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Manter a coesão através de um inimigo comum é estratégia antiga

Em tempos de desalento e desesperança, a tendência é buscar proteção. O discurso do ódio torna-se o ideal para fomentar o sentimento de pertencimento


postado em 03/05/2020 04:00


 
Nós, brasileiros, vivemos dias difíceis. Além da pandemia que nos ameaça e nos isola dentro de casa, longe das pessoas, atravessamos momentos de instabilidade política. Péssimo momento para que isso venha para somar às nossas preocupações que já não são poucas. Não é fácil ver tanta gente perder emprego, passar por dificuldades financeiras, medo do contágio, adoecimento e morte de muitos, perda da nossa liberdade de circulação e isolamento social.
 
Não é pouca coisa, mas é pesado para os que levam a sério as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e acompanham o sofrimento dos menos favorecidos e o trágico dia a dia de países e estados brasileiros, onde a pandemia teve aceleração maior fazendo maior número de vítimas.
 
Outros escolhem a negação ou o risco de enfrentar o vírus sem maiores preocupações, desde que não percam seu dinheiro, não quebrem e não deixem de encontrar amigos, comemorar aniversários e outras datas, talvez seja menos árduo ser alienado, mas é um furo no coletivo. Não queremos o controle policialesco do outro, mas a solidariedade e responsabilidade de cada um. O cuidado consigo e com os outros seria o bastante para tornar o mundo um lugar melhor. Em qualquer época.
 
Agora temos a dupla preocupação, pois estamos com um olho no peixe e outro no gato. De um lado, a saúde e o social; do outro, a nefasta política brasileira. Falta-lhe grandeza, nobreza de alma e elegância. O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, bem disse que “o presidente pode muito, mas não pode tudo”. Boa lembrança em tempos sombrios.
 
Em tempos de desalento e desesperança, a tendência dos grupos é buscar proteção. Nestas ocasiões, o discurso do ódio torna-se o discurso ideal para fomentar o sentimento de pertencimento. Nada une mais do que o ódio a um inimigo comum. Estratégica para fomentar coesão e ganhar adeptos. Em massa. Porém, adotar o oposto como ideal é um equívoco. Um movimento bipolar e sem a reflexão necessária.
 
Manter a coesão através de um inimigo comum é uma estratégia antiga e Freud – em seu livro Psicologia das massas e análise do eu – já descrevia as modalidades de coesão e busca de proteção em grupos artificiais como a Igreja e o Exército.
 
Um líder comum ao qual o grupo se identifica como ideal faz a coesão fraternal àqueles que comungam a mesma fé ou o mesmo ódio. A tendência, então, quando estamos fragilizados, é adotar um líder forte e poderoso, como um pai protetor (igualmente amado e odiado), a quem atribuímos a capacidade de assumir o comando em tempos de crise. E daí o seguimos cegamente.
 
Para quem pensa que estou exagerando, basta ler o julgamento do carrasco nazista descrito por Hannah Arendt ocorrido em Nuremberg. Como jornalista e filósofa, ela foi assistir ao julgamento e encontrar o monstro. Mesmo sendo judia, enfrentou o risco da severa crítica, que de fato ocorreu entre seus iguais, que esperavam dela o massacre daquele réu, quando então defendeu a ideia de ser o carrasco de Auschwitz um homem comum.
 
Pai de família, bom soldado, sob o comando de Hitler seguiu ordens em tempos de guerra. Daí veio de Arendt a clareza da banalidade do mal. Todos temos em nós o bem e o mal e os extremos podem ser atingidos em determinadas circunstâncias.
 
Assim muitos momentos de trevas e extrema-direita usaram o incitamento ao ódio contra um inimigo comum para fazer a coesão, adotando discurso comum aos grupos, sejam eles de classe, religião, esportes, gênero, ou contra os judeus na Alemanha nazista ou o macarthismo e o perigo comunista. Agora, a bola da vez é o antipetismo. Ora, nem toda esquerda é comunista ou petista e é infantil pensar que o diferente é inimigo. O ódio que se seguiu em outros tempos de desamparo mostrou que as consequências foram trágicas para a humanidade.
 
Temos de manter a capacidade de discernimento que nos conduz ao pensamento que admite o múltiplo, o diferente, o incompleto, as incertezas a serem admitidas como o possível. Não existe verdade única, como querem os autoritários que tentam excluir toda discordância. E por isso derrubam qualquer um que discorde. Assim cairão todos que não disserem amém.

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