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Desemprego pós-pandemia terá redução difícil de ser obtida

Nada garante que a economia terá fôlego para conter o universo de 13,5 milhões de desempregados, o que exige uma equação para o fim do auxílio emergencial


27/10/2020 04:00 - atualizado 27/10/2020 07:29

Posto do Sine-MG em BH: (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press - 2/1/20)
Posto do Sine-MG em BH: (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press - 2/1/20)

Entre as consequências da crise do coronavírus, duas se destacam na economia brasileira, tanto pela gravidade de cada uma, quanto pelo fato de exigirem medidas que se contrapõem. Da primeira delas já se pode medir o tamanho. Trata-se do rombo fiscal causado pelos gastos de mais de R$ 800 bilhões, que foram responsáveis por empurrar a dívida pública dos 75%, no começo do ano, para perto de perigosos 100% do Produto Interno Bruto (PIB) até o início de 2021.

Esse nível de endividamento é, para países subdesenvolvidos como o nosso, um abalo na confiança dos emprestadores de dinheiro nacionais e estrangeiros. Além disso, pressões políticas em favor de trocar a austeridade fiscal pelo aplauso popular (ruidoso, porém, passageiro) só faz alimentar ainda mais o medo do eventual calote da dívida pública.

Essa situação extrema não está à vista, mas o mercado financeiro procura se antecipar e isso tem custo para o tomador do crédito. A aversão ao risco Brasil pode não estar à vista do cidadão comum, mas é cada dia mais clara nos implacáveis medidores da crença do capital na capacidade de o governo honrar sua dívida.

Por causa dessa desconfiança, o governo não vem conseguindo emitir títulos de longo prazo e, para não ter de pagar taxas muito altas, o Tesouro tem sido forçado a se financiar no mercado de prazos mais curtos. Isso concentra vencimentos, criando um calendário de preocupações.

A saída ideal desse aperto financeiro seria o aumento da arrecadação tributária, como consequência da retomada mais rápida e consistente da atividade econômica ou mesmo de um eventual aumento de impostos. Mas a primeira hipótese depende do investimento na economia, hoje inibido pela baixa confiança do setor produtivo. Já a segunda opção, a do aumento da carga tributária, é hoje politicamente inviável.

Desempregados

De qualquer modo, o governo precisa encontrar um meio de financiar a solução para a segunda herança maldita, a do desemprego pós-pandemia. Não se sabe ainda quantos brasileiros estarão desocupados no início de 2021, mas é certo que não serão poucos. Uma ideia foi dada pelo pagamento do auxílio emergencial, que beneficiou cerca de 67 milhões de pessoas, ao custo de R$ 50 bilhões mensais.

A dúvida que dificulta o planejamento é saber qual o verdadeiro impacto do fim desse auxílio, ainda que seu valor unitário tenha sido reduzido a R$ 300. Na semana passada, o IBGE divulgou os resultados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Continua, mostrando que, em setembro, o número de desocupados no país somava 13,5 milhões. O resultado supera o de agosto, que tinha sido de 12,9 milhões.

O mais provável é que esse indicador continue subindo, não por aumento do número de demitidos, mas porque mais desocupados estão voltando a procurar emprego (esse é o critério técnico usado pelo órgão). Essa retomada da procura por uma colocação no mercado de trabalho pode ser explicada pela reabertura parcial das atividades econômicas.

Faz sentido. Em outra pesquisa, essa relativa a agosto, o IBGE constatou melhora na percepção das empresas em relação aos efeitos da pandemia. No universo de 3,4 milhões de empresas ouvidas, caiu de 38,6% para 33,5% o número das que perceberam impactos negativos sobre os negócios entre a primeira e a segunda quinzenas daquele mês. Nas demais, a percepção variou de estável para positiva.

Esse resultado é bom, mas ainda não autoriza projetar um crescimento acelerado da economia e do emprego a partir da virada do ano. Ninguém pode garantir que o assustador número de desocupados gerado pela pandemia terá rápida redução com a retomada em “V”, em “U” ou em qualquer outra letra do alfabeto.

Por isso mesmo, é inegável a necessidade de se prepararem soluções para quando o fim do auxílio emergencial passar a conviver com uma multidão de desocupados. Qualquer solução terá de ter duas frentes: uma, urgente, a outra, duradoura. A urgente, já sabemos, terá de ser um substituto para o auxílio emergencial. Há alternativas em estudo, mas, dificilmente, será possível manter o nível de gastos do benefício anterior.

Trapalhadas

A solução duradoura poderá tomar a direção de facilitar, isto é, baixar o custo da criação de empregos no país. Ideias nesse sentido não faltam. Uma delas, defendida pelo Ministério da Economia, é a troca de atuais contribuições e taxas por um novo tributo especialmente destinado a financiar a perda da arrecadação previdenciária decorrente da pretendida facilitação, sem, é claro, qualquer aumento da carga tributária.

Sim, isso pode ajudar. Mas o que se espera é que o governo não caia na tentação de atender aos apelos da política eleitoral, partindo para mais endividamento e fugindo do compromisso com o ajuste fiscal. A retomada da agenda de reformas, de privatizações e concessões será muito mais produtiva para o retorno ao crescimento sustentável. Abandonar esse projeto e repetir as trapalhadas fiscais que há cinco anos afundaram o país será perder de vez a confiança do financiador privado. Será voltar ao abismo da recessão, desta vez, muito mais longa e profunda.

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