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A revolução dos juros poderá ser comparada ao fim da hiperinflação

Estamos financiando menos a expansão do Estado e mais a da empresa privada. Isso é um ganho para a economia em geral, pois capitaliza as empresas sem endividá-las


postado em 07/01/2020 04:00 / atualizado em 07/01/2020 07:44

(foto: Divulgação/Banco Central)
(foto: Divulgação/Banco Central)
Muitos brasileiros ainda não se deram conta de que o país está na cabeceira da pista de decolagem para uma das mais importantes revoluções já ocorridas em sua economia. Talvez entretida com notícias e debates sobre temas que, em última análise, interessam mais a essa ou àquela minoria, a parcela majoritária da sociedade ainda não sabe que, em breve, será chamada a defender uma conquista tão valiosa quanto foi a do fim da hiperinflação nos anos de 1990.

É claro que a novidade atual não tem o mesmo apelo popular e a obviedade da enlouquecedora disparada dos preços em decorrência da inflação superior a 2 mil por cento ao ano daquela época. Mas, uma vez entendida a extensão de seus efeitos sobre a aceleração do crescimento da economia que ela pode proporcionar, a taxa básica de juros com a qual fechamos 2019, 4,5% ao ano, será registrada em todos os futuros manuais decentes de política econômica.

Por enquanto, não adianta consultar velhos alfarrábios, pois não temos experiência de lidar com essa realidade. Descontada a inflação prevista para 2020 (em torno de 3,6%), o que sobra é um juro real igual ou inferior a 1% ao ano, absolutamente inédito entre nós, embora recorrente em economias desenvolvidas. Há países em que essa taxa é zero ou até mesmo negativa. Como se sabe, a taxa básica de juros, conhecida no Brasil como Selic, é o mínimo que o governo paga a quem compra títulos da dívida pública. É a partir dela que os bancos definem os juros dos empréstimos.

Vale lembrar que os juros obscenos pagos pelos tomadores de crédito na década de 1990 partiam de uma taxa Selic de 10% reais (já descontada a inflação) ao ano, o que, além de realimentar o aumento de preços, tornava quase proibitivo o custo do dinheiro para a indústria produzir qualquer coisa ou para o comércio formar estoque de mercadorias. Na década passada, o descontrole fiscal e as ingerências desastradas do governo na economia provocaram inflação e obrigaram a autoridade monetária a manter alta a taxa de juros.

Porém, desde o ano passado, quando a inflação oficial ficou abaixo da meta anual, os agentes econômicos perceberam que o Banco Central caminharia para a redução da Selic. Era hora de retomar projetos que demandariam crédito, pois essa situação seria duradoura, uma vez que não fora resultado de voluntarismos, canetadas ou tabelamentos.

PREÇO POLÍTICO


É certo que parte desse cenário se deve à queda geral da demanda agregada, mas erra quem não vê nada além disso. Na verdade, o país vem colhendo os frutos de uma política monetária tecnicamente correta e apoiada por severo controle fiscal.

A contenção do gasto público custa sempre um alto preço político, o que inclui a má vontade de boa parte de políticos mal acostumados a “negociar” seu apoio aos projetos mais urgentes. Disposto a pagar o preço do desgaste, o governo tem mantido os cintos apertados, além de perseguir, na velocidade possível, uma agenda de reformas difíceis.

O insustentável e injusto sistema de aposentadorias foi o alvo da primeira reforma, aprovada após nove meses de tramitação, graças ao apoio majoritário da sociedade, que repeliu as sabotagens armadas no Congresso. Seus efeitos financeiros se darão ao longo dos próximos anos, mas, desde já, sua aprovação foi o sinal de que, finalmente, o Brasil decidiu modernizar o Estado, corrigir distorções e abrir espaço para a iniciativa privada.

Os primeiros resultados da redução da Selic foram sentidos na expressiva queda do gasto com os juros da dívida pública. Metade dessa dívida é corrigida pela taxa básica de juros e tem prazo de 12 meses, ou seja, o giro é rápido: só no ano passado, foram economizados R$ 69 bilhões (o dobro da verba do Bolsa-Família), em comparação com os juros pagos em 2018. Para 2020, o Tesouro projeta economia de R$ 120 bilhões, também em relação aos juros da dívida pagos em 2018.

MAIS EMPREGOS


Mas, é no setor privado que se esperam os maiores impactos. Desde já, a queda da taxa básica de juros é uma das explicações para a corrida às ações cotadas na Bolsa de Valores de São Paulo. Percebendo o fim do longo período de ganhos fáceis na renda fixa, os investidores aceitaram correr o risco inerente ao capitalismo moderno. A B3 registra uma verdadeira escalada de compras, empurrando o seu índice para inéditos 115 mil pontos.

Significa que estamos financiando menos a expansão do Estado e mais a da empresa privada. Isso é um ganho para a economia em geral, pois capitaliza as empresas sem endividá-las, permitindo que elas invistam em modernização, expansão e contratação formal de mão de obra.

Mas, que ninguém se iluda. Estamos só no começo da revolução dos juros baixos, e partes poderosas do Brasil antigo ainda conspiram para barrá-la, seja sabotando as reformas que ainda precisam ser votadas, seja criando armadilhas para obrigar o governo a gastar mais com os “doutores” do Estado, em prejuízo da sociedade. Fiquemos atentos.

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