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Estado de Minas

Democracia requer oposição consciente

Mesmo diante de declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro, é preciso evitar comportamentos radicais e autoritários, que não respeitam diferenças


postado em 11/08/2019 04:00 / atualizado em 09/08/2019 13:37






Depois da agitada semana passada, no que tange às declarações do nosso presidente, é inegável a necessidade de parar e pensar. Tanto os de esquerda quanto os de direita. Esta oposição seria salutar e bem-vinda, caso não tivesse provocado comportamentos radicais e autoritários que não respeitam diferenças. A democracia requer oposição. Manifestações são necessárias, odiosidade não!

Presenciamos um fenômeno no Brasil sem precedentes: o desencadeamento de grande contingente agressivo incomum ao brasileiro considerado pacato e pacífico. Talvez alienado... A partir da última campanha eleitoral e das eleições, uma disputa apaixonada tomou conta das redes e relações sociais. A bipolaridade dos diferentes posicionamentos despertou fortes reações, causando perdas e prejuízo nas amizades, brigas acaloradas entre irmãos e grande parte da população.

As brigas são bizarras e grosseiras, desrespeitando os limites da boa educação até para discordar. Motivados pelo ódio ao PT, sem melhor opção, elegeu-se Bolsonaro. E assim, com sedutora quebra de vários paradigmas nas campanhas tradicionais, ele ganhou a simpatia dos insatisfeitos. E eram muitos.

De fato, os brasileiros estavam estressados com os erros da esquerda, que frustrou as expectativas e promessas de campanha caindo na velha forma de fazer política, sem conseguir conter a corrupção, embora tivesse mantido um olhar para o social e as humanidades e o respeito às diferenças. Mas não bastou.

Erros sucessivos na condução do governo abriram brechas profundas e levaram o fenômeno Bolsonaro a vencer a campanha com a promessa de acabar com a velha política viciada e varrer da cena brasileira gastos de campanha, toma lá dá cá, respeito à democracia e à Constituição. Nomeações somente restritas à competência técnica do representante de cada pasta.

Como se vê campanha é campanha, realidade é realidade. Não que eu não torça pelo Brasil. Sim, quero que dê certo. Jamais torceria pelo fracasso da oposição, pois está em jogo muito mais que partidos. Está em jogo o futuro do Brasil, das nossas crianças, do planeta que sofre um momento único e que, sem reversão de valores e educação voltada para a crise que enfrentamos, vamos todos caminhando para a autodestruição.

Pode parecer conciliador meu discurso. Não entremos na pilha. Mas critiquemos inteligentemente: ir contra a Constituição, não promover indicações por critérios técnicos de competência comprovada para representar o Brasil no exterior, admitir agrotóxicos em momento preocupante com a ecologia mundial, afirmar que crimes nos anos de ditadura são balelas e admitir saber muito bem o que houve com Felipe Santa Cruz desrespeita a memória de todas as vítimas e suas famílias.

Não reconhecer e apoiar o trabalho técnico do Ibama, atropelar instituições sobre a demarcação de terras indígenas, desmatamentos, etc., e todas estas falas assustadoras e inadequadas, mesmo com retratações depois, é passar do ponto. Mesmo os que votaram e defendem Bolsonaro precisam admitir que alguma coisa não anda bem. Enquanto brigamos aqui por estas declarações chocantes vindas de um presidente, nos esquecemos de ver o que se passa atrás do pano.

Ainda, vergonha alheia pelas declarações do ministro Weintraub, desconhecedor da importância nacional e internacional de Paulo Freire nos arrepia e extrapola limites do aceitável. Até agora na educação básica nada! Em que retrocesso nos metemos. Ora, para ser autoridade reconhecida publicamente, é preciso postura, preparo. Não se adquire competência porque caiu nas redes sociais. 

Além dos protestos de Fernanda Young, sem ânimo até para se levantar, e Eliane Brum, muitos menos esquerdistas que as duas levantaram suas vozes. “Doentes do Brasil” é novo diagnóstico para aqueles que apresentam extrema ansiedade e ou depressão, demandam longas consultas, precisam falar, depois da polarização e do incitamento à violência que vêm ocorrendo no Brasil, comenta Brum sobre o relato de um médico. 

Encerro hoje com a nota de repúdio dos Psicanalistas Unidos pela Democracia: contrários às declarações de ataque a verdades históricas, promoção e incitação ao ódio, violência, desrespeito a cidadãos que lutam pela democracia no Brasil. Defendem mulheres, negros, índios e os LGBTQ+, ocultação da verdade histórica, exoneração de membros da Comissão de Mortos e Desaparecidos, colocando correligionários em seu lugar. E contra tudo que desumaniza, chamam a política atual de necropolítica, movida pela pulsão de morte, anunciando consequências devastadoras para a sociedade brasileira. Como escreveu Baptista Chagas de Almeida, em sua coluna de 3 de agosto, neste jornal: “Basta!”.


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