Jornal Estado de Minas

Temos o trabalho de dar sentido à vida ou ela não terá nenhum valor

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A coisa mais dolorosa na vida de uma família é ter em seu seio alguém que desiste. Da família, da vida, de si próprio. Nunca saberemos onde colocar isso em nossos corações, a cada dia tentaremos dar um sentido para o que parece gesto sem sentido, o mistério de abrir mão de nosso dom mais valioso, que é a luta e defesa da vida.





Coutinho Jorge comenta que no discurso capitalista Lacan aponta a inversão que desvaloriza a vida humana com a máxima  “ninguém é insubstituível”. Trata-se, para a psicanálise, exatamente o contrário: “Ninguém é substituível”.

Isto nos torna mais responsáveis ainda. Temos em nossas mãos o dever de sustentar nosso valor, mesmo que os obstáculos no caminho tenham nos feito sofrer. Além disso, nossa condição humana subordinada à linguagem e a cultura nos retira da natureza, fazendo em nós uma cisão incurável.

Quando Georges Bataille, citado por Coutinho Jorge, disse que o animal está em homogeneidade entre mundo e corpo, ou seja, que o animal está no mundo como água para água, destaca que,  para o homem, ser de linguagem e desejo,  entre corpo e mundo há o profundo abismo que torna o mundo uma alteridade radical para cada um.





Este fato torna a vida extremamente trabalhosa, quem não sabe? Nascemos sem manual de instruções, não somos dotados de instinto como os animais, que já nascem sabendo o que vão comer, como parir e têm no cio a regulação da vida reprodutiva.

Nós, seres falantes, somos submetidos às pulsões, elas saem do corpo em busca de um objeto de satisfação plena e voltam sem encontrá-la. Nossa sexualidade é um espinho na carne por não ter a adequação de um objeto certo.  Nada nesse campo da relação com o desejo é predeterminado. O desejo é, em grande parte, inconsciente. Nem sempre sabemos o que desejamos.

Temos o trabalho de dar sentido à vida ou ela não terá nenhum. O que traz sentido para a vida é o desejo único em cada um; trazê-lo à consciência é se encontrar. Este desejo é o que em cada um de nós oferece o motivo da vida, o ânimo para o trabalho e sustenta a vida.





Porque a vida é difícil, é luta, é esforço diário de levantar para o ganha-pão diário, é produzir desde o alimento mais básico até as mais complexas tarefas – como estudar, trabalhar, se relacionar. E relacionar-se não apenas com o outro, mas consigo, por sermos dotados de um inconsciente, um desconhecido estranho e incômodo que se percebe em sonhos, atos falhos, lapsos de linguagem e na escuta.

A escuta da subjetividade é sensível. Nem todos se detêm e se perguntam sobre o que fazem, como fazem, por que fazem. E mais: nem todos conseguem sair da negação de estar sempre fugindo, adiando adentrar suas dores, seus desamores.

Nem todo pai responde como pai. Nem todo pai sabe que sua função é imprescindível para salvar o filho. Seu afeto e limites ensinam a vida e mostram o valor que dá a este ser que trouxe ao mundo. Este valor, recebemos deste outro que nos engendrou.

Nem toda mãe desejou o filho completamente. Algumas nem mesmo o quiseram, sem condições de acolher, conduzir. Sem abraços e calor do afeto.

Mesmo assim, embora não todo amado, pois amores são sempre imperfeitos, mesmo o dos pais e mães, ainda assim precisamos encontrar nosso modo de prosseguir nesta tarefa, ora árdua, ora grata, de viver, alguns dias sobreviver...




audima