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Estado de Minas EM DIA COM A PSICANáLISE

Miserê geral: é intrigante a negação da realidade, a alienação

Muitos grupos têm iniciado campanhas para assistência a moradores de rua, mas é preciso que haja um trabalho mais bem estruturado e com investimento de reinserção, não apenas abrigos


postado em 22/09/2019 04:00 / atualizado em 20/09/2019 13:57


 Tenho me deparado com barracas montadas nas calçadas debaixo de marquises, na frente e na rua de trás do Ministério Público. Em uma delas, na Avenida Álvares Cabral, reside um casal. A mulher, de gravidez avançada. Deixam a barraca montada dia e noite.

A outra barraca, na rua de trás, Dias Adorno, também está montada.  Roupas e objetos estão espalhados ao redor. Um canteiro, onde havia uma árvore, agora é uma hortinha com couve, hortelã, alecrim, alface. Adubada com terrinha boa.
Também no Centro da cidade à noite, debaixo de prédios com marquises, estão se preparando para dormir moradores em maior número a cada dia. Muitos. Esta cena que retorna de um passado não tão distante se espalha em vários pontos da cidade. É o sintoma de uma cidade que padece.

Onde há fumaça, há fogo, disse Freud. É triste. A pobreza aumentando. Não é preciso consultar dados, nem fazer pesquisas ou números para compreender.

Pessoas estão perdendo suas casas, deixando de pagar suas contas, ficando sem saída. Ninguém escolhe viver ao relento. E me pergunto: o que a cidade fará por estas pessoas, além de olhar para elas com indiferença? Olhar e não ver. Elas fedem. Elas mostram a doença da sociedade. Elas revelam a crueldade e a discrepância dentro de uma sociedade: entre os que têm e os que não.

Não é à toa que o mundo desabou quando um procurador da União disse que seu salário é um miserê e quer aumento logo. Como perder o bom senso e apartar-se da realidade tão próxima que o cerca?

Mas é assim mesmo. Quanto mais tem, mais quer. Muitas pessoas são insatisfeitas em suas ilhas, isoladas, em seus sonhos e fantasias ilimitados. Pessoas se habituam ao um nível de vida alto e como nunca se satisfazem sempre há tanto por comprar, fazer, pagar, perdem a noção.

O que causa espanto é que bem diante do seu trabalho, a realidade crua e nua está à vista. Certamente, o procurador entra pela garagem e não se sensibilizou com a visão do horror.

Ainda não vimos voltarem para as ruas meninos e meninas que já foram um grande problema para nossa cidade. Espero que esta ferida esteja definitivamente cicatrizada, restando apenas na memória de quem assistiu à sua passagem dolorosa pelas calçadas e sinais de trânsito.

No entanto, como retornam moradores de rua, se não houver medidas imediatas, pode ser que o retrocesso seja completo. Muitos grupos têm iniciado campanhas para assistência dessas pessoas na rua, mas é preciso que haja um trabalho mais bem estruturado e com investimento de reinserção, não apenas abrigos.

Trabalho, escuta e acolhimento. È intrigante a negação da realidade, a alienação. O que incomoda é apartado daquilo que está óbvio diante de nossos olhos. É compreensível nos defendermos daquilo que nos faz sofrer, porém não podemos nos esquecer que existem outros, nossos semelhantes.

Principalmente nos admira tal indiferença vinda das autoridades que deveriam zelar e defender a população carente. E agora nem estou falando do procurador, estou falando do Estado, da prefeitura, que, inclusive, tem um departamento exclusivo para população em situação de risco e moradores de rua.

Talvez a coisa esteja tão séria que o trabalho feito nem aparece diante de tamanha demanda. Fica aqui uma convocação, um apelo para olhar para essas pessoas, restos de gente jogada ao vento, que compõem o sintoma de nossa cidade. E nisto estamos todos implicados, afinal não somos uma sociedade?

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