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Escalei o meu Everest

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A vida normal ressurgiu na pós-pandemia, apesar de não sabermos até quando. Restaram ainda as máscaras, praticamente aposentadas. Ficou a dor das perdas humanas e materiais para muitas famílias. Vieram também novos valores, reinvenções e aprendizados. No meu caso, um dos mais singelos foi reaprender a andar de bicicleta. Sabe aquela história de que você nunca esquece como pedalar?
 
Sim, é verdade, mas o processo de retomada do hábito não é tão simples. Você resgata o aparelho do quartinho dos fundos, espana as teias de aranha e calibra os pneus. Repassa o básico: como passar as marchas, testar o freio, regular a altura do banco. Toma coragem e monta na bike, meio cambaleando, custando a se equilibrar.




 
Dá quase tudo certo, menos o fôlego. Já havia me esquecido de que as bicicletas exigem mais condicionamento físico do que uma simples caminhada. Insisti na ideia. Era maravilhoso tomar o vento no rosto, apesar da máscara, do capacete e dos óculos de sol. Dava uma sensação de quase liberdade, para além do confinamento social.
 
Sem desconfiar disso, meu maior incentivador foi o meu adolescente. Maior mesmo, literalmente. Aos 16 anos, Eduardo ultrapassou a minha altura. Aos 15, já estava quase lá. Não ganhou festa de 15 anos durante a pandemia, mas celebrou a vida. Seu rito de passagem foi mais simples e significativo.
Dudu teve uma das primeiras crises de rebeldia ao se recusar a marcar a própria altura na parede de casa. A cada aniversário, o traço colorido subia dois ou três centímetros. Já a minha marca, que meus dois meninos faziam questão de registrar, ficava lá em cima, congelada em 1,61 metro.




 
Os parênteses são para registrar que os meus filhos estão crescendo. Às vezes, é difícil enxergar isso, mesmo tendo toda a parede rabiscada atrás da porta. Preciso confessar algo. A verdade é que voltei a andar de bicicleta para vigiar o meu adolescente.
 
Queria ver como ele se saía nas ruas do bairro, se estava correndo muito, se se lembrava de parar no sinal vermelho, se desviava dos buracos e dos pedestres. Já na primeira volta, eu o perdi de vista. Meu Deus, será que ele iria olhar para os dois lados para ver se vinha carro?
 
Pedalei o mais rápido que eu pude atrás dele, mas me esqueci de que havia uma subidinha antes de chegar na avenida principal, na pista de cooper do bairro. Os morros parecem montanhas quando você está de bicicleta. Escalei o meu Everest. Finalmente consegui alcançá-lo.
 
Parecia uma miragem, mas meu filho estava parado na esquina de cima, me esperando chegar, pacientemente. Quem diria. Quando ele era criança, eu o empurrei na bicicleta de rodinhas, naquele mesmo morro, com as costas doendo. Expliquei as noções de trânsito, insisti na importância da garrafa de água, levei na Transitolândia.




 
Mas não fui eu quem o ensinou a se equilibrar na bicicleta. Ele aprendeu sozinho. Passou dias observando o melhor amigo, que já tinha se livrado das rodinhas. Um belo dia, Dudu tomou coragem e deu um impulso. Saiu pedalando pelo quintal, sozinho. Levamos um susto.
Foi assim também que ele aprendeu a ler, a mexer no computador, a fazer suco de uva e depois tapioca, a tocar violão. Desde essa época, eu já devia ter percebido que o meu filho dá conta de se virar sozinho.
 
* O Círculo do Poder Feminino irá oferecer uma série de atividades gratuitas nas praças e parques de Belo Horizonte até o dia 25. Para saber mais informações, ligar para 99116-9858.