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A árvore que existe em mim

Sou urbana, nasci na capital, mas necessito do verde. Quero pisar em folhas secas, provar da água salgada do mar, soltar os cabelos na cachoeira. Desintoxicar a alma


postado em 29/12/2019 04:00 / atualizado em 29/12/2019 10:10

Se um dia nascer de novo, quero voltar árvore. Frondosa, de copa larga, apinhada de maçãs bem maduras. Do mesmo jeito que eu as desenhava na infância. E nomeadas pelas mesmas palavras: ‘frondosa’, ‘apinhada’. Insisto também nas maçãs. Por que não laranja ou acerola? Ou algo mais tropical, tipo manga ou goiaba? Nativa, como uma jabuticaba?

Não, não sei dizer o motivo da cisma com maçãs. Só sei que, antigamente, as crianças davam preferência a colorir os frutos de vermelho, lembrando corações em série. Talvez minha geração tenha sido mais romântica (ou menos criativa, copiando as gravuras dos livros estrangeiros). Tanto faz. O objetivo desta crônica não é ter tom de reprise, nem de retrospectiva do que já foi. Zero nostalgia.

Voltemos às árvores, portanto. Acabo de cruzar com uma delas, na Região Central de BH. Seu porte atraiu meu olhar. Gigante. Tinha o tronco forte e raízes agressivas, que rasgavam o passeio de cimento. Lutavam por espaço.

Difícil explicar essa leitura xamânica, mas entendi o que a árvore queria dizer. Soube que ela não se sentia presa, paralisada no lugar. Lançava seus galhos para o céu, abrindo os braços em busca de ar. Inventava folhas, que entupiam bocas de lobo e lotavam a calçada. No entanto, respirava.

Às vezes, também me sinto sufocada. Sou urbana, nasci na capital, mas necessito do verde. Quero pisar em folhas secas, provar da água salgada do mar, soltar os cabelos na cachoeira. Desintoxicar a alma.

Na impossibilidade de sempre fugir da cidade, ando aprendendo a cavar meu espaço interno. Um oco particular. As técnicas de respiração ajudam. Experimente algo novo. Inspire fundo e solte, três vezes. Com o treino, dobre para seis. Sinta entrar o ar frio e sair quente pelas narinas.

Se puder deixar uma herança para meus filhos, será ensiná-los a criar as próprias folhas, a extrair o oxigênio do ar, a segurar o fôlego. “Ei, lembre-se de respirar!”, costumo dizer a eles em dia de prova ou de apresentar trabalho em sala de aula, diante dos colegas.

O mesmo acontece na hora de dormir. Peço para fecharem os olhos e encher os pulmões até o peito estufar. Isso mesmo. Agora, para desconectar a mente, preste atenção nos barulhos da noite. A buzina de um carro, o coral de cachorros, o liquidificador do vizinho, as vozes que exalam dos botecos. É inútil lutar contra a alegria morando na capital brasileira dos bares.

Vivemos numa rua movimentada, com direito a barzinhos, salões de beleza, farmácia. Mas nada nos impede de descobrir o silêncio trazido pela escuridão. Basta observar o que acontece à nossa volta. Já reparou que, perto da hora de dormir, o som da tevê, o áudio do celular ou o volume da música podem descer para um ou dois tracinhos no mostrador?

No dia seguinte, faça o teste ao acordar. O som está tão baixo que você pensa que deixou de ligar o kit multimídia do carro ou esqueceu de sintonizar o canal Chá Com Leveza no YouTube. É que o ambiente externo já foi invadido pelo burburinho urbano, esse caldo formado pelo ronco dos ônibus, o desespero dos motoboys, a aposta matinal entre secadores de cabelo e aparelhos de barbear. E olha que o dia está só começando (e também o ano de 2020. Feliz nova década a todos!) 

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