Jornal Estado de Minas

Regina Teixeira da Costa

Se a morte é para todos, o desejo não

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Nossa finitude está no horizonte. A morte é para todos. E diante dela, ninguém é exceção. Ricos, pobres, índios, pretos e brancos, tanto faz, somos mortais. Nestes tempos tristes de pandemia, a morte está escancarada. O cotidiano se tornou impregnado por ela. É terrível pensar que esteja tão perto.





Mais próxima que nunca, ronda nossa família, nossos amigos e conhecidos. Está na televisão, nos jornais e nas conversas. Normalmente, evitamos pensar nela e continuamos vivendo, deixando a consciência desta verdade esquecida.

Quem quer saber da morte quando se está tão vivo, na saúde, tudo dando certo, jogando um bolão? Quem quer pensar no futuro quando envelhecermos e precisarmos da ajuda de terceiros, bengalas, cadeiras no chuveiro? A gente sempre empurra para o lado aquilo que nos faz sofrer. Somos ótimos negadores quando se trata de adiar, evitar sofrimentos.

Reclamamos da vida, ela é árdua, mas não queremos perdê-la. Ela é boa, mesmo que sejamos obrigados a trabalhar muito e a lidar com problemas e aborrecimentos. É um processo em constante resolução. Na melhor das hipóteses, teremos muito trabalho para atravessá-la.





Todos vivemos momentos de desânimo e certos problemas parecem sem solução. Nem sempre o final do túnel está à vista. Desistimos temporariamente. Só depois de uma noite bem-dormida recobramos nossas forças e nos colocamos de novo a serviço da vida.

O destino é incerto. Não sabemos o que será o amanhã. As contingências, coisas podem ou não acontecer, o inesperado nos surpreende. Quem não suporta as inconstâncias da vida, costuma se abrigar no consolo do álcool, das drogas. Os efeitos são sempre os mesmos, o efeito esperado sempre vem. E se repete sempre igual. É uma forma de controle do gozo constante, sempre oferecendo mais do mesmo. Como diz a música, navegar é preciso, viver não.

Buscamos nos agarrar a certezas, e estabilizar a vida numa rotina, no entanto, continua incerta a escrita do futuro. Por isso, sofremos ansiedades e angústia existencial. Não é para os fracos, exige coragem. Como seria bom se tivéssemos o controle do tempo, dos fatos, do que virá.





Cada um de nós é único e deve encontrar seu próprio jeito de lidar com o desamparo fundamental, que começa quando nascemos e nos acompanha sempre. E hoje é reforçado pela pandemia, pelo isolamento, pelo perigo que o outro representa como agente de contaminação. É hora de se segurar.

Sendo o futuro incerto, não podemos cair vitimados pelo destino. Se existisse um destino certo para cada um não seria necessário tanto esforço, tanto trabalho, seria apenas deixar rolar, esperar por ele passivamente.

Há quem ouse viver assim, mas o resultado não costuma ser muito favorável. Não podemos nos deixar arrastar como se não fôssemos sujeitos. Toda vida requer de nós autoria. Ser sujeito significa fazer escolhas, apostas e tomar posições mesmo sem garantias.





Cada um de nós tem um desejo único e singular, embora nem sempre saibamos muito sobre ele. Parte dele é inconsciente e precisa ser escutado. Uma vida sem desejo é uma vida perdida, vivida à revelia do destino. Ser sujeito do desejo é uma arte que requer firme delicadeza, alta-fidelidade.

Assim como a morte é para todos, a vida também é. E o desejo é condição que nos permite escolher, construir, deter demandas alheias que insistem em nos distrair. Escutá-lo é imprescindível para que não nos tornemos vítimas do acaso. Se a morte é para todos, o desejo não. Aqui nesta seara só vale o um a um.