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Estado de Minas ENTRE LINHAS

Bolsonaro criou crise, de forma truculenta, agora com as Forças Armadas

Presidente repete as transgressões que cometia quando era simples tenente do Exército


31/03/2021 04:00 - atualizado 31/03/2021 07:41

(foto: EVARISTO SÁ/AFP)
(foto: EVARISTO SÁ/AFP)
Uma das características do presidente Jair Bolsonaro é a capacidade de surpreender os adversários e até os aliados quando acuado, como aconteceu na semana passada, em razão do agravamento da pandemia de COVID-19 e as dificuldades de seu governo para conseguir as vacinas necessárias para imunizar a população.

Depois de ser obrigado a substituir o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, o presidente da República teve que entregar a cabeça do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Entretanto, o que era para ser apenas uma concessão aos líderes do Congresso – especialmente aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) – e aos partidos do chamado Centrão, resultou numa reforma ministerial no gambito do Palácio do Planalto, na qual Bolsonaro reforçou seu controle sobre as Forças Armadas, com o claro propósito de aumentar seu poder pessoal em relação aos demais poderes, à oposição e à sociedade.

No jogo de xadrez, o gambito é uma manobra em que se oferece um peão para adquirir vantagem de posição, romper a posição central do adversário e/ou organizar um ataque mais rápido ou eficiente.

Foi mais ou menos o que Bolsonaro fez na reforma ministerial, para se blindar institucionalmente contra os demais poderes, temendo o próprio impeachment, o fantasma que assombra suas noites no Palácio do Alvorada.

No caso das Forças Armadas, a substituição do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, pelo general Braga Netto, seu chefe da Casa Civil, provocou um striker no alto-comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, com a renúncia/demissão (há controvérsias) de seus comandantes, precipitando um processo de renovação de lideranças das três forças sem precedentes.

A razão seria o desalinhamento do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, em relação à política de Bolsonaro, mas o desfecho da operação revelou que seus colegas da Marinha, almirante de esquadra Ilques Batista, e da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Antônio Carlos Bermudez, sustentavam a mesma posição. Bolsonaro quer reforçar seu poder sobre as Forças Armadas.

Lista tríplice

O respeito absoluto das Forças Armadas à Constituição e o esforço permanente dos comandantes militares para manter a política fora dos quartéis contrariam Bolsonaro, que faz exatamente o contrário e se sente ameaçado pela oposição.

Teme também os líderes do Centrão e avalia que não tem o apoio que gostaria das Forças Armadas. O vice-presidente Hamilton Mourão é tratado como um conspirador.

Esses sentimentos estão exacerbados, porque o cenário eleitoral ganha contornos desfavoráveis para sua reeleição, devido à pandemia e à recessão, ainda mais com uma eventual candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não examinou a liminar do ministro Edson Fachin que anulou as condenações de Lula. Bolsonaro esperava que os generais Fernando e Pujol tivessem criticado a liminar.

Bolsonaro criou mais uma crise do nada, desta vez nas Forças Armadas, pela forma truculenta e deselegante como o ministro da Defesa e os comandantes militares foram afastados.

As regras do jogo nas promoções e escolhas de comando das Forças Armadas foram criadas nos governos Castelo Branco e Ernesto Geisel, para combater a anarquia militar e preservar a hierarquia. Bolsonaro tem um histórico de transgressão a essas regras quando ainda era militar da ativa.

Como político, por ironia da história, acabou eleito presidente da República com apoio dos militares, e os trouxe de volta ao poder, inclusive oficiais da ativa, o que desagradava aos comandantes militares que deixam seus cargos.

A sucessão nos comandos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica normalmente o corre mediante a indicação de uma lista tríplice elaborada pelos integrantes do alto-comando de cada força: sete almirantes de esquadra, 17 generais de exército e sete tenentes-brigadeiros.

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