
Aqui fica um alerta: cuide bem de seu corpo e entenda o que ele quer dizer.
 
E se ele estiver adoecendo sempre, busque ajuda na terapia! Seu corpo sábio pede socorro. Mas podemos acolher e curar esses sintomas por meio da escuta compassiva do seu corpo e retirar o congelamento ou a hiperativação.