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Estado de Minas

Bolsonaro e a ingovernabilidade

O mais terrível é que o país passa pela mais grave crise da história econômica republicana. Bolsonaro não consegue liderar o processo político que poderia levar à recuperação


postado em 26/06/2019 04:00 / atualizado em 26/06/2019 10:14

Jair Bolsonaro é um presidente da República pouco afeito ao trabalho. Sua agenda diária é uma demonstração de que gosta do ócio. Começa a despachar tarde e termina cedo. Raramente participa de reuniões com os ministros. Não sabe selecionar as prioridades. Mantém um ritmo de ação como se ainda estivesse na Câmara, onde permaneceu 28 anos como membro do baixo clero sem nunca ter relatado nem sequer um projeto. Viaja aos estados sem planejamento. Foi ao Rio de Janeiro para tratar do Grande Prêmio Brasil de Fórmula-1. Isso quando a cidade não tem um autódromo e vive conflagrada, em verdadeira guerra civil, tendo, inclusive, regiões liberadas, controladas pelo tráfico ou pelas milícias. Mesmo assim fez questão de estar presente a uma reunião onde se discutiu a possibilidade de esse evento ser transferido de São Paulo para o Rio de Janeiro. Sobre segurança pública, saúde, educação, habitação, infraestrutura, nenhuma palavra. Dedicou horas a uma ação administrativa irrelevante, demonstrando, mais uma vez, que não sabe estabelecer prevalências. A improvisação é uma característica do seu governo. Indo desde a falta de um projeto nacional até o estabelecimento de uma simples agenda de trabalho. Dá a impressão de que ainda não sabe suas atribuições, o que faz um presidente da República. Não se sente bem no exercício do cargo. Reclama diariamente quando cobrado. Destrata a imprensa, desmente ministros, desconhece parte das ações governamentais. Não sabe dialogar, não ouve e fala obviedades. Imaginava-se, quando da eleição, que os ministros que despacham no Palácio do Planalto pudessem controlá-lo. Doce ilusão. Bolsonaro age impulsivamente, sem pensar, sem imaginar as consequências. É incontrolável. Pior, se acha o esperado, o ungido. Mas não passa de um messias de ópera-bufa. O mais terrível é que o país passa pela mais grave crise da história econômica republicana. Bolsonaro não consegue liderar o processo político que poderia levar à recuperação econômica. Não tem o perfil exigido para um momento tão grave como este. Desconhece os projetos do seu próprio governo. Não tem uma visão de totalidade. Ao invés de buscar construir maiorias, é especialista em dividir, em buscar o confronto. Ataca desnecessariamente as principais lideranças políticas. Não apresenta as divergências. Opta por simplificações dignas de uma discussão em um botequim de beira de estrada. O senso comum se transforma em prática rotineira. Quer viver da tensão pois não consegue estabelecer sólidas relações políticas. Isso porque não domina as principais questões de Estado. Desconhece de tudo, um pouco: relações exteriores, economia, educação, saúde. A ingovernabilidade é, até o momento, a sua principal característica, sua principal marca. Não sinaliza aos agentes políticos ou aos agentes econômicos um caminho. Tudo é confuso. Busca encontrar entre seus adeptos %u2013 boa parte deles fanatizados, sem qualquer consciência crítica %u2013 apoio para a irracionalidade. Recebe loas que não se materializam em ações de governo. Perdido, escolheu disparar a esmo, sem identificar quem poderá ser seu aliado. Assim, fica isolado e, a cada dia, perde apoio parlamentar. Hoje teria, numa estimativa otimista, cerca de 20% dos deputados na sua base política. Fica patente que não tem uma maioria para poder governar. Se exaspera, mas não inicia um processo de construção de diálogo permanente. Imagina que seria uma demonstração de fraqueza. Em meio a esse caos, Bolsonaro resolveu que já é candidato à sua própria reeleição. Isso antes de completar um semestre de governo. Pior, em meio à estagnação econômica. Mais ainda, com as pesquisas já demonstrando que a desaprovação começa a superar os índices de aprovação. Irritadiço, tem nos intelectuais um dos seus alvos preferidos. Demonstra um enorme complexo de inferioridade. Não consegue estabelecer uma simples troca de ideias. Desqualifica o oponente, pois não tem o que dizer. Tem no Estado democrático de direito um adversário. Reclama sistematicamente da Constituição. Critica o Supremo Tribunal Federal (STF). No outro dia, o alvo é o Congresso Nacional. Desconhece o funcionamento das instituições. Nunca leu a Carta Magna. E como justificativa para a sua inépcia, resolve desviar o discurso para a questão de gênero. Aí arrola um conjunto de barbaridades. Enquanto isso, o Brasil está à deriva. Se Jair Bolsonaro é incapaz para liderar o país, a oposição não fica atrás. Também não consegue construir um projeto nacional, não qualifica o debate político. Aguarda o aprofundamento da crise, presumo. Os brasileiros estão cansados. São muitos anos de frustrações. Em vez de caminhar, sempre patinamos. O mundo cresce e nós permanecemos no mesmo lugar ou, até, regredimos %u2013 como nesta década. O país do futuro hoje olha saudoso para o passado, para as antigas glórias. O otimismo desapareceu. O pessimismo tomou conta do Brasil.


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