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Estado de Minas

Entre o bem e o mal

Graça mesmo tem mirar, atirar e ter a certeza do abate.


postado em 10/11/2019 04:00


 
Enfim fui ao cinema assistir Coringa. Adoro filmes que nos colocam do lado no qual insistimos em dizer que nunca ocupamos. Mas, sim, querendo ou não gravitamos entre um papel e outro a todo instante, entre sermos o bom mocinho e o terrível vilão. Ou você acha que não?
 
Um dia antes de ver a brilhante atuação de Joaquin Phoemix no papel do grande rival de Batman, contava a uma amiga sobre minhas aventuras pela África do Sul. Como todo turista brasileiro, fiz um safári onde pude ver ao vivo e a cores os protagonistas dos documentários da TV e do zoológico, enquanto em outros pontos daquele continente outros grupos de pessoas saiam à caça, literalmente, de animais semelhantes aos que me deixavam encantada só de vê-los vivendo livremente numa preguiça danada debaixo daquele sol lascado. Pagam caro para matar e deixar por lá a carcaça. Graça mesmo tem mirar, atirar e ter a certeza do abate.
 
“Eu jamais mataria um leão, uma girafa. E por puro prazer. Que horror! ” E acredito que ela estava dizendo a verdade. O que pegou foi o arremate. “É pecado, com certeza”. Bem, certeza mesmo tenho é em relação ao fato de que cometemos aquilo que se convencionou chamar de pecado, mas é melhor deixar a culpa para os outros, os selvagens, eles que tratem de assumir suas responsabilidades. Afinal, estes bichos também não mato não, mas todo o resto faço, pensei. E ela também, arrematei. Mas pensar assim tira todo o romantismo da vida, não é? Deixemos de lado, então. É mais fácil e confortável.
 
Como o filme conta a trajetória de vida daquele que se tornaria o brutal criminoso conhecido como Coringa, e mostra as injustiças das quais fora vítima desde a infância e tudo mais, acabamos temos dó do sujeito no final das contas. Ele também é vítima, a diferença é que a parte algoz dele supera as nossas, ou a da maior parte de nós. Todos usamos máscaras, inúmeras, inclusive a de coringa quando bem nos convém, e sabermos ser bem cruéis. Uma crueldade que, como o personagem, não nos incomoda, ao contrário nos torna mais seguros.
 
Torcer por ele em vários momentos da história deveria nos servir de alerta para nossas próprias possibilidades. Torcemos para que revide as agressões, porque oferecer a outra face ainda não conseguimos e não seria ele a fazê-lo. Ao mesmo tempo, nos assustamos quando, a partir de certa parte do filme, ele não apenas reage às agressões como exagera nas respostas que dá.
Pena que o que nos alerta sejam apenas os extremos. É a coragem de caçar um leão ou uma girafa pelo prazer de matar, é a coragem (ou a covardia) de encher de tiros alguém que comprou uma briga por um motivo fútil. Por outro lado, nossa incapacidade de perdoar as pequenas falhas dos outros faz parte da vida, já nos acostumamos a ela e não fazemos nenhum esforço para mudar. Este é o nosso problema, não o do Coringa.
 
 
 


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