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Estado de Minas

País vive crise ruinosa ou redentora?


postado em 23/08/2019 09:00 / atualizado em 23/08/2019 11:16

Se houver punição ao Brasil pelos consumidores e governos, produtos como soja, milho e carne sofrerão perdas de vendas e de rentabilidade(foto: Monsanto/Divulgação)
Se houver punição ao Brasil pelos consumidores e governos, produtos como soja, milho e carne sofrerão perdas de vendas e de rentabilidade (foto: Monsanto/Divulgação)
Pessoas, empresas e nações enfrentam dois tipos de crises: a ruinosa, que leva à desarrumação definitiva de uma história de vida, ou a modalidade redentora, que nos empurra a enxergar caminhos e evitar o afundamento. O Brasil vive e continua na crise porque o governo, apesar de novo, enfrenta monumental desgaste. Para o governo e o país se realinharem, já não basta votar o texto de uma ou duas reformas no Congresso. Isso é básico, mas não basta. O novo rumo, da conciliação nacional e da recuperação da autoestima do povo brasileiro, depende de o governo demonstrar domínio e conhecimento dos problemas nacionais, dar bom exemplo e liderar de modo a inspirar confiança no futuro.

Um líder sonha com metas e as define para a Nação. Como fez o grande mineiro JK. A orquestra, quando toca, está atenta à partitura e ao maestro. Faltam-nos ambos. O país é tocado sem partitura. Ter consciência do nosso déficit de liderança é mais crucial do que reconhecer, por exemplo, que o déficit fiscal, como está, alargará o tamanho da crise. O caminho perdido do equilíbrio e da satisfação coletiva só será retraçado por cabeças livres de ideologismos e por corações sintonizados com a grandeza nacional. Exemplos? JK foi assim, um maestro do imaginário nacional. Comparemos. Ou, melhor, nem comparemos. Vamos ajustar nossa expectativa a uma época de precarização geral.

'O perigo que ronda a crise é o governante da hora romper com o futuro e acelerar em direção ao passado. Seria o governo em marcha a ré, em vez do avanço corajoso e consciente. A situação no campo ambiental fala disso'

O perigo que ronda a crise é o governante da hora romper com o futuro e acelerar em direção ao passado. Seria o governo em marcha a ré, em vez do avanço corajoso e consciente. A situação no campo ambiental fala disso. Brigamos com noruegueses e alemães e os mandamos às favas, crentes que abafamos. Esnobamos a cooperação deles, que vem de anos na conservação ambiental do bioma amazônico. Num único gesto, jogamos fora uma relação paritária e correta. A celeuma é sobre o uso dos recursos do Fundo Amazônia, que tive ocasião de supervisionar à frente do BNDES. O banco é gestor do fundo. Os auditores externos europeus consideram a política de aplicação do fundo como padrão de referência mundial pela alta qualidade e transparência dos resultados. A gestão é feita por quem entende do riscado. Quem tem interesse, poderá constatar isso no Livro Verde  que lá deixei publicado.

A desconstrução da boa relação com os europeus pode levar a coisa muito pior do que a exposição negativa sofrida pelo presidente na mídia internacional. Pode pipocar, a qualquer momento, uma reação viral contra produtos brasileiros do nosso agronegócio. Consumidores de fora podem passar a rejeitar produtos de origem brasileira. Um embargo de compras pode vir amparado no discurso de que o Brasil está pondo fogo na floresta amazônica. Décadas de trabalho diplomático e de campo no controle ambiental vão por água abaixo. Se houver punição ao Brasil pelos consumidores e governos – nossos clientes comerciais –, produtos como soja, milho e carnes, e até o café brasileiro, sofrerão perdas de vendas e de rentabilidade, atingindo o agronegócio de norte a sul do país.

Com as queimadas, nossos concorrentes agirão para nos bater onde somos mais vulneráveis: no bolso do produtor brasileiro. Fazendo uma rápida estimativa do prejuízo potencial, em rendas perdidas, face a um embargo ao Brasil, e tomando como base os prejuízos decorrentes da Operação Carne Fraca, chegamos facilmente a números de prejuízo potencial superiores a R$ 50 bilhões. Ou seja, um múltiplo de tudo o que precisaríamos gastar na Amazônia para fazer um ótimo controle ambiental.

O competente governador do Mato Grosso, Mauro Mendes, conversando comigo esta semana, manifestou séria preocupação com o tema, até pela repercussão que teria sobre o grande esforço de reequilíbrio das finanças estaduais. A receita do ICMS poderá desabar, colocando muitos estados em grande estresse fiscal num ano eleitoral.

A falta de consciência do líder produz a desgraça dos liderados. A crise se agrava e se aprofunda. Mas ainda dá tempo de mudar. A crise ruinosa ainda poderá inspirar uma reviravolta na atitude das nossas lideranças. De ruinosa, hoje, a crise pode vir a se tornar redentora.

*O economista Paulo Rabello de Castro, ex-presidente do BNDES e autor do best-seller O mito do governo grátis,  estreia sua coluna hoje no EM. 
 


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