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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Te conheço

Comemorei o fato de que ela também tem lapsos de memória%u2019


postado em 15/12/2019 04:00 / atualizado em 14/12/2019 20:00

Como sempre faço, lá estava eu no sacolão com minha mãe para as compras da semana. Ao entrar, temos um ritual já bem demarcado. Vou na frente, pego dois carrinhos e entrego um a ela. “Você vai querer biscoito de polvilho hoje? ”, pergunto mesmo já sabendo a resposta. Vai que ela muda? penso. As embalagens não auxiliam a leitura do prazo de validade. Os que gostamos vêm com a data impressa em alto relevo e muitas vezes nem uma lupa superpotente é capaz de tornar a informação visível. E foi numa destas que encontrei Marta.
 
“Por favor, veja se consegue ler a validade?”, disse ela. A voz me pareceu familiar e o rosto ainda mais. Depois de todo o esforço e de nos darmos por vencidas pela dificuldade, olhei para ela e disse: “Te conheço”, o que ela não negou, do contrário, enfatizou. Passamos a ter então um novo problema. De onde, o que nos juntou e nos separou um dia?
 
Confesso que comemorei o fato de que ela também sofre com lapso de memória. Coisa chata, que acontece comigo com frequência, é encontrar alguém na rua que sabe meu nome, se dirige tão intimamente a mim, me pergunta sobre a família nomeando todos e eu fico lá com aquela cara de pedido de socorro sem a mínima ideia de quem seja meu interlocutor.
 
O melhor daquele momento é que eu não precisei fingir que sabia quem era ela e muito menos me desculpar como se estivesse cometendo um crime inafiançável. Adoro situações em que posso ser humana, adoro encontrar pessoas junto das quais não preciso fingir isso ou aquilo. E pergunto quem de nós nunca se esquece ou não se engana com frequência? Isso acontece até mesmo com aqueles que se vangloriam por ter excelente memória auditiva, fotográfica e de nomes, tenho certeza.
 
Aperta daqui e dali, fomos lá na infância, escolas, trabalhos, lugares por onde moramos, amigos e sua voz cada vez se fazia mais familiar. Até que citou o nome completo, ou melhor, o nome anterior à separação. Eureka! Você foi minha professora no mestrado e doutorado.
 
O que a assustou, num primeiro momento, foi que convivemos por um bom tempo e isso não tem muito tempo. Ao fazer este comentário, me chamou a atenção o fato de que não estamos assim tão velhas para esquecer algo ou alguém tão recente. Rimos um pouco, atualizamos nossos passos e nos dirigimos cada uma à sua banca de verduras e legumes prediletos ou necessários.
 
A esta altura, minha mãe já enchia o carrinho, enquanto cumprimentava um e outro com quem cruza toda semana naquele espaço, que reúne basicamente os mesmos. Até que um dia mudemos nosso roteiro e tudo aquilo passe a fazer parte do passado, um momento de vida que não arrisco dizer que não esqueceremos jamais.


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