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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Um qualquer

Há também um lado positivo que nos iguala


postado em 08/09/2019 04:00


 
Qualquer uma serve, me dê um qualquer, qualquer pessoa pode fazer isso, qualquer hora está bom, em qualquer lugar, qualquer sabor, de qualquer jeito, gosto de qualquer tipo de música, comida, filme, livro. Assim respondemos a algumas questões e fazemos muitas de nossas escolhas.
 
Qualquer não especifica nada, mas ao mesmo tempo pode se referir a tudo e a todos como quando dizemos que qualquer maneira de amor vale a pena. Na linguagem oral pode significar também nenhum quando, por exemplo, o usamos para excluir: não aceito qualquer desculpa, não quero saber de qualquer outra alternativa. Denota algo ou alguém sem importância, tem um certo ar de desprezível, de um qualquer. Tanto faz.
 
Ouvi uma pessoa reclamando que no lugar onde estava a tratavam como uma qualquer. Minha reação imediata foi perguntar: “mas um qualquer pode ser maltratado? ”, acreditando, claro, que ela lamentava o fato de não estar sendo valorizada a altura de sua posição social, intelectual, econômica, política, religiosa e todas as demais que crê ocupar e a diferenciar.
 
Como um qualquer, neste caso, costumamos qualificar quem julgamos estar em posição inferior à nossa. E este é nosso maior problema, acreditar que o valor pessoal segue uma hierarquia bem definida o que torna alguns inferiores a outros. Não seríamos de fato todos um alguém?
Um mendigo, coitado, é um qualquer, assim como aquele ali, não importa quem. Nos pegamos falando isso com frequência, por mais assustador e antiético que possa parecer.
 
Mas há também um lado positivo no potencial que nos nivela, nos iguala. Essa percepção pode se dar com qualquer um, principalmente quando convivemos com pessoas diferentes de nós. Ao nos permitirmos circular por diversos grupos, do tipo que julgamos serem inferiores ou superiores aos que nos identificam, somos convidados a erradicar a ilusão na qual nos coloca o personalismo. “Eu sou isso ou aquilo” nos posiciona acima até do que realmente somos.
 
Só apreendemos a enxergar o outro se aceitamos viver na diversidade, se pautamos nossas relações no equilíbrio, na condição de iguais, apesar de todas nossas diferenças e divergências. Temos nossos pontos máximos, limites que ainda não nos foi possível ultrapassar, estamos em faixas diferentes de interpretação do mundo e tudo mais que o implica, mas nada disso nos dá o direito posicionar os outros como quaisquer uns e muito menos a nós mesmos.


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