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Estado de Minas EM DIA COM A PSICANÁLISE

Tudo é público, onde andará o privado?


postado em 18/08/2019 04:00 / atualizado em 16/08/2019 13:43


 
Muita gente busca o sucesso atualmente. A afirmação de que a propaganda é alma do negócio colou de tal maneira que o mundo hoje gira em torno dela. Só mudou o formato. Se antes a propaganda se restringia à mídia tradicional – rádio, jornais, televisão, outdoors, revistas etc. –, hoje, com as redes sociais e a internet, faz-se propaganda de modo caseiro e gratuito, e não se divulgam apenas ofertas de objetos de consumo, mas se autodivulga.

O exibicionismo alcançou grande parte dos internautas na rede. A inibição sumiu da cena, pouco se vê recato, que era virtude em outros tempos. Não quero com isto apenas criticar, mas ressaltar quanto o mundo mudou, quanto os costumes foram avançando. Hoje, cada um vende seu peixe, seu look, faz seu negócio andar.

Tem seu lado bom. O trabalho sofre uma mutação significativa e cada um pode viver do seu jeito e vender seu produto fomentando o mercado informal. Tudo que escrevemos, inventamos, tecemos, pintamos e bordamos é possível expor, e a internet nos leva ao mundo e ao outro.

Está tudo à nossa disposição: dicionários, enciclopédias, curso de línguas, viagens, e isto é incrível. Quando poderíamos imaginar isso nos anos 90? Nem celulares tínhamos ainda! Computadores, internet e todos os progressos que acompanharam esta revolução de um mundo real para um virtual.

Mas quando é exibição, não sei o que se pode ganhar. Talvez uns fãs, sentir que não estamos sozinhos, encontrar outros tão perdidos quanto nós, ser amado por todos, ser descoberto e bombar, ser contratado na Globo, fazer sucesso, ser uma celebridade... Tudo isto ou nada disto pode ser. Talvez ser desejado... Desejamos aquilo que falta. O que já temos não desejamos.

Meu avô dizia: galinha na manguara não tem preço. Manguara era uma vara comprida que vendedores ambulantes da roça traziam nos ombros com galinhas penduradas pelos pés para vender em praças e centros das cidades próximas. E ele dizia que traziam ali as de pior qualidade. É mesmo lei de mercado: o mais valioso é o mais raro ou caro e o muito ofertado é o barato, sem valor. Ele dizia isto para que as moças da família não fossem oferecidas demais se desvalorizando perante o outro!

Então vemos que a coisa está estranha... O meu avô “tá” por fora hoje em dia, também seu tempo era outro, ou de fato a coisa mudou muito. Mostra-se nas redes o próprio estilo, a beleza, o bom gosto, o trabalho, o pensamento, a casa, o carro, aonde se vai, a casa do outro, o que se come e se bebe, as viagens. Tudo é público, onde andará o privado?

Mostra-se nada de grande qualidade, frequentemente de nenhuma. Apenas acredita-se que a exposição nas redes, na mídia pode trazer alguma vantagem. Fazer sucesso... Sucesso faz multidão, ajuntamento, todo mundo quer.

Nosso caso aqui na psicanálise vai na direção oposta. Ninguém quer saber de coisas que são tão importantes para nós, psicanalistas. Tipo a verdade que se esconde. Aquilo que causa nossos sintomas e,  às vezes, os preferimos a ir nos tratar. E desta verdade só podemos saber um pouco, só podemos dizer meias verdades, pois nunca desvelaremos todo o inconsciente. Nem nós mesmos sabemos ou desejamos saber sobre nós. Estamos privados da verdade toda. Aqui encontramos o privado escondido.

Trabalhamos com o fracasso. Somos feitos para registrar os fracassos e partimos dele no nosso trabalho. Quando tudo falha e precisamos falar sobre isto, aqui está a escuta do que não deu certo ou que não caminha bem.

Nosso sucesso está no resultado. Naquilo que aqueles que se beneficiam dele veem e devem agradecer a si próprios por terem buscado tais resultados no trabalho analítico. Porque ele inverte certas lógicas especulares. Quando dissermos coitados, dos outros, estaremos falando de nós próprios e esta é a autenticidade de nossa navegação.

Aqui, quando colocamos a voz é para esvaziá-la da substância, da armadilha do sentido e recolocar as coisas no lugar. Não que haja lugar certo para cada coisa. Não há. A saída de cada um é única, não padronizada, e virá certamente da escuta da palavra, do significante, mas não na via do sentido – o que seria interminável metonímia –, mas da sonoridade.


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