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Estado de Minas REGINA TEIXEIRA DA COSTA

Deixar a ficha cair é acordar e ver que o rei está nu

Felicidade plena, verdade total e autocontrole absolutos estão fora de nossas possibilidades. Jamais as coisas serão como queremos ou desejamos


05/06/2022 04:00 - atualizado 04/06/2022 00:51

Ilustração mostra figura humana estendendo o braço para outra, no alto, que parece entrar num túnel colorido

A vida é peleja. Não se enganem. As pulsões estão sempre aí, gravitando em torno de um objeto que não se pode alcançar. Nosso vício estrutural é buscar infinitamente tamponar uma falta originária. Porém, tal objeto jamais será aquele capaz de nos curar e qualquer outro será recobrimento. Um alento daquilo que nos faz incompletos.


O imaginário, acelerado, persegue o que queremos. Um imaginário bem louco. Porém, cumpre bem o papel de nos trazer certa consistência de sentido à vida, inventando sentido. Acordamos esperando que fique tudo certo, tudo azul, como diríamos.

Minha vida será perfeita se tiver tudo que mereço. Como promete o capitalismo atual, de mãos dadas com a ciência, você poder tudo que quiser. A felicidade bate à sua porta a cada intervenção no corpo, com o carro perfeito, a viagem incrível.

Faz-nos crer que não há barreira entre o que queremos e o que podemos ter. Na verdade, com dinheiro, o maior bem atual, acima de qualquer outro, você poderá ser feliz. Só que não.

Quem tudo tem, sofre de tédio. Faltam motivação e desejo. Porque o desejo nasce da falta. Desejamos o que não temos. Hipoteticamente, claro, porque é impossível ter tudo, muito e mais ainda. Isso seria a mortificação em vida. É impossível ser pleno, a totalidade não é uma possibilidade, porque nascemos como sujeitos de nossa vida de um buraco aberto na separação do corpo da mãe e da consciência de termos um outro corpo, separado.

Então, uma das tarefas da psicanálise seria trazer para a realidade possível aquele que acredita que seus devaneios e ideais imaginários podem se encaixar na realidade. Nesta aposta no imaginário, ele perde a objetividade e ainda se sente injustiçado, ressentido, quase traído.

E prefere a fé na felicidade pela simples razão de que deixar a ficha cair é acordar e ver que o rei está nu. Desvestir o santo de seu manto sagrado, se despir das ilusões, sair da negação e da alienação será perda de gozo. Encontrar a verdade, mesmo sendo ela não-toda, não parece tão atraente.

O real está sempre descompletando o imaginário, apontando para sua fragilidade, pois se nos traz alguma consistência é ilusória, é fumaça, é névoa, nada, e se esvai, ficamos de mãos vazias.

A dificuldade toda é que a vida é árdua, difícil, perigosa. Nunca poderemos gozar dela plenamente sem que o real insista em insurgir e nos desperte do sonho. E o real... é osso duro de roer, sempre desconcertando aquilo que esperávamos certo.

Vivemos hoje a perda da tradição, da verdade. O sujeito moderno depois da descoberta freudiana se vê dividido pelo desconhecimento de si. O acesso à realidade e ao outro se dá apenas pela palavra e ainda na impossibilidade de saber tudo sobre si. Somos desamparados na linguagem e só termos como recurso a palavra.

Assim nem o próprio desejo é totalmente desvendado. Quando dizemos que não mandamos no coração, estamos dizendo de um saber que não se sabe, levados sem que saibamos por quê. Não escolhemos o que desejamos. E nem sempre queremos o que desejamos. Somos capturados, alienados em invisíveis causas.

Assim felicidade plena, verdade total, autocontrole absolutos estão fora de nossas possibilidades. Jamais as coisas serão como queremos ou desejamos. Porque nem sabemos toda nossa verdade, sendo parte dela inconsciente.

No lugar onde o homem deveria encontrar seu bem, no centro da vida psíquica, algo falta. Deste vazio fazemos o que podemos, tentando contornar com palavras. Ainda bem que as temos e, sorte nossa, que alguém nos escute! Cai o pano. A verdade é nua.

“O mundo não marcha senão pelo mal-entendido./É pelo mal-entendido universal que o mundo inteiro se entende./ Pois se, por desgraça, os homens se compreendessem, não poderiam jamais entender-se.” Charles Baudelaire, em “Meu coração desnudado”. 

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