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O bom e o necessário

Na hora da verdade, sabotar o debate da reforma apenas por mesquinhas razões partidárias será irresponsabilidade que uma maioria ainda mais expressiva que a de outubro vai cobrar nas próximas urnas


postado em 15/01/2019 07:00 / atualizado em 16/01/2019 09:01

Aprendemos com nossos avós que acostumar-se ao que é bom todo mundo consegue. É tão fácil e rápido que logo deixamos de dar valor ao que conseguimos. O pior vem em seguida: tendemos a esquecer rapidamente o quanto foi difícil conseguir aquilo que nos dá conforto, bem-estar, segurança.


Na semana passada, o Brasil ficou sabendo que 2018 tinha sido o segundo ano seguido de inflação baixa: 3,75%, um pouco acima dos 2,95% registrados em 2017, mas ainda bem abaixo da meta do governo de 4,5%. Poderia ter sido ainda melhor, não tivesse a greve dos caminhoneiros provocado no meio do ano uma elevação fora do comum nos preços dos alimentos.

Esse desempenho, confirmado pelo IBGE na sexta-feira, foi algo que, para os padrões brasileiros, deveria ser comemorado, mas passou quase batido. É claro que o crescimento ainda pífio da economia está longe de baixar pra valer o desemprego e devolver a capacidade de consumo perdida por milhões de brasileiros vítimas diretas da recessão. Ainda assim, manter a inflação sob controle, apesar dos recentes sustos vindos do câmbio, foi um feito do qual a equipe que acaba de assumir democraticamente o governo será devedora.

Se problemas não faltam para destravar a economia daqui para frente, a questão da perda do poder de compra dos salários está fora do radar. Tem mais duas vantagens que, embora menos notadas pelo comum dos mortais, são importantes para as contas do governo e para incentivar a retomada dos negócios e dos empregos. Ambas estão atreladas ao custo do capital, isto é, à taxa de juros. Dito assim parece complicado para quem não tem a estranha mania de acompanhar os meandros da economia, mas é tão simples quanto uma receita de bolo.

A equipe que esteve à frente do Banco Central nos últimos dois anos praticou uma política monetária sem desatinos nem voluntarismos e conseguiu baixar, sem retrocessos, a taxa de juros (Selic) de 13,75% ao ano para 6,5% ao ano. Essa posição foi conquistada em maio do ano passado e, desde então, vem sendo mantida. A boa notícia é que ela assim deverá ficar nos próximos meses.

Onde estão as duas vantagens? A primeira está na redução progressiva das taxas de juros do crédito tanto para o consumidor como para o empresário que pretende ampliar seu negócio. A segunda tem a ver com o pesado gasto do governo com o serviço da dívida pública contraída para cobrir o rombo provocado pelas despesas maiores que receitas.

Faces do populismo


Por esses dados, o leitor menos afeito aos labirintos da economia já pode perceber quão nefasta pode ser uma administração que menospreza a necessidade do controle da inflação. Além de ser um mal que afeta mais o pobre do que o rico, mais dia menos dia ela acaba causando danos à economia do país. A inflação é uma das faces do populismo, afinal, é mais fácil ser aplaudido por desconhecê-la do que por combatê-la por meio de políticas monetárias mais apertadas.

A inflação sem controle só não é pior do que a irresponsabilidade fiscal. É, aliás, dessa outra face do populismo que os brasileiros mais padecem hoje. Resume-se no hábito de o governo gastar mais do que pode para agradar a um número cada vez maior de eleitores, gerando com isso verdadeiros rombos (déficits) no Tesouro Nacional.

Como o dinheiro ainda não nasce em árvores, esses excessos de gastos têm de ser cobertos por empréstimos que precisam ser pagos com juros. Em períodos fortemente recessivos essa irresponsabilidade tem consequências agravadas pela queda na arrecadação de impostos, obrigando o governo a contrair mais dívidas para cobrir as despesas que não foram cortadas. Com isso, a dívida só aumenta e já passa dos R$ 5,2 trilhões (76% do PIB).

Hora da verdade

Não há como manter a expansão desse endividamento sem sofrer restrições no mercado internacional de crédito. Isso quer dizer que nossos importadores e exportadores terão de pagar mais caro para fazer suas operações do dia a dia. E tanto o governo como as empresas privadas do Brasil terão acesso cada vez mais restrito ao mercado mundial de crédito.

No plano interno, o desequilíbrio fiscal (causador desse endividamento) é cada vez menos tolerável e tem sido a principal trava à retomada do funcionamento normal da economia. De longe, o maior peso nessa conta (já que as despesas com juros não entram aqui) é o das aposentadorias, principalmente as do regime próprio do setor público.

Resumo da ópera: o bom resultado da inflação pode evaporar se a sociedade brasileira perder mais uma vez a chance de enfrentar seu maior desafio na economia: a reforma previdenciária. O novo governo fará em breve sua proposta. Que todos, incluindo os representantes da oposição, apresentem críticas e sugestões em busca do consenso. Na hora da verdade, sabotar o debate da reforma apenas por mesquinhas razões partidárias será uma irresponsabilidade que uma maioria ainda mais expressiva que a de outubro vai cobrar nas próximas urnas.


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