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Estado de Minas

Do vírus corona ao virulento colapso

Três colapsos ameaçam nosso futuro. É hora de tentarmos prever até o imprevisível


postado em 05/04/2020 04:00 / atualizado em 05/04/2020 09:31

(foto: Muhammad HAJ KADOUR / AFP)
(foto: Muhammad HAJ KADOUR / AFP)


Três colapsos ameaçam nosso futuro. O primeiro, e mais falado, é o colapso da saúde pública, um abismo à beira do qual sucessivos governos dançaram, até que viesse esse corona para nos obrigar a transformar estádios esportivos e centros de convenção em hospitais de campanha.

O segundo colapso que nos ronda é o financeiro. Milhões, aliás dezenas de milhões de famílias, literalmente, não saberão de onde tirar dinheiro no fim deste mês, mesma condição vivida dramaticamente por milhões de micro e pequenas empresas.

O governo corre para evitar esse colapso com anúncios de apoio que ainda não saíram do papel. Veremos. O terceiro colapso vem se formando devagar, porque é uma onda gigantesca que demora a se levantar até se despejar, como um sonho mau, sobre nossas costas desprotegidas: é o colapso das contas públicas.

A crise atual tem muito a ver com a Teoria do Caos. As repercussões de pequenos, até ínfimos, fenômenos físicos não podem ser minuciosamente antecipadas. Pode ser algo tão corriqueiro quanto a turbulência na água causada pelo pouso de um pássaro na superfície inerte de um lago. Fala-se também do tremor de terra na Califórnia, causado, a milhares de quilômetros de distância, pela batida de asa de uma borboleta na China.

O tremor financeiro mundial causado por um vírus imperceptível, hospedado em morcegos no interior da China, depois vendidos e jantados por humanos como se fossem galetos comprados na padaria, é de uma tão absoluta improbabilidade que ninguém, com atestado de sanidade, se atreveria a prever sua ocorrência. Muito menos seus dramáticos desdobramentos.

É hora de tentarmos prever até o imprevisível. O colapso do sistema de saúde pública era uma poule de dez: todo mundo já sabia das suas lamentáveis limitações. O colapso financeiro de famílias e empresas, este ainda estamos pagando para ver.

O governo federal, atarantado com a súbita mudança de script de uma peça que imaginava de um certo jeito e deu uma guinada, demorou a reagir, e ainda corre atrás da curva dos fatos, em pacotes sucessivos de liberação de gastos. Não se vê ninguém “fazendo contas”.

O governo vai aceitando pressões para abrir as burras do Erário, sem ter a noção clara do que isso repercutirá nos orçamentos vindouros. Isso produzirá o terceiro colapso. O Congresso se apressa em aprovar um “orçamento saci-pererê”, porque só tem uma perna – a do gasto ilimitado –, sem qualquer compromisso, atual ou futuro, com a identificação de fontes de receita para cobertura desses dispêndios inusitados.

Projeções arriscadas e corajosas da RC Consultores indicam uma explosão do déficit primário (que não computa gastos com juros) da ordem de R$ 500 bilhões este ano e, em 2021, mais R$ 350 bilhões. O impacto de quase R$ 1 trilhão em novos déficits primários, a serem financiados com mais dívida pública, aponta um salto da proporção dessa dívida sobre o PIB para a casa de 100%. Qual a consequência disso? Acréscimo de 4 milhões de sofredores na fila do desemprego aberto, o número total saltando, em 2021, para cerca de 16 milhões de desempregados.

Lamento pelo presidente Bolsonaro e sua equipe. Mas governar o país, qualquer país, não é para curiosos amadores. Ao mesmo tempo, torço muito para que se ache o caminho. Fizemos melhor: além de torcer, produzimos um roteiro com ideias “fora da caixa”, num Programa de Retomada Consciente da economia. Por que essa abordagem de olhar para o crescimento futuro em plena crise de aguda recessão e recuo do PIB? Exatamente para enxergar a saída além da crise. É preciso sair da crise crescendo o dobro do que antes se supunha. Isso é crucial, não só para pagar as contas megadeficitárias do presente, mas sobretudo para manter os empregos estabilizados após o efeito da mesada emergencial que será paga agora pelo governo. Os mercados financeiros precisam acreditar que o nosso futuro existe. Não por declarações vagas, mas por um planejamento sólido do que haverá de acontecer. O futuro só existirá se o fizermos crível.

(*) Paulo Rabello é coautor do Programa de Retomada, da RC Consultores.

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