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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Começo de conversa

Qual adulto não se divertiria ao presenciar sua alegria?


postado em 04/08/2019 13:46 / atualizado em 04/08/2019 13:49


 
 
Em 18 de julho, desembarquei no Brasil de volta da caravana humanitária organizada pela Fraternidade Sem Fronteiras, missão que me propus a fazer na África, mais especificamente no Malawi, sexto país mais pobre do mundo. Conforme prometido em minhas últimas colunas, começo aqui o relato de minha experiência cuja sequência você vai encontrar nas páginas 4 e 5 deste caderno. Foram 10 dias extremamente enriquecedores e transformadores e já planejo meu retorno, tão vivas ficaram em minha mente as comoventes histórias de tristeza e superação dos que vivem no Campo de Refugiados de Dzaleka, no Malawi, África.
 
A caravana era com foco na saúde. Como a maioria dos 36 caravaneiros tinha direito a despachar duas malas de até 32 quilos e uma bagagem de mão de até 8 quilos, reduzimos ao máximo o espaço para nossos pertences pessoais, privilegiando os medicamentos, escovas de dentes e roupas de frio para as crianças, visto que lá é inverno agora e ele costuma ser rigoroso. Em minhas malas levei também quatro máquinas de costura de uso doméstico, além de todo o material necessário para montar lá uma oficina.
 
Tínhamos a expectativa de poder distribuir, nós mesmos, algumas das coisas que levamos. Com amor fizemos roupinhas e acessórios, compramos alguns brinquedos e guloseimas. Afinal, qual criança não gostaria de receber e qual adulto não se divertiria ao presenciar sua alegria? O maior problema é o volume de pessoas, assim como o nível de necessidade e carência delas. Imagine-se diante de quase 40 mil pessoas, sendo 19 mil crianças, tentando distribuir algo com potencial de afastar, nem que por alguns minutos, todo tipo de carência.
 
Fácil compreender que provavelmente seríamos pisoteados. E não podemos, por cima de nossa pretensa superioridade e real arrogância, acusá-los de mal-educados e ignorantes. Não. Não há educação informal ou formal capaz de resistir à fome, à sede e à dignidade “esquecida” quando se vê obrigado a largar família, casa, profissão, fugindo de uma violência brutal em busca da sobrevivência. A distribuição será feita aos poucos por nossos líderes, os também refugiados Frank e Maick, que dedicam sua vida a servir aos ainda mais vulneráveis.
 
A vontade de sobreviver de todas daquelas pessoas me admirou. Como creem no valor de simplesmente estar vivos! Grace, minha intérprete, moça jovem e bonita, evitou me dar detalhes de sua trajetória de fuga do Congo para o Malawi. Disse apenas que, apesar de não saber se os pais ainda vivem, não deseja voltar. “Aqui encontrei a paz”, resumiu. “Meu Deus!”, pensei, “se ela chama o que vive aqui de paz, não quero imaginar o que passou por lá”.
 
Ela me alertou para o fato de que “paz” é um conceito pessoal. Quando retornar ao Campo de Refugiados de Dzaleka, quero poder dizer a ela, olhando em seus amendoados e grandes olhos, que hoje sei o que paz significa. Eu também a encontrei, my friend, mesmo aqui neste pedaço da terra que, num primeiro momento, classifiquei como inferno.


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