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Estado de Minas

O respeito à natureza e aos índios é dizimado no Brasil

Povo indígena está ameaçado de perder suas reservas e proteção, o que nos faz repensar a humanidade


06/09/2020 04:00

A representação cartográfica do Brasil colonial do século 15 ao 18, elaborada em 1519 pelos cartógrafos portugueses Lopo Homem, Pedro e Jorge Reine, pode ser acessada na Biblioteca Nacional. O mapa do Brasil, ilustrado e apontado como a terra dos índios antes da chegada dos europeus, é lindo.

Os portugueses descreveram os índios como gente de pele escura, selvagens e crudelíssimos, que se alimentavam de carne humana e empregavam, de modo notável, arco e setas. E sobre a fauna e flora relatam papagaios multicores e outras inúmeras aves e feras monstruosas, muitos gêneros de macacos e grande quantidade da árvore que, chamada brasil, é conveniente para tingir o vestuário com a cor púrpura.

Claude Lévi-Strauss, antropólogo belga, professor e filósofo residente na França e considerado o fundador da antropologia estruturalista, foi um dos grandes intelectuais do século 20. Escreveu, em 1955, o livro Tristes trópicos no qual expôs suas experiências com a cultura indígena, adquirida nos anos 1930 no Brasil, quando foi professor visitante da Missão Francesa na Universidade de São Paulo.

Ele previa a extinção dos povos indígenas pela ação depredadora da civilização moderna. Previsão que se confirma e que, agora, além de triste, tornou-se trágica. Nilza Féres (in memoriam), em artigo publicado neste Estado de Minas, em 1991, perguntava se poderíamos evitar chegar a este ponto e comparou o que acontecia nas ruas do Brasil ao estilo da tragédia grega atuada nas ruas, florestas, cárceres e favelas.

O professor estudou hábitos indígenas e ensinou que a sua cultura possuía leis e normas para regular as relações sociais e de parentesco, conforme registrou no livro Estruturas elementares de parentesco.  Assim, ele reposiciona os índios, considerados selvagens pelo homem “civilizado”, e considera a cultura indígena como qualquer outra. E hoje se há selvageria, e há, vem de fato daquele que se considera o civilizado.

Ainda naquele artigo, Nilza entende que em nome do mito moderno do progresso legitima-se o extermínio dos povos indígenas como se fossem lixo, esquecendo que eram os donos das terras brasileiras e se dela retiravam sua sobrevivência sem depredar a terra-mãe. A proporção da extração era para o necessário. Quem inaugurou o sistema de trocas foram os colonizadores e trocavam nossas grandes riquezas por bugigangas que encantaram os ingênuos índios.

A exploração para tudo transformar a natureza no vil metal, sem limites como hoje é praticada, vem justo do homem arrogante que alimenta o sistema capitalista de maneira equivocada. Este sim sãos selvagens, gananciosos, ávidos em acumular em detrimento do outro que carece de moradia, alimento e condições de uma vida digna.

Desde que os europeus, em missão colonial e de catequese vieram impor sua cultura aos povos originais da nossa terra, ignorou-se então a cultura indígena. Como cantou Caetano, “Narciso acha feio o que não é espelho”, não tolera diferenças, e hoje vivemos na cultura do ódio às diferenças e das fake news com objetivos políticos evidentes, esquecendo-se completamente que a civilização foi um pacto de união entre povos para proteção de todos. E havia intenções honradas, hoje tímidas frente à ânsia e ao apetite consumista que vem consumindo com tudo inclusive. Hoje o índio é apenas um estorvo a ser removido que impede o desmatamento e a exploração do solo em suas reservas.

No Brasil, resta pouco daquilo que foi. O respeito à natureza em geral, incluindo os índios – nosso patrimônio histórico humano –, continua sendo dizimados em nome do enriquecimento sem preocupação com o futuro da humanidade. A missão, filme britânico de 1986, dirigido por Roland Joffé, é exemplar. O povo indígena está ameaçado de perder suas reservas e proteção, perde a posse de sua terra, demandada judicialmente, o que nos faz repensar a humanidade que a gente tanto conclama.

Sim, ainda existe humanidade, porém, pelo andar da carruagem, as desumanidades andam a galope acelerado difícil de conter. Uma corrida que pretende extrair minério, desmatar, queimar, grilar, garimpar, desprezando prejuízos ecológicos imensos. Desapropriar e exterminar índios para transformar tudo em dinheiro é inaceitável. Espero não degustar algum dia as tão valorizadas cédulas ao molho de derivados de petróleo da pior qualidade.

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