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Sem o desejo a vida não tem sentido e cor. Sem ele tudo é desértico

O desejo nos habita, embora muitos o ignorem, até mesmo o evitem. Ele nos faz centrar em nós, apesar da influência do outro


15/11/2020 04:00


Paula Vaz, em um belo poema revela: “Eu falo com as paredes porque elas têm ouvidos”. Clarice Lispector numa carta ao seu amado amigo Lúcio Cardoso declara: “Tenho mais o que fazer do que cuidar de uma espécie de pensão, por exemplo, ficar sentada olhando para as paredes”.

Duas passagens que demonstram uma relevante e rara atitude de reflexão e intimidade em estar consigo mesma, e se permitir escutar o desejo. No cerne do sujeito, no seu mais íntimo e singular espaço, está o que dá sentido à vida, o desejo, e sem ele a vida não tem sentido, sabor e cor. Sem desejo tudo é desértico, tudo é solidão.

O desejo nos habita, embora muitos o ignorem, até mesmo o evitem e nem mesmo compreendem quando nos referimos a ele como uma estrela cadente que cruza o espaço mental e, se apanhado, tem consequências.  Ele entranha no corpo caso seja traduzido. Torna-se ímpeto, impulso, guia, vetor, centro de gravidade que nos permite a verticalidade. Nos faz centrar em nós, apesar da influência marcante que teve e tem o outro em nossa estruturação, sendo este o motivo de aqui estarmos.

O desejo nos habita e teve sua origem nas ranhuras causadas pela ressonância das palavras do outro, pelo afeto que nos afeta a partir da voz, do olhar, do calor da presença que nos marca de modo indelével. Nos carimbou a alma, fazendo de nós mais que organismos, corpos falantes dotados de linguagem, nossos corpos comuns que tanto amamos.

Porém, esta transposição do organismo biológico para o ser falante, dotado de linguagem, do simbólico que o inclui na cultura, embora fundamental para a humanização, ainda precisa desenvolver a capacidade de dar crédito ao inconsciente.

A um inconsciente real que sem que nada saibamos sobre ele, podemos perceber sua existência além da consciência como causa de atos e até escolhas – influente que é nos faz reagir de modo que nem entendemos às vezes.

De fato, muitas vezes as paredes são grandes companheiras porque delas nada esperamos. E se algo surge é nosso eco. A dificuldade mora nas relações humanas quando das pessoas esperamos sinal de reconhecimento, de consideração e não encontramos resposta ou reciprocidade. O problema não está no outro, mas em nós que ainda esperamos, até insistimos. Queremos porque queremos.

Talvez sejamos nós mais surdos que as paredes. Nem mesmo a nós próprios escutamos. As paredes de Paula e Clarice nos escutam mais. Rechaçamos aquilo que não queremos saber, evitando contato com tudo que nos desperta qualquer mal-estar. Fugindo dele, mais ainda o encontramos.

Nossos limites rígidos tornam os acessos quase intransponíveis. São prova de que nem murros nem urros adiantam. Repetimos em atos o que não queremos escutar nem saber. Ressurge o que recusamos ouvir no comportamento, camuflado, trazendo ansiedade, angústia e sintoma. Toda esta série é sinal de marcas e afetos que sem escuta são intraduzíveis, intransponíveis, mais que as paredes.

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