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Com feiras e eventos suspensos, artesãos buscam vendas digitais

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O discurso político dos governos que propõem “salvar a economia” a conter as mortes pela COVID-19 só mostra a incapacidade do poder público ou falta de vontade de oferecer assistência a empresários, trabalhadores e empreendedores afetados pela pandemia. Não se discute a preservação da vida. Cabe ir além de uma política de enfrentamento dos efeitos da crise do novo coronavírus, que parece pecar por excluir. Em Minas Gerais, um desses setores esquecidos é o dos artesãos.



Os trabalhos de pelo menos 500 mil pessoas que se dedicam à atividade no estado devem movimentar cerca de R$ 3 bilhões por ano, de acordo com estatísticas que precisam, inclusive, de atualização. Além da injeção de recursos, trata-se de um setor que estimula outras cadeias de produção, e é estimulado por elas, como o turismo e a valorizada gastronomia mineira.

Com o avanço da pandemia e as necessárias medidas de isolamento social, mais de 57 feiras e eventos de promoção e vendas do artesanato no Brasil foram cancelados, nas estimativas de Tânia Machado, presidente do Instituto Centro de Capacitação e Apoio ao Empreendedor (Centro Cape), com experiência de 28 anos no setor, e responsável pela Feira Nacional de Artesanato, em Belo Horizonte.

Somando-se os pequenos eventos, pelo menos uma dezena de oportunidades de venda para os artesãos em Minas deixou de ser realizada. Alguns dos eventos devem ser retomados a partir de setembro. Contudo, será preciso fazer adaptações. O calendário da Feira Nacional está mantido para dezembro envolvendo novo formato, com protocolos para conter aglomerações. É um evento de grandes proporções, com expectativa de receber ao redor de 100 mil pessoas. A edição do ano passado reuniu 4.200 artesãos e proporcionou vendas de R$ 56 milhões, somados os negócios presenciais e on-line.



Pesquisa encomendada pelo Centro Cape mostrou que 69% dos artesãos paralisaram as vendas com a quarentena. Ainda durante o isolamento social, aqueles que seguem vendendo em casa e em suas oficinas somam apenas 16,5% e o universo de negócios realizados pelo comércio eletrônico e a internet só alcança 25,8%.

Diante dos resultados, a organização sem fins lucrativos está trabalhando num projeto de assessoria aos artesãos para que eles aprendam modelos digitais de vendas. Tânia Machado conta que o Centro Cape estuda junto ao Sebrae o lançamento de market places, os chamados shoppings virtuais, com administradores, que poderão ser regionais ou construídos por produto, dada a variedade e qualidade da criação mineira e brasileira.

Nada impede que o artesão participe de mais de um site de vendas. Faz parte da iniciativa orientar os próprios artesãos a elaborarem estratégia de vendas on-line. A lista de dificuldades que eles têm é, de fato, extensa: como fotografar e divulgar os produtos, escolher a embalagem adequada, transformar cliques em vendas, lidar com a tecnologia e os fretes caros.



Assistência é fundamental, como identificou a pesquisa, uma vez que apenas 30% dos artesãos vendiam pela internet e o comércio eletrônico antes da pandemia, e 60,1% vendiam seus produtos em feiras e eventos. Mais de 40% dos entrevistados têm o artesanato como única fonte de renda.

Até quarta-feira, mais da metade (52,5%) não havia se cadastrado para receber a ajuda emergencial do governo, o chamado coronavoucher. Entre os 374 artesãos que haviam respondido à pesquisa, boa parte não se enquadrou nas regras do auxílio ou o desconhecia. Isso ocorreu a despeito de o Centro Cape ter feito uma campanha esclarecendo as regras da ajuda financeira.

MÃOS MÁGICAS
8,5 milhões
é o número estimado de brasileiros que fazem trabalhos artesanais


REIVINDICAÇÕES
Há relatos dramáticos de artesãos feitos ao Centro Cape sobre a situação após a pandemia. Artesã com registro de microempreendedora individual lamenta não ter tido acesso à ajuda emergencial. Artesão sem perspectivas de vendas pede ajuda financeira, depois de ter ido a banco, sem conseguir empréstimo.


FEIRA NACIONAL
A 31ª Feira Nacional de Artesanato – “Rotas do Brasil” está mantida para o período de 1º a 6 de dezembro próximo. Em linha com os protocolos para evitar aglomerações, os organizadores programaram o lançamento de visitas virtuais e convite com data e horários determinados.