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Estado de Minas EM DIA COM A PSICANÁLISE

Beijo na boca influencia na escolha de gênero?

A resposta é não! O que decide sobre isto é a vida familiar e a tendências da própria criança na escolha, forçada e inconsciente, que ela faz ainda na infância e é confirmada na adolescência


postado em 15/09/2019 04:00

Youtuber Felipe Neto arrematou 14 mil livros com temática LGBT na Bienal do Rio e distribuiu os exemplares gratuitamente (foto: Felipe Neto/divulgação)
Youtuber Felipe Neto arrematou 14 mil livros com temática LGBT na Bienal do Rio e distribuiu os exemplares gratuitamente (foto: Felipe Neto/divulgação)


Para falar francamente, nunca fui muito fã de Felipe Neto. Um Youtuber que faz muita palhaçada, fala muito palavrão e a cada 100 mil seguidores pinta o cabelo de outra cor. Já teve cabelo verde, rosa, roxo, vermelho, amarelo. Imaginem quantoS seguidores tem.

Seu público são crianças e adolescentes. Os pais das crianças ficam apreensivos pelo conteúdo impróprio, nada pedagógico. Muitos proíbem seus filhos de assistir a ele. Desde o começo de sua carreira, não foi considerado boa influência. O próprio pai pediu que não falasse palavrões nos seus posts e ele acatou.

Seu faturamento é milionário e trabalha com seu irmão Lucca Neto. Falam da bunda da Anitta, fazem bobagem com Nutella, têm umas músicas de autoria e é isso. Ele vai na contramão dos bons costumes e educação e sua irreverência é impactante.

Recentemente, no entanto, deu uma bola dentro. Quando o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, travou uma briga irracional contra a Bienal do Livro por causa de livros LGBTAQ+ ameaçando recolher todos, Felipe Neto acabou com a briga arrematando 14 mil exemplares para doá-los.

Bastava o prefeito solicitar avisos nas capas dos livros sobre o conteúdo impróprio para menores. Suas atitudes fizeram alarde e tornaram a coisa gigante, fazendo muito propaganda do produto. Efeito contrário: promoveu o livro que queria censurar. É mole? O caso ganhou notoriedade imensa. Um desastrado! A fila rodou quarteirão.

Pais podem e devem controlar o que os filhos consomem segundo seus valores. Até aí estaria tudo resolvido, bastando um selo de “conteúdo impróprio para menores” na capa. Resolvia sem confusão.

E, falando sério, se beijo na boca é pornografia, então deveria ser censurado entre héteros também. Em qualquer hora do dia, a TV exibe filmes de casais quase fazendo sexo. E seria impeditivo assistir TV, e até andar na rua em certas regiões mais frequentadas pelo público LGBTAQ , e o que vemos é que quando tem Banda Mole o povo vai, lota e é cheio de crianças.

Uma pergunta boba, mas necessária: beijo na boca influencia na escolha de gênero? Não! O que decide sobre isto é a vida familiar e a tendências da própria criança na escolha, forçada e inconsciente, que ela faz ainda na infância e é confirmada na adolescência. E nem sempre a escolha concorda com o gênero com o qual viemos ao mundo. É fato consumado. E não tem cura porque não é doença. Freud dizia isto há mais de século.

Portanto, toda esta confusão poderia ter sido evitada, mas ela é boa para que possamos formar nossa opinião e refletir sobre tudo que vem ocorrendo atualmente. Outro dia, ouvi uma citação do escritor português José Saramago muito apropriada: obscena é a fome. Homossexualidade não.

Obsceno é o desmonte do respeito ao direito à diferença e a intolerância que hoje faz compatriotas se odiarem sem aceitar senão sua própria opinião, diminuindo aquele que toma outro partido.

Obscena é a falta de investimento na educação e na cultura, é ver as crianças sem ensino de qualidade, sem serem preparadas para o futuro. É ver cada dia mais pessoas dormindo na rua ao relento e os políticos botando pedras pontiagudas debaixo dos viadutos para desalojar seres humanos em situação de risco.

Obsceno é vermos desmantelar o Instituto de Ciências Biológicas da UFMG por causa dos cortes das bolsas de estudo das agências federais. Uma coisa foi muito boa nesta polêmica: mostrou que o brasileiro sabe resistir e se posicionar deixando claro que não aceitaremos retrocessos, censuras, torturas, preconceitos, porque são eles a verdadeira obscenidade. E parabéns ao Felipe Neto, desta vez mandou bem.


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