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Estado de Minas

Brasil segue aos trancos e barrancos na recessão do coronavírus

Em meio à polêmica sobre a quarentena, PIB do país pode perder até R$ 517 bilhões com a crise da COVID-19


postado em 07/04/2020 04:00 / atualizado em 07/04/2020 08:37

Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz defende isolamento social como forma de preservar vidas e a economia (foto: Euller Júnior/EM/D.A Press 31/3/06)
Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz defende isolamento social como forma de preservar vidas e a economia (foto: Euller Júnior/EM/D.A Press 31/3/06)

Deus sabe como, mas vai. De um lado, os dados mostram um Brasil parado, com vários locais que há pouco borbulhavam a mil por hora entrando em paralisia geral, tais como escolas, salões de beleza, bares e restaurantes, atividades de lazer etc., onde em muitos as vendas acabam de desabar pela metade em relação ao ano passado. Mesmo naqueles tidos como essenciais elas vêm mostrando quedas expressivas. A tendência que se teme desse lado é que a iminente depressão se aprofunde e se transmita para vários segmentos, causando muito desemprego e desalento.
 
Para medir esse efeito, pode-se usar a apresentação do Presidente do Banco Central em evento recente, onde dados levantados pela The Economist comparam a previsão anterior de crescimento do PIB (2,4%) com a mais recente (-5,5%), implicando perda de produto em face das políticas atuais da ordem de 7,9 pontos de porcentagem do PIB, ou R$ 571 bilhões. Essa seria uma medida aproximada do impacto negativo das políticas seguidas atualmente na economia como um todo.
 
O grande drama dessa estória, conforme alegam os críticos, é que o único jeito de uma pessoa ser imunizada na presença do COVID-19, felizmente não tão agressivo como muitos pensam, é ser por ele infectado, já que não houve ainda tempo hábil para produzir a vacina respectiva, nem para surgirem remédios específicos contra ele. Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar... Como escolher entre “pegar” e “comer” é que é o drama.
 
Nesse sentido, a quarentena horizontal atualmente aplicada, ainda que possa evitar óbitos maiores no curto prazo num sistema hospitalar aos escombros como o nosso, apenas adia o processo de “depuração das mazelas”, sendo que, no nosso caso atual, há o agravante de o inverno estar à espreita, pois se dá entre maio e julho, exatamente quando vem a segunda fase do processo de “purgação” do vírus, quando a hipótese alternativa de “intervenção vertical” já teria passado. Muitos não sabem, mas o vírus “adora” temperaturas abaixo de 20 graus. Sob essas, ele se propaga mais rapidamente, como já amplamente demonstrado.
 
Entre economistas, a defesa da quarentena horizontal é ampla, como a de domingo no Estadão pelo eminente Joseph Stiglitz, professor americano em campanha de divulgação de seu último livro, para quem “a economia será devastada se não salvarmos as pessoas” e, para ele, somente esse tipo de instrumento, ao que se depreende, poderá salvar.
 
Criticando fortemente os presidentes do Brasil e dos EEUU, Stiglitz, que tem se posicionado contra governos supostamente “neoliberais” nos EEUU, parece pensar que, sem quarentena generalizada, mais adiante “as pessoas não irão ao restaurante, ficarão nervosas quanto a ir ao trabalho, não vão voar por aí, haverá medo no ar.” Daí sua proposta de “colocar a prioridade nas pessoas e controlar a pandemia”. É de se depreender que ele não esteja falando de todas as pessoas que estão sendo afetadas pela profunda recessão em curso, mas seu foco, como o de muitos, seria sobre as que estão na faixa que excede a capacidade instalada dos hospitais.
 
Já os defensores da estratégia de distanciamento, lembram que os países bem-sucedidos no enfrentamento da crise do Coronavírus têm sido exatamente os que adotaram procedimento nessa linha, tais como a China (fora Hubei), Japão, Coreia do Sul, Singapura, Malásia, Austrália, Suécia e Holanda. O caso de maior destaque é Hong-Kong, com 700 pessoas afetadas e escolas funcionando. Nesse último caso, a distância mínima estabelecida entre as pessoas é de 1,5 metro e todos são obrigados a usar máscaras.
 
Uma variante que tem sido discutida é a de colocar os participantes dos grupos de risco (idosos e acometidos de doenças graves), com diagnóstico positivo após testagem, em hotéis, hoje vazios e a partir daí pagos pelo governo. Três semanas depois (período de inoculação), novo teste, se dessa vez negativo, permitiria sua volta para casa, e substituição por outra família. E assim por diante.
 
Concluo destacando que um velho problema começa a reaparecer no caldo da recessão atual, a quebradeira dos estados e municípios, que na verdade vem de longe, conforme tenho mostrado em minhas colunas. Em que pese a ajuda concedida há pouco a esse grupo, ficou faltando levar em conta a forte queda da arrecadação de tributos que já está ocorrendo. Diante disso, há um movimento de governadores pressionando por compensação financeira em face dessa queda, e há assembleias que já aprovaram a suspensão de pagamentos por parte dos pagadores de impostos. É realmente uma pena, mas a pesada recessão em que estamos imersos tem esse e terá outros subprodutos indesejáveis. Como eterno preocupado com o equilíbrio das contas públicas, vejo agora um grande risco de uma maior derrocada do abalado orçamento público, em face de perdas financeiras expressivas como essa e outras que infelizmente ainda virão.

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